Bruno Bou Haya

quinta-feira, janeiro 15, 2015 by

– Desculpa, eu tô jantando enquanto falo com você…
– Você quer que eu te espere uns minutinhos?
– Nunca é esperar. A vida é muito louca.

Começou assim um bate-papo com Bruno Bou Haya, 22 anos, numa tarde quente de uma terça-feira no Rio de Janeiro. Formado em Relações Públicas (“meio frustrado mas tudo bem, tamo aí”), Bruno vem se definindo, entre outras coisas, como fotojornalista há mais ou menos um ano.

RM: Como foi esse início?
Eu comecei a fotografar no meio da Jornada de Junho. Eu não conseguia me inserir de forma completa na Jornada mas depois eu percebi que ninguém se encaixava completamente. Então fotografar foi uma forma de me inserir naquilo, de participar sem estranheza.
Eu não tive tempo de me formar como fotógrafo, eu não fiz nenhum curso de fotografia. Foi muito pela densidade de uma formação não acadêmica… Por mais que eu ganhe dinheiro com isso, eu sou mais fotógrafo por teimosia.

Eu gosto muito da definição do João Roberto Ripper: ele fala que é um fotógrafo humanista. Pra mim é muito isso porque eu não gosto muito de tirar foto de paisagem. Eu gosto de tirar foto que tenha alguma pessoa no meio.

Eu gosto de foto com pouca informação e no fotojornalismo isso já não cabe. Você tem que ter o maior número de informação possível. Pra que se entenda onde aquela foto foi tirada, em que contexto. O fotojornalismo não prioriza a estética, né? E a minha pegada num primeiro momento foi foto-denúncia – do que tava acontecendo na rua. Mas eu nunca quis deixar, por exemplo, o rosto de uma pessoa totalmente claro. Num ambiente que foi quase totalmente a noite.


Eu valorizava também o documental, valorizava as luzes que estavam lá até porque minha câmera não era super boa. Foi mais ou menos equacionar o equipamento que eu tinha – mais barato – e ir construindo o meu jeito de fotografar.

Eu me consideraria um foto-humanista.

RM: Qual a origem do seu nome?
Bou Haya é um nome libanês. Meus avós são do líbano.

RM: Você prioriza bastante o P&B…
O preto e branco abstrai, deixa a foto mais homogênea. Você consegue valorizar a textura, a idéia, a mensagem.
Eu gosto muito da ficção, sabe? A foto por si só já ficciona a realidade, né? Porque você fez um recorte da realidade. A foto tá alheia ao mundo, é um recorte, descontextualiza. E quando você bota em P&B me parece que você consegue abstrair mais ainda. O P&B tranquiliza o olhar,  valoriza o gesto. O que me aproxima das artes cênicas.

RM: Filme ou foto digital?
Olha, é muito cômoda a foto digital  mas é sempre um prazer tirar analógica por mais que ainda seja um desafio pra mim. A minha história na fotografia é muito recente – por mais que eu viva isso muito intensamente. Então, acho que só com muita prática.

Mas a fotografia analógica me ensina muito sobre a vida. É sempre aquela espera, né? E a espera é uma coisa que a gente vive cada vez menos. Eu, que sou um fotógrafo de rua, a coisa que você mais faz é esperar. Isso resume o cotidiano do fotógrafo.

Acho que é mais interessante esse aspecto (da fotografia analógica) do que como estética, como arte. Eu uso a fotografia muito mais como um instrumento de vida do que como um instrumento político, cultural. A analógica contribuiu muito na fotografia digital. Essa coisa de você valorizar muito aquele frame, ao invés de disparar várias fotos por segundo.

RM: Você compõe muito a foto então?
Eu acho que mais do que eu deveria. O Capa dizia que depois do quinquagésimo filme é que você vai tirar uma foto boa. Mas eu só tiro uma foto quando eu acho que realmente vale a pena. Aquela foto que eu esperava, eu sou muito crítico. Então eu comecei a fotografar com foto analógica justamente pra quebrar com essa crítica e poder tirar foto das coisas ordinárias, do cotidiano. Mas eu acho que eu penso demais e isso me irrita.

RM: Quais os temas que mais te atraem?
Existe um professor da USP chamado Boris Kossoy que em 85  fazia na fotografia o que o Gabriel Garcia Marquez fazia na literatura; o realismo fantástico.
Ficcionar cenas do cotidiano. É isso que eu tento fazer. Eu tento criar um mundo abstrato a partir de cenas do cotidiano. É como dar pé a um sonho.

Numa narrativa de fotos você cria um mundo abstrato. Tem um projeto no meu site, chamado “Mangueira: o um e o meio”, e eu coloquei duas fotos que não foram tiradas lá. Mas que compõem muito bem aquele espaço. Acho que um fotojornalista nunca faria isso mas não importa porque é o meu mundo e eu tenho a possibilidade de criar, o que me faz um contador de histórias.
Eu não tenho compromisso com a realidade. Eu tenho compromisso com a mudança.

Aqui é que entra a instrumentalização política da arte. Um processo mais profundo. Não é uma mudança imediata. É passar pela ficção para chegar na realidade. Mas isso tudo é coisa de momento, né? Minha foto está assim mas não sei se permanece assim.

RM: E não tem engajamento na sua fotografia?!
O fotojornalista prima pelo conteúdo e não pela forma. Pelo imediatismo, no rítmo industrial…

Eu já tenho mais tempo pruma pauta então eu tento priorizar a forma, dar uma paridade com o conteúdo. Eu posso me dar ao luxo de ter o mínimo de informação tentando dizer o máximo.

Como eu penso política 24 horas por dia, eu acho que a minha foto não é tão política quanto a minha fala. Porque é o lance do caminho mais longo, de passar pela ficção pra chegar na realidade.

Eu admiro a forma como Ariano Suassuna fazia política, com o Auto da Compadecida, por exemplo. Como ele conseguia enaltecer a estética e a cultura brasileiras sem cair no clichê da política.

RM: Quais os fotógrafos da atualidade que você admira?
João Roberto Ripper é um chamego sabe? Acho que a arte tem muito dessas questões muito pessoais. O Boris é um cara que me fascina bastante também. São pessoas que tiveram um papel político também. Nem que seja abertura de processo. O Korda que fez a foto icônica do Che Guevara… Fidel Castro, Simone de Beauvoir, Sartre.

Rola também um pouco de uma inveja, né?

Referências como o Evandro Teixeira são inevitáveis. Quando eu comecei a ir pra rua, cobrir as manifestações, eu fui buscar saber o que o Evandro já tinha aprontado.

Eder Chiodetto, da Folha de São Paulo, fez um livro “Lugar do Escritor” que eu gostaria de ter feito. Que fala de grandes escritores brasileiros e tenta desvendar um pouco o místico no espaço de produção. Ele visitou poetas e escritores que eu admiro. Eu acho que essas grandes idéias é que fazem grandes fotógrafos. Eu acredito que o fotógrafo não é um cara que tem uma câmera na mão, é o cara que vislumbra, que produz a foto.

E também tem o René que é um fotógrafo humanista, de uma sofisticação incrível.

Outro grande fotógrafo é o Marcos Prado. Ele produziu o filme Tropa de Elite. Talvez ele seja o melhor fotógrafo brasileiro. Ele é um fotógrafo lento, ele demora muito pra finalizar um livro, por exemplo. Mas ele é muito impressionante.

RM: O que você gostaria de perguntar pros fotógrafos que você admira?
Por mais que eu saiba a resposta eu gostaria de perguntar pro João Roberto Ripper assim: “Todo fotógrafo sonha em ser o Ripper. E você, o que sonha?”
Eu tenho certeza que ele falaria sobre um mundo mais humano, com mais amor. Mas eu gostaria de ouvir da boca dele. Ele fala de um jeito tão tranquilo… Faz a gente acreditar num mundo melhor.

RM: Como qualquer artista, imagino que o que te inspira pode não estar somente na fotografia…
A literatura, tudo ficcional, o ambiente do sonho… a poesia que te dá todas as possibilidades.
Eu tenho uma foto que eu gosto muito que é a foto de uma ave – que depois eu descobri que é uma garça… Quando eu vi eu pensei no Manoel Bandeira que diz que o poema tem que ter uma falta, uma surpresa. Por isso eu esperei a garça colocar a cabeça dentro d’água.

