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Walter Handro

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Walter Handro é artista plástico. Começou a se interessar por pintura estimulado pelo pai que o levava a galerias e salões de arte. Sua formação mescla iniciativas autodidatas e cursos com outros artistas.

Walter é Biólogo, foi cientista e professor de Botânica na USP e, no início de sua carreira científica, aproveitou seu talento para o desenho em seus trabalhos em anatomia e morfologia vegetal.

RM: Como surgiu seu interesse pelas artes plásticas?
Quando eu era garoto, no fim da década de 40, inicio dos anos 50 (nossa!!!), meu pai levava-me ao Salão Paulista de Belas Artes, na Galeria Prestes Maia, em São Paulo. Já na segunda metade da década de 50, eu trabalhava no centro de São Paulo, e frequentava galerias nos arredores da Rua Barão de Itapetininga, o Museu de Arte Moderna, na rua 7 de Abril. Deve ter começado por aí. Ganhei até um estojo com material de pintura (aquarela) de meu pai.

RM: Quando você começou a pintar?
Fiz minhas primeiras tentativas entre os 16-17 anos, com aquarela. Depois, abandonei totalmente a pintura. Nos primeiros anos de minha carreira científica (anos 60), quando trabalhei com anatomia e morfologia vegetal, usava muito minha habilidade em desenhar. Posteriormente dediquei-me à Fisiologia e Biotecnologia de Plantas, como cientista e professor na USP, abandonando totalmente desenho e pintura. Mas fotografei muito. Trabalho mais sério com pintura comecei mesmo no fim dos anos 90, e depois que me aposentei (2001). Nessa época eu já colecionava pinturas e gravuras, e resolvi experimentar pintar também.

RM: Você é Biólogo. Como foi sua formação na pintura? Foi um processo autodidata?
Comecei fazendo algumas tentativas pintando a óleo (1997), e logo arranjei uma professora (Neusa Nogueira), que tinha sido aluna de Durval Pereira e de Castellane. Com ela trabalhei um ano e comecei a participar de exposições e receber alguns prêmios. Em 2001, fiz um curso de aquarela em Paris com Tim Smith, ilustrador da UNICEF e de gravadoras, e em 2002 trabalhei com Djalma Urban. Desses artistas recebi uma formação técnica, muitas dicas importantes, absorvi alguma coisa de seus estilos, mas logo procurei desenvolver uma linguagem própria.

RM: Quais são suas influências?
Tenho duas vertentes no meu trabalho. Uma, mais tradicional, onde expresso minha paixão pela paisagem, especialmente as marinhas. Procuro trabalhar num estilo solto, de pinceladas rápidas e nervosas, “alla prima”, com muita tinta. Com aquarela também evito detalhes, como delinear portas ou janelas, apenas sugiro. Detestaria que dissessem que uma paisagem minha “parece uma foto”, ou que minhas flores “parecem naturais”. Posso dizer que sofri algumas influências de artistas com quem convivi ou de quem tenho quadros, como Durval Pereira, Djalma Urban, Carnelosso. Mas artistas que muito me inspiram, e com quem muito aprendi, estudando suas técnicas e lições, são os ingleses Constable (1776-1837 ), Edward Seago ( 1910-1974) e os americanos Emile Gruppé (1896-1978) e Kevin Macpherson (1956). Numa abordagem mais contemporânea, trabalho com motivos urbanos como casas, favelas, palafitas etc. Aqui é pura pesquisa, de estilos, técnicas e materiais. Gosto de contrastes de textura, uso fundos lisos, barra de óleo, pastel, aquarela etc. Para mim cada trabalho é uma procura e um achado.