Isso pauta muito a minha foto. Esconder, não dar muitos detalhes. Eu não gosto de dar título, por exemplo, que eu acho que limita muito. Não te dá toda possibilidade de um devaneio, uma vertigem. A possibilidade de viajar com a foto.

No campo de luz eu já vou muito no Barroco, no Renascimento… que vai cuidar muito do contraste… e que vai valorizar as sombras, o feixe de luz. Tentar ser o mais real com a luz. No fotojornalismo isso já não acontece. O jornalista vai clarear a foto como um todo. Eu já não faço, não me submeto.
Eu sempre emprego essa estética que eu busco – mais Barroca. Certas impressões e certa identidade que eu não abro mão.

RM: O que você espera da fotografia daqui pra frente?
Eu espero seguir fotografando e viajar mais. Conhecer o mundo e as pessoas pra que isso me enriqueça e enriqueça a minha fotografia.
Eu quero pintar, aprender a tocar um instrumento…

RM: Tem alguma coisa que você queira acrescentar?
Eu espero não inverter o motivo de ter começado a fotografar. Eu espero não distanciar a minha foto do povo.
Por mais que eu tente me aproximar da pintura, da fotografia fine art, eu não quero me afastar do povo. Eu acho que a gente tem que usar os instrumentos pra ocupar os espaços públicos. Eu não tenho tanta preocupação de fazer uma galeria. Eu tenho a preocupação de que a minha fotografia possa servir à sociedade.
Se a gente puder buscar parcerias, como os coletivos já fazem, pra que a gente possa não ficar muito alheio, sabe?
Porque a galeria é a abstração máxima, é um quadrado branco que sai da realidade. A gente estar na praça, em ambientes onde circulam o maior número de gente é importante pra que a fotografia e a arte não fiquem nesse mundo paralelo. Porque a arte é o único espaço onde a gente pode gastar energia e que é aceito na sociedade se não der em nada. Fora essa trincheira da arte, nenhuma outra área permite gastar essa energia em vão – ou ter um ócio criativo.
É a partir daí que a gente tem que ampliar. Então a gente tem que ocupar essa porra. É isso.

RM: Porra. Fechou bem.

 

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Cazé

terça-feira, agosto 12, 2014 by

Fernando Sawaya, o Cazé, iniciou a carreira artística através do graffiti. Estudou Design Gráfico e Animação. Já atuou como Web Designer, Motion-Designer e tem como foco a animação 2D. Barbudinho, seu principal personagem, espalha bom humor e reflexão pelas ruas do Rio.

 

RM: Como foi seu primeiro contato com o graffiti?
Tudo começou com a pichação em 2003/04. Tinha minha galera onde eu morava em Copacana e alguns amigos já eram pichadores. Despertei interesse pelo assunto e comecei a riscar uns nomes pelo meu bairro, foi uma trajetória bem curta – nesse meio tempo mudei de colégio e fui estudar no Méier, zona norte do Rio de Janeiro, onde tudo começou: vi os primeiros painéis de graffiti da Nação crew, tive uma aula de artes no colégio falando sobre graffiti e um professor que passou a me incentivar bastante. Conheci outros grafiteiros no colégio e montamos a nossa “crew”, pude acompanhar a evolução dos caras da Nação, Flesh Beck e Acme e aprender muita coisa com eles ao longo dessa caminhada, foram fortes influências para eu construir o meu trabalho.

RM: Você esteve envolvido em projetos educacionais. Como eram esses projetos?
Minha mãe já era engajada em projetos sociais na época e foi ela que me iniciou no primeiro projeto, que foi com menores infratores no bairro de Nova Iguaçu. A partir daí foi um longo percurso, fiquei nessa durante uns 5, 6 anos, passando desde projetos sociais em favelas do Rio de janeiro às penitenciárias da Ilha do Governador, presídios femininos e masculinos. Através do graffiti conseguíamos ter a atenção desses jovens por algumas horas ao longo das semanas e com essa magia que o graffiti tem de entreter o jovem, muitos deles conseguiram através do graffiti sair da criminalidade ou evitá-la, alguns deles pintam até hoje e se tornaram amigos meus.

RM: Acha que o contato com a rua ajuda a despertar ou aprofundar a consciência do artista?
Com certeza, sair de andarilho atrás de um muro pela cidade nos faz entender como a cidade é e como ela precisa da gente.
Andar pela cidade e ver como um bairro é mais visto que o outro pelos nossos governantes é triste.Captura de tela de 2014-06-24 22:45:47Essa reflexão me faz pensar mais sobre o meu trabalho e de que forma irei agir de forma positiva para a rua. E através do graffiti conseguimos dar vida a muitos espaços esquecidos pelo governo.

mucho amorRM: Sua formação é em Design Gráfico. Como isso influenciou ou se refletiu depois na sua arte?
Conheci o Design através do graffiti. Um amigo que pintava comigo, o Grau, é que me apresentou e na sequência tive contato com o Motta, uma das minhas maiores referências como designer. A partir daí fui construindo a minha formação e não larguei mais do ofício, tento mesclar os dois o tempo todo, levando a linguagem de um para dentro do outro.

RM: Você gosta desse intercâmbio entre os diversos formatos/áreas (Web Design, Design Gráfico, Motion Design, Ilustração e Animação 2D)?
Já vi graffitis seus que são como tirinhas…
Como falei acima, um está dentro do outro e através do design, conheci o Motion Design que me levou para a animação 2d, que é área que ando me dedicando paralelo ao Motion. Nesse meio tempo o Tito na Rua, que é o criador do Zé Ninguém e idealizador do projeto Street Comics, me chamou para construir com ele a primeira história em quadrinho nas ruas aqui do Rio de Janeiro e me deu a liberdade de continuar o projeto através dos meus personagens, que é o que venho fazendo em alguns pontos da Lapa. Tenho o personagem Barbudinho, que é um jovem diferente dos padrões impostos pela a sociedade pois ele é barbudo e peludo, através dele tento passar diversas mensagens como por exemplo a causa da bicicleta, tento mostrar através das histórias que bicicleta é um veículo e a importância dela para o mundo. Vou relançar em breve a versão nova do Mucho Amor que é um super-herói que irá contaminar o mundo de amor e lutar contra os malfeitores. O segundo passo dessa brincadeira toda é transformar tudo isso em animação, mas aí já é outra história.

RM: O graffiti é uma arte em que o artista está muito próximo do público, na rua, no dia a dia das pessoas e até no momento da confecção das obras, enquanto as pessoas passam. Isso é importante pra você? Como você vê essa troca, esse diálogo?
Uma das coisas que mais me atraiu no graffiti e me atrai até hoje é esse contato com as pessoas, poder executar uma obra a céu aberto e ao longo dessa execução ser abordado por diversas pessoas te questionando o porquê de eu estar ali, que o que estou pintando está horrível, está lindo, quero uma obra dessas na minha casa, sai daí seu merda, pichador e por aí vai, esse é o real sentimento e essa troca me faz ter a cabeça mais aberta e pensar mais sobre como vou agir e como estou agindo, deixando as minhas marcas nas ruas. Então essa troca é essencial para a minha evolução.

RM: Já teve alguma experiência curiosa nesse contato com as pessoas na rua?
Captura de tela de 2014-06-24 22:52:52

RM: Como você vê o cenário do graffiti no Brasil hoje?
Acho que cada estado tem a sua cena, São Paulo vai ser sempre referência para mim, lá temos uma cidade que reflete literalmente o que a população sente. Vejo um Brasil aceitando cada vez mais o graffiti e a arte de rua, empresas aderindo ao graffiti como linguagem para as campanhas, projetos grandes aparecendo e isso só fortalece a cena, mas sempre o graffiti será ilegal, se apropriar de um espaço que não é nosso é a essência da parada.

nhobi, efixis, anonimundo e cazé no bairro de vila isabel, rio de janeiro

RM: Que artistas da atualidade você admira?
São tantos, mas os principais que admiro pela história e trabalho são o Onesto, Acme, Toz, Motta, Airá, Efixis, Biofa, Tito, Orion, Birita, Nhobi, Tarm, Crânio e Paulo Ito.

barbudinho

Tales Sabará

terça-feira, junho 24, 2014 by

Tales Sabará é de Minas, tem 28 anos e é formado em Pintura e Gravura em Metal.

Vê a arte como um meio de despertar emoções nas pessoas e idealiza projetos que promovam o acesso à cultura.

RM : Como surgiu seu interesse pelas artes?
Hoje, aos 26 de idade, fazendo uma retrospectiva do meu início com o que possa chamar algo próximo das artes visuais, tendo a dizer que meu interesse pelas artes nasce do contato com o desenho, linguagem que se faz presente principalmente na infância, na vida de qualquer um.

Por ser filho de mãe professora e pedagoga e muito influenciado pela minha tia Delvira, também professora, ter o contato com papéis diversos, desenhos para colorir, lápis de cor, caneta e tantos outros materiais sempre foi algo natural. Isso despertou minha paixão e ao longo dos anos procurei aprofundar certos conhecimentos.

Lembro-me de, aos 12 anos de idade, ainda em Congonhas (Minas Gerais), ser inscrito por meus pais em aulas de desenho de observação, ministradas pelo professor Jomadi e de pintura com a professora Nadege. Esses dois profissionais foram muito importantes em minha vida, pois me apresentaram as primeiras noções técnicas da pintura e do desenho. Aliado a isso, a figura dos meus pais (Ângela Sabará e João Sabará) que sempre incentivaram cada passo. Aos 16 anos de idade recordo-me deles me levarem em uma exposição de gravuras de Pablo Picasso. Naquele momento ainda não conhecia muito a respeito do processo de gravura e tudo mais, mas foi suficiente para que eu decidisse o que gostaria de tentar na minha vida profissional, já que os trabalhos do artista espanhol me comoveram profundamente. Naquele momento percebi que um trabalho de arte propriamente dito não estava apenas a serviço da técnica, haveria que ter uma busca maior, tocar outra pessoa, e foi isso o que aquela exposição deixou e que hoje tento a cada projeto.

RM: Você é formado em pintura e Gravura em Metal. O que você busca hoje como artista?
Sou graduado nas duas habilitações e sempre gostei de música apesar de não saber tocar nenhum instrumento. A citação da música aqui é apenas no intuito de dizer o que hoje pretendo com o meu trabalho. Vejo como a música é capaz de chegar às pessoas de forma tão espontânea e natural e ser capaz de emocionar. Sempre que vou a concertos, ou mesmo escutando rádio ou CD em casa me pego também me emocionando em um curto espaço de tempo. A minha busca, tentativa, com os projetos que realizo é: despertar emoções nas pessoas; inserir as artes visuais nos lares e nas vidas das pessoas – tal como a música está presente, já que em qualquer canto do país ou do mundo uma pessoa tem um radinho, mesmo que a pilha; promover o estudo das artes através das crianças e adolescentes.

Esse último item, vem ao encontro da criação do Atelier Kayab. Além de ser o meu local de trabalho em Congonhas (Minas Gerais), esse espaço é também galeria e recebe workshops, oficinas, palestras, em geral, oferecidas às pessoas da cidade em questão e municípios vizinhos, em especial crianças e adolescentes da rede pública de ensino. Com a elaboração de simples projetos pretendo, com a colaboração de amigos, outros artistas e empresas parceiras, incentivar a arte, a cultura e promover oportunidades.

RM: Você participou do projeto “No olho da rua” (fotografia). Como você vê essa troca entre as diversas formas de expressão artística?
A arte visual é um terreno muito fértil e possibilita ao profissional estar em contato com diversas áreas de conhecimento: desenho, pintura, gravura, escultura, vídeo, fotografia, etc. Nas minhas atuais produções, tento a mescla entre os universos e aprofundar o meu conhecimento a respeito de cada área. Cada nova área de atuação ajuda no direcionamento e construção de uma área anterior já estudada.

Com relação ao projeto citado, No olho da rua, a grata oportunidade de trabalhar com os profissionais Patrícia Azevedo, Murilo Godoy e Julian Germain só não foi maior que a oportunidade que esses me ofereceram de aplicar as artes visuais no contexto social. Tal projeto é configurado pelos profissionais citados e a cooperação de diversas crianças e jovens que vivem nas ruas de Belo Horizonte e visa incentivar a produção da fotografia de forma livre e apresentar ao público o trabalho realizado pelos moradores de rua, deixando clara a visão deles de mundo e do que são capazes. Além das questões poéticas e visuais presentes nas imagens que são captadas, esse material está repleto de questionamentos a respeito de diversas questões sociais globais que são trazidas ao público através da distribuição gratuita de jornais contendo as fotografias. Ter participado desse projeto em 2007 transformou a minha concepção de mundo e das reais necessidades humanas.

RM: Algumas de suas obras são bastante características e parecem ter uma ligação entre si. O que as obras como “D. Maria”, “D. Maria II”, “Maria Joana”, “Efigênia”, “Sr Agostinho” representam?

Fazem parte de um projeto intitulado Filhos da Terra. Nesta série de desenhos de grafite sobre papel, retrato homens e mulheres negras da minha cidade natal, Congonhas.

Quando iniciei o projeto, no final de 2008, início de 2009, acreditava que abordava a questão do negro na minha cidade e, por conseguinte, no meu estado ou país. No entanto, com o desenrolar do trabalho percebi que, na verdade, estava falando a respeito da minha identidade cultural, na medida em que estava falando de pessoas que faziam parte do meu cotidiano, como uma quitandeira, uma beata, um senhor do grupo de congado ou mesmo o meu avô paterno.

Aqui chamo a atenção para o quanto é importante para um artista visitar e revisitar o próprio trabalho e ter a oportunidade de apresentá-lo ao público. O primeiro ponto se faz importante para perceber as reais possibilidades e propostas ditas pelo próprio trabalho; o segundo confere a oportunidade do artista compartilhar uma leitura possível com seu público e ao mesmo tempo ter uma ou várias leituras compartilhadas pelo público sobre o trabalho.

RM: A gravura em metal não é uma expressão tão popular. Por que você a escolha?

Quando visitei a exposição de gravuras de Picasso, que possuía cerca de 80 gravuras sendo a maioria gravuras em metal, talvez ali, no ano de 2001, muito distante da minha formação como gravador em 2011, tenha nascido o primeiro desejo de fazer gravura.

Ter feito o curso de Artes Visuais na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) me possibilitou conhecer processos que não eram familiares.

O intuito de estudar gravura em metal, que hoje é uma das minhas paixões, nasceu justamente da minha dificuldade em entender a técnica nos primeiros anos de faculdade. A gravura em metal é a sensibilidade da linha, ponta seca, buril, berceau, rolete e tantas outras ferramentas, ao mesmo tempo há a matriz a ser gravada, a prensa, o papel, as provas de estado, a prova de artista, a reprodutibilidade. Tudo isso em uma área, não é de se espantar o encanto que se desperta.

Após minha formação em pintura (2009) passei a dedicar meus estudos à produção da gravura em metal. No início, o meu embate passou a ser com as questões técnicas desse meio, somente hoje, após 3 anos de estudos, começo a ver outras possibilidades que irão me direcionar para a configuração de um trabalho propriamente dito nesta área.

RM: Suas obras são bem diversificadas. Você usa diversos materiais e técnicas, percebemos uma identidade em alguns grupos de suas obras como os desenhos em grafite, os desenhos em nanquim. Você busca essa diversidade?

A busca pela diversidade técnica passa primeiro pelo desejo de ampliar o meu repertório de possibilidades. Segundo, cada série de trabalhos e ou tema me sugerem apontamentos para qual processo deve ser utilizado. Não quero dizer com isso que a pintura, a gravura, ou desenho, ou qualquer área sejam capazes de dizer coisas específicas, porém percebo que a respeito de determinados temas, a minha pintura, ou o meu desenho, a minha gravura, possam ser mais coerentes. Aliás, considero que tema e processo caminham juntos.

RM: Você vive hoje do seu trabalho como artista? Como vê essa realidade hoje no Brasil?

Hoje o trabalho de artista visual não se resume ao papel de produtor de imagens. Considero que o artista hoje desenvolve trabalhos frente à produção cultural, gestão de projetos, marketing, consultoria, palestras, oficinas, workshops. Com a criação do Atelier Kayab em 2011 e a colaboração de empresas parceiras (Vale, itsNOON, Gallearte e Viamundi Idiomas e Traduções), temos aos poucos iniciado um trabalho que poderemos escalar em pouco tempo e gerar frutos, tanto do ponto de vista financeiro como social. Considero que essa é uma linha de raciocínio de diversos artistas, galerias e empresas apoiadoras e é uma atividade que aos poucos se desenvolve no Brasil.