RM: Quais artistas brasileiros você destacaria na atualidade?
Vou falar só de pintores, especialmente paisagistas. Para dizer a verdade, entre os pintores paisagistas brasileiros, os melhores e mais apreciados por mim, já partiram: Pancetti, Mario Zanini, Bonadei, Arcângelo Ianelli (na fase figurativa), Carnelosso, Inimá de Paula, entre outros. Djalma Urban e Durval Pereira, também falecidos, deixaram muitas obras de grande valor artístico, que merecem estar em qualquer coleção. Entre os poucos paisagistas atuais de qualidade, alguns são extremamente conservadores, quase acadêmicos. Para não deixar de citar alguns, pois fogem à regra, e dentro da paisagem, são ou foram bastante originais, lembro Sérgio Telles e Antonio Carelli. Também aprecio a simplicidade e as cores do Fang. Mas não gostaria de me estender sobre esta análise, para evitar injustiças, já que as omissões são muitas. Considero-me um artista iniciante, curioso e tardio. Estou aprendendo…

Para conferir outras obras do artista visite:
Hall Brasil

Arte Atual

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Goteira Poética

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Esse telhado nem massa de calafetagem tampouco durepóxi dá jeito, o pinga pinga é de letras.
Espaço para os que escrevem de forma pingada, poesia aqui outra alí, prosa acolá…
Cabe todo mundo e de todo jeito, mão livre sobre papel de pão, máquina de escrever com letra quebrada ou sofisticadíssimos palm tops, não importa.
O telhado pinga e, de caneca em punho, colhemos a chuva. Água fresca, boa de beber, sempre aos pouquinhos, gota a gota, gota a gota, gota a, gota…

Inauguro este espaço com algumas de minhas poesias. São poucas e pingadas, bem no jeito da Goteira.

Palavras Brancas

Folha branca, risco cinza.
Aglomerado de palavras sem rima.
Entram pelos olhos,
Boca, ouvido e poros.
Convulsionam os sentidos
E lentas escorrem pelas narinas.

É o agridoce que lateja na garganta.
Salgado gosto, palavra doce.
Palavras de aglomerado sem rima.
Branco risco na folha cinza.
Convulsiona o dicionário
E adormece a língua.

Expresso (numa noite calma)

Engraçado é se sentir sozinho
No meio dos bom dias e boa tardes.
É tanta gente que não tem ninguém.

Gira sem fim a roda dos dias
E a gente se multiplica na proporção
Da hora que passa.

É difícil achar alguém,
Perder de vista não é fácil:
É óbvio (já sumiram tantos…).

Certo dia num reencontro numa livraria,
A conversa foi ao sabor de um expresso.
Eram tantos livros ao redor que não via nenhum.

Se quisesse escolheria um pra ler
Mas não dá pra ler ali no tempo de um expresso.
Essa conversa foi um livro lido nesse tempo.

Conversa de dois no tempo de anos…
Bom dias, boa tardes e boa noites não dados.
Boa leitura pra ser posta em dia.
No bom dia que a noite é expressa
É o livro de ler calmo.

No dia comum da roda,
É muita gente pra ler.
Muita gente querendo ser lida sem saber ler,
Não dá nem no tempo de anos.

Engraçado mesmo é ver alguém.
Ali, carne, osso e tristezas.
Alegrias por que não?
Dá tempo no tempo de um expresso.

Ao amigo Raony, que já morreu uma vez.

Sonho?

O sonhador acordou
E acordou com seu sonho
Que não dormiria mais,
Pra não correr mais o risco.

Dormiu quarto de século ou mais
E o sonho durou o sono.
Hoje, desperto, toma café,
Pra não correr mais o risco.

Pensa às vezes se o sonho era aquilo,
Ou isso é o que deve chamar sonho.
Pensa sempre no fim da tarde,
Pra não correr mais o risco.

À noite o sonhador deita,
E acorda com o sono
A apenas acordar de manhã,
Pra não correr mais o risco.

Toda manhã o sonhador se arrisca.
Aprende cada dia que o sonho começa
E termina no mesmo ponto.
Todo dia o sonhador vive a vida de um dia.

O sonhador acordou
E acordou com seu sonho
Que viveria mais,
Pra não correr mais o risco
De sonhar que sonha.

Para saber mais, visite o blog do autor.