RM: Que artistas da atualidade você admira?

Todo profissional tem as grandes referências que historicamente foram reconhecidas e comigo também não é diferente. Atualmente eu citaria os artistas que ao longo do tempo a vida me apresentou e hoje se tornaram amigos pessoais, como: Gil Vicente, Marcelo Silveira, Mário Zavagli, Clébio Maduro, Bruno Amarante, Eduardo Rosa, Marcel Diogo, Marcelo Albuquerque, Paulo Fiotti, Manoel Veiga, Renato Valle, Fábio Belotte, Patrícia Azevedo, Luciomar S. de Jesus, Sérgio Barros, Leandro Figueiredo, Daniel Bilac, Gabriela Brasileiro.

Varal Poético – Douguiníssimo

domingo, maio 11, 2014 by

Douguiníssimo (Douglas Aparecido): Poeta, Performer, Agitador Cultural, Videomaker e Fotógrafo. Nascido e criado em Ouro Preto, Minas Gerais, cidade cuja existência se deve a ganância e febre provocada pelo ouro. Nesta antiga vila rica, constitui-se pensador livre pelo curso de filosofia da UFOP. Ativista Cultural, é um dos idealizadores do Movimento Orgânico Imaginário, cuja essência é refletir e desenvolver ações que possibilitem construir novas formas de existência e convívio na nossa massacrante sociedade. Se apropria da poesia, como quem empunha uma arma e através das palavras lança o grito que ecoa e ressoa em todos aqueles que se sensibilizam com o impacto desses versos.

Aos Dr.s da Saúde Mental

Declaro para todos os fins, minha veemente e instituída loucura.
Aquela boa e velha, descabida e maldizida.
A mesma que levou Zaratustra pra montanha
Jesus pro deserto
Icaro pro sol
E Jonas pra baleia.

A mesma que fez Quixote se atracar com moinhos,
Kafka a perder-se de si mesmo,
Torquato Neto a matar-se num banheiro
Cazuza a viver amores inventados
Nero a botar fogo em Roma
E Moises a cruzar o mar vermelho.

Permitam-me, Dr.s da Saúde Mental.
Por favor, me respondam:
Como manter a sanidade nesta ridicularizante sociedade?
Como manter-se mudo diante de uma corja de boas-vidas, pernas-longas e umbigos-miúdos?
Como levar a sério esta estrutura nefanda e carcomida, que só é adoecedora e anti-vida?

Estou aqui vomitando palavras, a verborragia é um efeito do contágio.
Estou doente, veementemente demente, de mente cheia de tudo isto!
Trago o cansaço dos justos injustiçados, sou o eco dos gritos amordaçados!

Dr.s, por favor, tem remédio?
Tem? Remédio?
Por mim, tomem receita:
Loucura pouca é bobagem, eis o antídoto desta antibiótica sacanagem.

Mentirinhas do Coala

sexta-feira, março 14, 2014 by

Fábio é formado em publicidade, curte livros de ficção e aventura e já foi do Corpo de Bombeiros de São Paulo.
É autor do site Mentirinhas, onde publica tiras desde 2010.

RM: Quando você começou a se interessar por quadrinhos?
Como a maioria das crianças meu primeiro contato com os quadrinhos foi lendo Turma da Mônica, mas foi mais ou menos aos 13 anos quando conheci autores como Laerte e Angeli que pensei: também quero fazer isso.

RM: Quais eram seus quadrinhos favoritos?
Quando criança, Turma da Mônica. Depois, na adolescência, Chiclete com Banana, Circo, Geraldão, alguma coisa de super-heróis…
RM: Como foi que surgiu o site? Quando você começou a fazer tirinhas?
Publiquei as primeiras tirinhas com 15 anos, num jornal da minha cidade. O site veio muitos anos depois, em 2010. Foi uma maneira que encontrei de divulgar algumas tirinhas que havia produzido para outro jornal da região e ser um incentivo pra continuar produzindo.

RM: Como você vê essa realidade de hoje em que, com a internet, as pessoas têm mais acesso não só a consumir vários tipos de expressão artística como também produzir?
É muito bom, tanto pra quem “consome” como pra quem produz. A interatividade da internet te permite encontrar exatamente o que te agrada (em qualquer lugar do mundo), onde você estiver e na hora que você quiser. Fora a maior facilidade de interação entre público e artista.

RM: Qual é o perfil do leitor do site?
Tenho alguns “leitores” bem jovens, que gostam do site pelos desenhos, digamos, fofinhos. Mas a maioria está na faixa dos vinte e tantos anos e tem uma visão mais crítica das coisas.

RM: Que visão é essa? Qual é essa crítica?
Tento colocar algumas mensagens, por vezes bem discretas, nas tirinhas. Coisas relacionadas aos “novos” valores sociais, política, conformismo, intolerância…

RM: Hoje, os quadrinhos se prestam a assuntos bem mais variados do que somente a comédia. Vários artistas têm uma abordagem mais sensível, ou mais crítica, como o próprio Liniers que tem quadrinhos melancólicos e Moon & Bá que frequentemente colocam algumas questões nas tiras.
Suas tiras também colocam algumas questões para pensarmos.
O Mentirinhas foi mudando com o tempo e ficando cada vez mais com a minha cara. Passei a expor mais alguns pensamentos e experiências. Muita coisa vem da época que fui bombeiro.

RM: Tem alguma história interessante pra contar pra gente?
Vez ou outra faço histórias baseadas em acontecimentos reais. Tenho a ideia de fazer uma série contando minha passagem pelo Bombeiro, já fiz a primeira –  “o anjo da morte”. Aos poucos soltarei outras.

RM: Quais são seus outros interesses?
Fora desenhar de tudo, gosto muito de animais e natureza. Quando dá pra tirar uns diazinhos de férias, gosto de ecoturismo, mergulhar e coisas do tipo.

RM: Quais quadrinhos ou autores de quadrinhos você considera indispensáveis hoje?
Da atualidade: Liniers, os irmãos Moon e Bá e o Vitor Cafaggi.
De qualquer época: Will Eisner, Bill Watterson e Fernando Gonsales.

Limpo

terça-feira, dezembro 10, 2013 by

Conhecido no graffiti como Limpo, Fábio Rocha é baiano de Salvador, tem 33 anos e há 5 mora na Suécia. Ilustrador e grafiteiro, ele se inspira principalmente na realidade difícil que ainda encontra no nordeste: trabalho infantil, fome e o preconceito sofrido pelo povo nordestino no resto país…

RM: Hoje você trabalha como ilustrador – entre outras coisas, de livros infantis. Existe algum intercâmbio aí entre o graffiti e a ilustração? O que vai de um para o outro?
O lance da ilustração aconteceu através do graffiti. Foi a partir daí que surgiram os convites. Costumo falar que são ilustrações grafitadas só que não em paredes.

RM: Você também dá aulas de graffiti. Qual o público que chega nas aulas?
Tenho muitos trabalhos paralelos à minha arte.
Um deles são as oficinas de graffiti. O público não tem idade específica.  As pessoas chegam querendo ter o contato com o spray, aprender a técnica. Chegam através do contato com o meu trabalho no graffiti.
Agora estou recebendo convites de empresas para conduzir oficinas de inspiração artística.

RM: Li uma matéria onde você menciona a falta de valorização do graffiti no Brasil, economicamente… Uma lata de spray hoje custa em torno de R$16,00. Um trabalho grande sai caro e pode não ter retorno. Qual é a realidade do graffiti em outros países que você conhece?
Alguns grafiteiros até conseguem fazer muitos trabalhos comerciais mas colocam pouco da sua arte nesses trabalhos. Aparece muita gente pedindo pra pintar coisas específicas: peixes, meninos, aviões e tal.
Fica difícil quando você já vem amadurecendo seu trabalho…
Hoje, vivo do meu trabalho e acho que não conseguiria fazer isso no Brasil.

RM: O que é o Turbilhão Urbano?
Turbilhão Urbano é um grupo formado por Peace, Sisma, Madureira e eu. São grafiteiros que começaram a pintar na cidade de Salvador e que influenciaram todos os grafiteiros que hoje estão pintando por lá. Hoje, o grupo atua em produção cultural, design, turismo étnico, graffiti…
É uma turbina da rua.

RM: Muitos de seus trabalhos retratam a realidade nordestina. Ainda hoje é assim? Como você se mantém em contato com o Brasil, a Bahia, estando longe?
O trabalho continua com as mesmas características. Estou vindo ao Brasil 2 vezes por ano.

casa

RM: Quais são suas fontes de inspiração?
As crianças magras, descalças nas ruas, tristes e sofridas.
Meninas ainda crianças que têm que trabalhar e ter responsabilidades de adulto.
As casas de madeira, o preconceito que vem sofrendo o povo nordestino.
A vida é a minha inspiração.

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Lucas Millecco por ele mesmo

quinta-feira, novembro 21, 2013 by

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“Estudo audiovisual (Rádio e TV) pela UFRJ. Tive um blog, ‘Eutamnésia’, mas tranquei. Tenho o costume de escrever alguns textos no Facebook, pego uma imagem que acho legal e faço um texto paralelo, mas só pela prática.
Ana Cristina César sempre foi minha favorita. O Carlito Azevedo entra nessa também, por ter mexido muito com minha forma de escrever depois que li o Monodrama (2010, 7Letras), e tem uma portuguesa sensacional, que ainda não saiu em livro, mas tem uns vídeos com leitura dos próprios poemas que não me permitem levar mais nada a sério: Matilde Campilho.
Fiz cinco curta-metragens desde que entrei na faculdade, o que considero parte do meu amadurecimento na arte e da busca pelos meus objetivos com o audiovisual. Posso destacar o que realizei neste ano: Meu Amor Fez um Projeto. Esse trabalho faz parte do projeto de TCC que estou desenvolvendo, Depois do Dia 23. O resultado final será, se tudo der certo, um documentário experimental, que gira todo em torno do casamento de dezesseis anos de minha mãe e meu pai (falecido em 2001). Vale dizer: meu pai era músico e poeta. Foi minha porta de entrada pro universo artístico.”

UM INIMIGO DE DEZEMBRO

O que perdi. Nosso GMC verde elétrico percorre a reta final interna daquela estradinha em Tiradentes até uma cachoeira rasa, fria, nublada. O frio em Minas às vezes me espanta, você diz, e o olhar azul já não contrasta tanto com as árvores, tudo é cinza, você solta seus cabelos curtos e um pouco de tudo cobre seu rosto, agora os gravetos. A menina pequena sem muito entusiasmo cobre os olhos com a touca, não a de banho, você sabe bem que ela nunca mergulharia naquela água, tosse duas vezes e fecha os olhos. Ana, você diz, ela parece fazer charme, Ana, de novo, e outra vez. Ela fraqueja um sorriso no canto da boca, no canto do canto da boca, e sua gargalhada agora descende uma emoção de milênios, em segundos mais leves que as gotas da queda d’água respingando em minhas botas. Não aquilo que ganhei. Você e Ana trocando cócegas, as duas agora gladiando como loucas em ponta de estoque, em ponta de gansos, de bicos de gansos com a bola do cachorro, e ela já não está entre nós, e persistimos. O inverno aqui escolhe as frutas, e eu não me conformo com a sua capacidade de produzir versos no meio da tarde. Não, o cachorro não persegue mais os gansos, mesmo a bola, ele agora descansa, os olhos avermelhados, a respiração quase no nosso ritmo de humanos. Ana e você mergulham, mesmo no frio, você diz que faz bem ao coração e às paredes do estômago, ela acredita e diz querer ser bióloga, eu caio na gargalhada e me seco, fico feliz que entraram um pouco na água comigo. Ana parece chorar; seus dedos pequenos de seis anos tremem um pouco e ela quer aquele chocolate quente que tomamos uma vez na estrada para São João. Enquanto voltamos, o cão adormecido, Ana adormecida, as velhinhas do clube de tecelagem adormecidas esperando a hora de voltar aos retalhos. Você me olha, falamos de tudo, falamos de Baudelaire, de Baudrillard, do infinito de possibilidades que nos levaram até ali e mesmo de uma série de TV americana que fala de universos paralelos nos quais, provavelmente, você não teria me conhecido, o menino que fazia curta-metragens e aquela que sonhava ser atriz de cinema, nosso GMC enguiça e você deita no meu colo. O que você prefere, metáforas ou prognósticos?, acho que sou do tipo que está mais para roteiros, reticências, e você me escapa o sorriso no canto do canto da boca, igual à sua filha, à nossa filha, que agora abraça o cachorro. Você classificaria estes dias como um roteiro?, acho que não. O Tudo agora parece improvável ou incerto, por isso o nomeio Desejo.

Ricardo Tokumoto

quarta-feira, setembro 25, 2013 by

Ricardo sempre gostou de desenhar. Aliás, como ele mesmo diz, toda criança gosta – a diferença é que ele não parou.
Ele trabalhou em gráfica, foi selecionado para o salão de humor de Limeira, publicou um fanzine… tudo isso antes de finalmente começar a tão sonhada faculdade de Belas Artes.
Hoje, Ricardo é autor do blog “RyotIRAS”.

RM: Li que você gostava de desenhar quando criança. E que também se interessava por várias coisas diferentes: chegou a estudar música, pintura, fez oficinas de histórias em quadrinhos, desenho animado, elaboração de fanzines, escultura, teoria da arte…
Acha que quando alguém se interessa por alguma manifestação artística é natural ir abrindo esse leque?
Sim, e acho bastante enriquecedor quando não nos fechamos apenas a um dos caminhos que a arte pode prover. Sem falar que tudo isso está muito mais ligado do que imaginamos. É realmente muito comum escritores, pintores, músicos transitarem entre outras formas de expressão por mais que dêem prioridade a apenas uma delas. E não apenas no ramo das artes e ciências humanas, acho importante nos abrirmos e buscarmos os mais variados conhecimentos que nos interessam, independente da natureza. Acredito que quanto mais variedade nessa mescla de aprendizados, maior será a autenticidade e originalidade do seu produto final.

RM: Você trabalhou numa gráfica e começou a imprimir seus primeiros fanzines. Você citou que tinha uma ideologia né? Uma fase meio “revoltada”… Com o quê?
Na verdade essa revolta não acabou, só mudei as minhas atitudes pra lutar por minhas idéias. A revolta é contra todo esse esquema em que vivemos hoje, onde se prioriza o consumo acima de tudo e milhares de pessoas sofrem em prol de pouquíssimas. Essa desigualdade em que vivemos, não apenas financeira, mas de hierarquização de muitos aspectos que não fazem sentido algum. Me incomoda muito a questão do homem magro, alto, branco, heterossexual, cristão e rico sendo colocado como um ser superior a todos os outros. A minha luta, e que não é só minha mas de muita gente, é de se acabar com esse tipo de pensamento individualista que nos coloca contra nós mesmos diariamente. A ponto de famílias, irmãos, casais, amigos se destruirem por conta de um sistema totalmente ilusório. No fim das contas é a velha questão de nos tratarmos mais como iguais e nos ajudarmos, sem essa película distorcida e confusa de rótulos e julgamentos nos cobrindo. E que todos tenham direito ao básico, como eu tive.

RM: Quando você começou a faculdade de Belas Artes já tinha uma bagagem bem grande: tinha lançado um fanzine, foi selecionado no Salão de Humor de Limeira. Como foi essa fase?
A Faculdade foi um ótimo momento de amadurecimento. Por mais que já tivesse com uma bagagem tudo ainda soava bastante amador. Não que isso seja ruim, até hoje meus trabalhos mais autorais ainda possuem essa atmosfera, mas para que eu pudesse trabalhar e me sustentar como ilustrador, foi essencial esse salto para um maior profissionalismo. E também foi ótimo para expandir ainda mais meus horizontes, conhecer novas pessoas, entrar em contato com essa multiplicidade artística. Perder o medo de ousar e ver que tudo é bem menos complicado do que a gente imagina.

RM: Como é para você essa troca com os leitores que a internet propicia?
É o que mais me motiva em manter essa constante de produção. Se não houvesse esse retorno dos leitores que a internet possibilita tudo seria bem mais sem graça com certeza. Acho ótimo que novas ferramentas vêm surgindo e aumentando ainda mais essa interatividade, inclusive entre os próprios artistas. Assim como eu venho me aproximando cada vez mais dos meus leitores, eu também venho me aproximando cada vez mais dos autores que eu gosto tanto. Isso é sensacional.


RM: Qual é o perfil do leitor do site?
Acaba por ser um perfil muito semelhante ao meu, com uma faixa de idade entre os 20 e 30 anos, que geralmente tem uma forte ligação com video-games, internet, literatura, cinema, música, desenhos animados, os próprios quadrinhos e cultura pop no geral. Uma particularidade do humor que eu gosto de usar é um humor mais nonsense, ou seja, às vezes, eu prefiro atropelar a lógica em prol do riso e nem todo mundo está acostumado com esse estilo… o que me leva a atrair pessoas que já tem uma certa familiaridade com isso. E às vezes eu gosto de experimentar o contrário, tiras mais críticas e reflexivas, com um humor mais sutil, menos óbvio ou até mesmo sem essa necessidade de ser engraçado. Isso acaba por fechar também a gama de público, mas tento não fazer isso sempre, pra não restringir demais. Eu gostaria na verdade de ser o mais universal possível, mas sem subestimar a potencialidade do intelecto de cada um.

RM: Você também fez especialização em cinema. Quais são seus outros interesses?
O cinema é algo que eu gosto muito, mas ao me especializar aprendi que é uma arte colaborativa, que dificilmente dá pra se fazer sozinho. E isso acaba tornando a produção de um filme, por mais curto ou simples que ele seja, em algo que se precisa de um planejamento, dedicação e atenção maior. Então os projetos de cinema ficaram meio de lado por enquanto. Bom, eu gosto muito de música, toco alguns instrumentos e sempre tento estar em alguma atividade que envolva essa área, ou em último caso assistir apresentações musicais. Me interesso também por literatura, sempre estou lendo vários livros de uma vez, apesar de ser num ritmo mais lento do que eu gostaria. Artes Marciais, especificamente Kung Fu, que eu sempre admirei e agora estou também praticando. Sempre adorei vídeo-games mas tenho jogado bem pouco ultimamente. Procuro ficar sempre por dentro dos movimentos populares com um cunho social e tento sempre dar algum apoio. E por fim as artes plásticas no geral, gosto de pintar, desenhar, tenho idéias pra esculturas, instalações…
Infelizmente o tempo fica curto pra tanta coisa.

RM: Quais quadrinhos ou autores de quadrinhos você considera indispensáveis hoje?
O Laerte pra mim é um dos principais. Sempre cito também o Fábio Zimbres e o Lourenço Mutarelli. Dos quadrinistas estrangeiros não tem como fugir de nomes como Alan Moore, Katsuhiro Otomo, Osamu Tezuka, Chris Ware, Geof Darrow, Moebius, Daniel Clowes, Neil Gaiman, Art Spiegelman, Will Eisner, Scott Mccloud, Charles Schulz, Bill Watterson… E tem muita gente nova e boa surgindo tanto lá fora como aqui no Brasil, por exemplo Rafael Sica, os gêmeos Bá e Moon, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Gustavo Duarte, Eduardo Medeiros, o pessoal todo das (In)Dependentes, meus amigos do Pandemônio: Eduardo Damasceno, Daniel Pinheiro, Daniel Werneck, Felipe Garrocho, Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi, Combrim, Eiko. E de fora tem o Craig Thompson, Cyril Pedrosa, Marjane Satrapi, Guy Delisle, Olivier Martin, David B., Christopher Blain, Taiyo Matsumoto, Dash Shaw, Nicholas Gurewitch, Rui Tenreiro, Bryan Lee O’Malley… Nossa, é muita gente! E olha que eu na certa não citei nem um décimo de nomes bons que temos por aí! Com certeza esqueci muita gente e errei algumas grafias. De qualquer modo, coisa boa pra se ler é o que não falta!

Paulo Pessoa

terça-feira, maio 21, 2013 by

 “Paulo Pessoa de Andrade escreve e cria como os leões de Henry Miiler: mastigando o indigerível chicle da linguagem. Um artista que alinhava a escritura com a contundência de quem soca o estômago do sentido das coisas : contunde, visceral.” Flávio Viegas Amoreira – escritor e crítico literário.

Paulo Pessoa é autor dos blogs CeleumaPintando Vênus e Galeria.

Dínamo Infernal

Mastiguei até ficar seca. Hordas empaçocadas indigeríveis nas horas. Fui pelo milímetro da beira à procura de um hiato. Salto noturno para arranjos desajeitados num copo de pensamento.

Gole de misericórdia. A meia-noite me segue como um cão.

A mentira insistente é toda a verdade. E a desilusão… é uma

grande dádiva! Fachos de púrpura, fachos de amarelo, fachos de gente. Véu ocre de certezas frágeis, insônia maya, dínamo infernal, ad continuum, ad infinituum. A madrugada se arreganha no esboço de um pigarro em rumo aberto de úlcera, o dia nasce de fórceps.

Meus olhos mal podem abrir…

Átimo

O logo após as pisadas irregulares, cambaleia o futuro. A semana passou num lapso, num átimo alcoólico. Pude ouvir gargalhadas vindas do tablado rotundo dos bêcos. Eco de imagens embaralhadas, idéias colipsadas… Um carrossel de personagens na roda oculta das circunstâncias… e eu aqui, na mesa de canto do bar… daqui tudo se vê, até o uivo do vento dobrar a esquina. A inconformidade concreta precipita-se em tudo… estão visíveis por sobre os ombros como caspas em pretas camisas de algodão sob luz negra. Figuras deslocadas de seu original podem-se entrever no silício, no ópio, no fundo da garrafa. Caleidoscópio de artimanhas neurais. Arte experimental. Daqui, da mesa de canto, mudo a sintaxe a esmo… a arte é mental… Tangram de holografias moldadas em arranjos dramáticos. Virtudes e vícios descoloridos no suor das paredes… um panteão de afrescos mundanos. Eu mesmo, um semi-deus, crio um buraco no tempo, uma matéria escura, uma nuvem, uma dúvida… Mastigo um bolinho de queijo ensopado de tabasco. Viro do avesso a cachaça… o mundo aparece em miniatura no fundo do copo…

Existe sobriedade ?

Ele se chama… Antônio!

sábado, dezembro 29, 2012 by

Encantar leitores com guardanapos recheados de pequeníssimas poesias e enormíssimos sentidos: é isso que “Eu me chamo Antônio” tem feito por aí… Quero dizer: por aqui mesmo, pela web… Um projeto que nasceu ao acaso na solidão de um balcão de bar e ganhou uma multidão de seguidores nas redes sociais. O autor é um jovem redator publicitário (e agora também escritor) que, enquanto puder, prefere resguardar sua real identidade. Afinal, não é fácil saber o que fazer quando milhares de olhos se voltam para você de uma hora para outra, principalmente quando se é tímido. Bem tímido.

Como nasceu essa entrevista – Parte 1
(Dentro de mim, quando vi os guardanapos pela primeira vez)

Sim, ele é um poeta.
Novo. Muito novo. De hoje. Bem agora.
Mas será que existe mesmo?
Bem, um amigo disse que ele meio que se chama Antônio e que totalmente mora perto de mim.
Ou será que mora em mim?
Bem… Ele pode ser eu.
Sim, escrevi aqueles versos aqui por dentro de mim, e alguém postou… Hackearam meu coração. Lógico: tudo é possível nos dias de hoje.
Não, não escrevi aquilo ali. Sou mulher e quem escreveu aquilo ali foi um homem.
Ai que lindo! Um homem! Estou apaixonada por ele!
Não…
Me apaixonei pelo que ele diz.
Não…
Pelo que escreve.
Não…
Pelo que expressa… Da forma que expressa.
Ai, a poesia. Ufa… É só a poesia.
Sim, poesia… Sempre ela… Dando sustos.
Não…
Dando suspiros…
Eu amo poetas e poesias… Alimentam meus suspiros. É isso. Só isso. Tudo isso.

Como nasceu essa entrevista – Parte 2
(SMS da Nany Prata)

Ela: Viu o cara que se chama Antônio no FB?
Eu: Vi. Quero dizer, li.
Ela: Quanta poesia, né?
Eu: Muita. Demais.
Ela: Sei que já entrevistou outros poetas, outros artistas… Então: converse com ele para a gente colocar lá na Mambembe!?
Eu: … Ai… Será? Sei lá…

Como nasceu essa entrevista – Parte 3
(No muro, grafitando)

Nany: Hoje vou grafitar uma daquelas frases dos guardanapos…
Eu: Uau! Que boa ideia! Tudo a ver!
Nany: E você?
Eu: Vou fazer uma bailarina pelada e descabelada. De cabelão bem doido.
Nany: Estou querendo saber da entrevista… Se você está empolgada!
Eu: Ah… Acho que sim… Mas… Sei lá. Fiz isso profissionalmente durante tanto tempo… Até topo fazer, mas num formato diferente. Bem longe das regras do bom jornalismo.
Nany: Tranquilo, claro! Danem-se as regras! Está liberada para subverter.

Como nasceu essa entrevista – Parte 4
(Inbox no Facebook)

Oi. A Nany me pediu para te entrevistar. A primeira pergunta é: é verdade que você mora aqui no meu bairro?
Hahaha. Sim, a duas quadras de você. Todos os meus guardanapos nasceram naquele bar da esquina.

Me disseram também que você não gosta de falar…
Sou tímido. Posso responder em guardanapos?

Talvez. Mas por agora, me responda apenas: quando ou como você se descobriu escritor?
Acho que colocar palavras no papel foi a forma que encontrei para domar minha ansiedade. Minha cabeça não para quieta, sabe? Se eu não escrever, não durmo. Preciso me esvaziar, sabe?

Claro que sei… 😉
Acho que não me descobri ainda, não me acho “escritor”. Só coloco palavras no papel (e, agora, nos guardanapos). Acho que a arte é isso: fazer o que você pode com aquilo que você tem. Há muito silêncio em mim, e essas frases são meu grito. E não é amor-fofo. Alguns são quase pequenas depressões, pequenas confissões, pequenas confusões. Quando escrevo não me sinto tímido porque estou, de certa forma, distante.

Você se imagina fazendo os guardanapos por muito tempo? 
Comecei há umas semanas e não consigo parar…

Como nasceu essa entrevista – Parte 5
(Gravando!)

Quando entramos na fan pageEu me chamo Antônio’, a única explicação é: “Antônio é um personagem de um romance que está sendo escrito, vivido”. Você está escrevendo mesmo esse romance?
Estou. Mas Antônio, na verdade, é um personagem desse romance. E de repente vai ser um cara que escreve em guardanapos também. Ainda não sei. Mas estou escrevendo.

Mas está escrevendo mesmo no papel ou só na sua cabeça?
É que tem um romance dentro do romance. Toda a ideia do romance e do romance de dentro já está pronta. Só falta sentar e escrever. E estou sem tempo. Mas já tá tudo pronto. Só falta escrever o livro, que é a parte mais fácil, né?

Significa então que você já estruturou os capítulos e tudo?
Já. Quer dizer: eu acho que já. Botei a ideia no papel. Não sei se na hora de escrever vai mudar alguma coisa, mas se chama mesmo “O Romance Inacabado”. Porque é tudo mesmo meio inacabado no livro.

É tudo mesmo totalmente inacabado em tudo…
O romance é sobre uma garota só?
Garota?

É.
Não! Não. Não.

Não tem nada de garota?
Tem um romance, que a gente não sabe se o romance que ele está escrevendo é inacabado, se o romance que eu estou escrevendo está inacabado ou se o romance dele com a personagem é inacabado. Ah, tem uma história de amor, mas não é nhem-nhem-nhem, não. É um amor bonito, assim, impossível: eles nunca se encostam.

Amor impossível bonito?
É.

Então a gente pode considerar os guardanapos como teasers do livro?
Exatamente. A ideia blog era essa: cativar leitores para uma história que um dia vai nascer. E essas frases podem surgir no livro também. Nenhuma frase ali é à toa. Pelo menos a maioria não é à toa. Elas podem aparecer no livro de alguma forma, como no mural do Antônio, já que ele tem uma parede gigante branca no jardim dele, onde escreve frases.

Lá na sua descrição da página no Facebook, você diz que adora silêncio, distância, girafas e amores impossíveis. Eu queria falar disso. Você diz que gosta de silêncio, mas está fazendo o maior barulho na Internet. Isso, de certa forma pode estar incomodando?
Não, pelo contrário, estou gostando. Mas eu gosto de ficar em silêncio. O barulho é consequência do guardanapo. Eu mesmo estou em silêncio ainda. Para mim é uma dificuldade sair, falar. Não gosto.

Entendo. Sou igual. Parece que faz parte da personalidade do escritor.
Eu gosto de falar no guardanapo, no papel. Foi uma coisa que me surpreendeu muito… Eu não esperava isso: oito mil pessoas na fan page, em dois meses.

E vai crescer mais…
Não sei…

Claro que vai…
Não sei. Talvez uma hora vá enjoar. Não sei.

Você diz também que gosta de distância. Sabe, eu achava que também gostava de distâncias, até descobrir que escrevia para me aproximar das pessoas. Se não fosse a escrita, eu jamais chegaria às pessoas. Tanto as de longe, quanto as de perto. Então, você diz que gosta de distância, mas escreve e assim acaba por se aproximar.
É verdade. Contradição total, né? É como o silêncio que faz barulho… Mas na verdade eu gosto da distância porque acho que ela inspira. Meu pai mora na Suíça. Tenho duas irmãs, que moram longe também. Meus amigos de infância estão todos no mundo. Eu acho que isso ajuda a alimentar a poesia, a escrita.

Pois é, aí entra a parte de amores impossíveis, que você diz gostar também. Só pode ser para alimentar a escrita, né?
É.

Escrever é melhor do que viver?
Não sei. Acho que na minha vida, por acaso, surgiram vários amores impossíveis. Não sei se escolhi viver isso… Impossíveis não no sentido de não terem acontecido, mas de não terem ido para frente. E talvez silêncio e distância sejam igual a amor impossível, né?

É. E é triste.
Para o poeta é triste, mas para a poesia é bonito. Emocionalmente é ruim, mas como ferramenta de trabalho é maravilhoso.

E o que a girafa está fazendo no meio da lista de coisas que você gosta?
Nasci no meio delas, lá na África. Meus pais atribuíram um animal africano para cada filho e eu fiquei com a girafa. Uma irmã ficou com o hipopótamo, a outra com o elefante e a outra com o camelo.

Nossa… Achei que teria uma explicação bem filosófica para o fato de você gostar de girafas. O que seus pais foram fazer na África?
Meu pai trabalha com ajuda humanitária e foi enviado para algumas missões na África, principalmente no Chade, onde nasci, e em Cabo Verde. Mais tarde vi que, inconscientemente, eles acertaram na escolha: a girafa é um poeta de quatro patas e incontáveis manchas, que vive com os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

Há muitos anos, entrevistei o poeta Nicolas Behr, e ele disse que essa coisa de que os poetas têm a cabeça nas nuvens é um estereótipo. Ele acredita que a inspiração dos poetas está no cotidiano. Que não existe gente mais ligada à realidade do que um poeta. A partir daquele dia, daquela resposta, mudei completamente o meu pensamento sobre isso…
Sim, sim! Concordo com ele! Mas também acho que o poeta precisa dialogar com as nuvens, mesmo que crie os diálogos com as palavras que ele encontra aqui no chão. Afinal, as referências são desse mundo. E ele precisa ser compreendido por quem habita aqui. Mas as ideias são encontradas quando as mãos do poeta (ou o pescoço da girafa) se estendem para o céu para catar qualquer sintoma de poesia, é quase divino.

Quero te contar que parei de curtir e de comentar os guardanapos porque eu curto e tenho vontade de comentar todos. Parei para não parecer chata, a presidente do fã clube.
Já eu queria achar um jeito de parar de postar um pouco, porque a ideia vem, e eu não consigo não postar. Posto muito, muito, muito. Não tem um dia que eu não poste quatro ou cinco coisas. Mas toda hora vem uma ideia nova, e eu quero, e preciso, escrever. E funciona muito mais como agenda para mim: o que eu pensei aquele dia…

Ah, para mim também é assim. Minha página é um super diário, para a qual eu volto para ver certas coisas. É muito mais para mim que para os outros.
Exatamente. Acho que é isso: muito mais para mim que para os outros. E eu estou tentando achar uma forma de preservar meu perfil pessoal. As pessoas estão começando a me adicionar no perfil pessoal, e isso está me incomodando. Não acho ruim, mas é estranho aceitar ser amigo de quem não tenho ideia de quem seja.

O povo quer ser seu amigo por causa da identificação com a sua arte, que é muito forte. Já parou para pensar e viajar nessa coisa da identificação?
Sim. E é muito louco. Porque, às vezes, acho alguns guardanapos muito simples. Coisa que qualquer um faria. Eu não sei por que deu certo.

Qualquer um faria, mas não fez. Então o artista é você, e eles são os burocratas. Por isso deu certo.
Não sei. Mas o fato de ser simples é ótimo, porque todo mundo entende, por mais que seja um trocadilho. Não há palavras rebuscadas.

Mas não deixa de ser bem inteligente.
E agora estou tentando colocar a interferência de um desenho minimalista, às vezes. Porque eu estava achando os guardanapos muito vazios. Mas aí eu volto de novo para o primeiro guardanapo, só com o desenho das letras. Esse exercício tem me ensinado tanto a enxergar quanto a valorizar a importância do vazio.

Com o ó bailarino, com aquele braço de balé, que eu amo!
Eu gosto também!

Com o sucesso dos guardanapos, acabou que o romance do Antônio foi para o final da sua lista de prioridades, e você está produzindo um livro só com as imagens dos guardanapos…
Sim. A ideia é essa. Estou fazendo. Mas, por falar em livro, você não vai fazer o “não duvide:” em formato de livro, não?

Não. Aquilo não é para virar livro, não. Um livro de onze versos? Ele nasceu para ser de muro mesmo. Livre por aí…
Mas é aquilo que já te falei: você tem que fazer um livro-adesivo, que dê para destacar as páginas. O leitor cola onde quiser. Você tem que conseguir patrocínio para isso, contatos… Porque é um livro que não acaba, né? Tudo pode virar “não duvide:”.

Essa ideia é muito boa!
Olha só: você perguntou se eu achava sua arte sincera, por causa daquilo que te disseram… Vamos falar disso.
Não. Não, vamos colocar isso não.

Vamos colocar sim.
Não, por favor.

Vamos colocar sim, vamos polemizar, poxa. Sem pimenta não tem graça. A pessoa que te falou aquilo é do seu trabalho?
Não. Mandou inbox.

Então, vamos falar!
Mas ela não falou de um jeito maldoso, não. Acho, inclusive, que tentou ajudar. Só não entendi direito o que ela quis dizer. Também eram duas da manhã… Por isso acho que não vale a pena polemizar.

Por causa dela você ficou com um nó no peito e me perguntou se eu achava sua arte sincera, porque ela disse que achou algumas coisas um pouco forçadas. Respondi que gosto tanto da sua arte, que acho tão de coração, que por isso ia te entrevistar, sem ninguém me pagar nada por isso, numa situação de meio tempo na vida, no amor, na saúde e no trabalho, quer dizer: toda meio lascada… Mas o mais importante é: você acha a sua arte sincera?
Sim, pô! Se eu perco meu tempo escrevendo guardanapos e fotografando… Tudo é sincero! Passa pela minha cabeça, e eu não resolvi guardar para mim… E não é uma frase do Chico Buarque… É uma frase minha… E não pedi para um profissional desenhar. Eu mesmo desenho… Então claro que é sincero! Não existe nada tão sincero na minha vida.

Aí mais de 8 mil pessoas, na maioria mulheres, te curtem, te amam, querem te conhecer… E apenas uma resolve não gostar e falar. É ruim, né? Mexe com a gente!
Ruim. Muito ruim. Papo de quase não conseguir dormir.

A gente é artista e quer ser só amado, né? Mas acho que tem que aprender a conviver com isso…
É, mas as pessoas constroem isso também. Não quero que os guardanapos virem ídolos teen. Muitas meninas escrevem dizendo que eu falo tão bem de amor. Mas não sei se meus guardanapos falam de amor…

…Eles falam de sentimentos. E isso, vindo de um homem, é bem inédito.
Mas também tem humor, sátira, política… E tem um limite de espaço, que sempre me poda. Pode parecer fácil, mas escrever frase é difícil. Muito mais que um livro.

É sim. Eu também faço esse exercício, que chamo de escrito Naïf.
Como dificuldade, tem também a falta do word para me corrigir. Já aconteceu de dois guardanapos irem com erro, que eu deixei. Acho bonito. É um erro consciente, então não é um erro: só não deu para consertar.

As frases são ficcionais, mas os guardanapos são um objeto tão real. Será que é isso que mexe com as pessoas?
É… De uma coisa feita para limpar a sujeira da boca, procuro dar certa beleza literal: beleza de sentido, beleza tipográfica, beleza sincera. Não é a beleza mais bonita do mundo, mas é a beleza mais bonita que eu consegui colocar para fora do mundo mudo que grita em mim.

Ah, poeta…
Tomara que um dia alguém diga que é arte e que valha alguma coisa.

Tomara…
Projetos para 2013?
Um blog com textos maiores, usando os guardanapos como títulos para desenvolver a ideia. Como uma manchete. Manchete de sentimento. Não tenho muita paciência (nem muito tempo) para escrever muito, mas vou sentar e escrever ao menos umas linhas a mais. Outro projeto é o livro “Antoniologia Poética”, com imagens desses guardanapos já conhecidos e o livro “Cicatriz Coadjuvante”, com 40 guardanapos inéditos de dor, ausência… De tudo que é rasgado. Tenho ideias também de exposições, livros de historinhas curtas como alguns do Mario Quintana. Acabei de fazer uma exposição encomendada, com 60 guardanapos para uma festa. Foi a primeira vez dos guardanapos off line. Achei bem legal.

Desse jeito o romance do Antônio foi mesmo para o final da lista de prioridades!
É…

A marca “Eu me chamo Antônio” é tão filosófica, bonita e artística… Porque esconde e revela. É uma confissão, porque é o seu nome, mas não é como você é conhecido no seu mundo.
Eu tinha pensado em vários nomes filosóficos, com trocadilhos e tudo, mas acabei indo para o mais simples… Que é mesmo o meu nome.

É. E que ninguém sabe…
Exatamente. Por isso que ao mesmo tempo é um mistério.

Isso combina tanto com a sua arte porque a poesia esconde e revela o tempo todo… Cada guardanapo é uma confissão, assim como a marca…
Nunca tinha parado para pensar assim, mas acho que concordo com você.

Como nasceu essa entrevista – Parte 6
(Relendo e pensando…)

A entrevista ficou grande, enorme. Não era a intenção. Mas renderia muito mais: a história do primeiro poema, que falava de saudade e foi recitado na escola por uma menina chamada Sofia; a parte do contato com a Língua Portuguesa, que passou a integrar a vida dele só pelos 12, 13 anos; o mau humor de não querer associar a página fictícia à página pessoal no Facebook, mas, ao mesmo tempo, de não querer ser indelicado com os amigos sobre esse assunto; a recente viagem internacional, que adiou nossa gravação; minha alegria de me sentir espelhada, contemporaneamente, por um artista vizinho; a composição estética dos guardanapos (vazios+imperfeições+etc); minha felicidade de a traquinagem ter dado certo: papo vai, papo vem, adorei conhecê-lo; as muitas coincidências de vida; a certeza de que um perfil careta, jornalisticamente correto, virá em breve (por um ou mais jornalistas caretas e politicamente corretos)… Afinal, ele é novo e tem projetos originais. Ainda vai render muita notícia. Todos esses assuntos, eu adoraria aprofundar. É a minha cara ir além… Mas o importante mesmo, para mim, que vivo em meio a tantos personagens (de dentro e de fora), é ter assegurado que ele é mesmo poeta. De agora. E existe. E não mora apenas bem perto de mim. Está on line para o coração do mundo, deixando a vida pulsar, o tempo todo, bem perto de quem quiser. Isso tudo aqui não foi bem uma entrevista. Foi só um papo publicado, ao sabor da web: meio fragmentado, meio qualquer coisa, meio preguiçoso ou fluido, à moda dos poetas, ou à moda dele mesmo… Uma entrevista inacabada…

Ah… Faltou falar também do Tumblr, uma ferramenta na web, que não tenho a menor noção do que significa e que foi onde começou o sucesso dele… Mas isso vocês podem procurar saber, né?