Archive for the ‘literatura’ Category

Varal Poético – Douguiníssimo

domingo, maio 11, 2014

Douguiníssimo (Douglas Aparecido): Poeta, Performer, Agitador Cultural, Videomaker e Fotógrafo. Nascido e criado em Ouro Preto, Minas Gerais, cidade cuja existência se deve a ganância e febre provocada pelo ouro. Nesta antiga vila rica, constitui-se pensador livre pelo curso de filosofia da UFOP. Ativista Cultural, é um dos idealizadores do Movimento Orgânico Imaginário, cuja essência é refletir e desenvolver ações que possibilitem construir novas formas de existência e convívio na nossa massacrante sociedade. Se apropria da poesia, como quem empunha uma arma e através das palavras lança o grito que ecoa e ressoa em todos aqueles que se sensibilizam com o impacto desses versos.

Aos Dr.s da Saúde Mental

Declaro para todos os fins, minha veemente e instituída loucura.
Aquela boa e velha, descabida e maldizida.
A mesma que levou Zaratustra pra montanha
Jesus pro deserto
Icaro pro sol
E Jonas pra baleia.

A mesma que fez Quixote se atracar com moinhos,
Kafka a perder-se de si mesmo,
Torquato Neto a matar-se num banheiro
Cazuza a viver amores inventados
Nero a botar fogo em Roma
E Moises a cruzar o mar vermelho.

Permitam-me, Dr.s da Saúde Mental.
Por favor, me respondam:
Como manter a sanidade nesta ridicularizante sociedade?
Como manter-se mudo diante de uma corja de boas-vidas, pernas-longas e umbigos-miúdos?
Como levar a sério esta estrutura nefanda e carcomida, que só é adoecedora e anti-vida?

Estou aqui vomitando palavras, a verborragia é um efeito do contágio.
Estou doente, veementemente demente, de mente cheia de tudo isto!
Trago o cansaço dos justos injustiçados, sou o eco dos gritos amordaçados!

Dr.s, por favor, tem remédio?
Tem? Remédio?
Por mim, tomem receita:
Loucura pouca é bobagem, eis o antídoto desta antibiótica sacanagem.

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Lucas Millecco por ele mesmo

quinta-feira, novembro 21, 2013

millecco

“Estudo audiovisual (Rádio e TV) pela UFRJ. Tive um blog, ‘Eutamnésia’, mas tranquei. Tenho o costume de escrever alguns textos no Facebook, pego uma imagem que acho legal e faço um texto paralelo, mas só pela prática.
Ana Cristina César sempre foi minha favorita. O Carlito Azevedo entra nessa também, por ter mexido muito com minha forma de escrever depois que li o Monodrama (2010, 7Letras), e tem uma portuguesa sensacional, que ainda não saiu em livro, mas tem uns vídeos com leitura dos próprios poemas que não me permitem levar mais nada a sério: Matilde Campilho.
Fiz cinco curta-metragens desde que entrei na faculdade, o que considero parte do meu amadurecimento na arte e da busca pelos meus objetivos com o audiovisual. Posso destacar o que realizei neste ano: Meu Amor Fez um Projeto. Esse trabalho faz parte do projeto de TCC que estou desenvolvendo, Depois do Dia 23. O resultado final será, se tudo der certo, um documentário experimental, que gira todo em torno do casamento de dezesseis anos de minha mãe e meu pai (falecido em 2001). Vale dizer: meu pai era músico e poeta. Foi minha porta de entrada pro universo artístico.”

UM INIMIGO DE DEZEMBRO

O que perdi. Nosso GMC verde elétrico percorre a reta final interna daquela estradinha em Tiradentes até uma cachoeira rasa, fria, nublada. O frio em Minas às vezes me espanta, você diz, e o olhar azul já não contrasta tanto com as árvores, tudo é cinza, você solta seus cabelos curtos e um pouco de tudo cobre seu rosto, agora os gravetos. A menina pequena sem muito entusiasmo cobre os olhos com a touca, não a de banho, você sabe bem que ela nunca mergulharia naquela água, tosse duas vezes e fecha os olhos. Ana, você diz, ela parece fazer charme, Ana, de novo, e outra vez. Ela fraqueja um sorriso no canto da boca, no canto do canto da boca, e sua gargalhada agora descende uma emoção de milênios, em segundos mais leves que as gotas da queda d’água respingando em minhas botas. Não aquilo que ganhei. Você e Ana trocando cócegas, as duas agora gladiando como loucas em ponta de estoque, em ponta de gansos, de bicos de gansos com a bola do cachorro, e ela já não está entre nós, e persistimos. O inverno aqui escolhe as frutas, e eu não me conformo com a sua capacidade de produzir versos no meio da tarde. Não, o cachorro não persegue mais os gansos, mesmo a bola, ele agora descansa, os olhos avermelhados, a respiração quase no nosso ritmo de humanos. Ana e você mergulham, mesmo no frio, você diz que faz bem ao coração e às paredes do estômago, ela acredita e diz querer ser bióloga, eu caio na gargalhada e me seco, fico feliz que entraram um pouco na água comigo. Ana parece chorar; seus dedos pequenos de seis anos tremem um pouco e ela quer aquele chocolate quente que tomamos uma vez na estrada para São João. Enquanto voltamos, o cão adormecido, Ana adormecida, as velhinhas do clube de tecelagem adormecidas esperando a hora de voltar aos retalhos. Você me olha, falamos de tudo, falamos de Baudelaire, de Baudrillard, do infinito de possibilidades que nos levaram até ali e mesmo de uma série de TV americana que fala de universos paralelos nos quais, provavelmente, você não teria me conhecido, o menino que fazia curta-metragens e aquela que sonhava ser atriz de cinema, nosso GMC enguiça e você deita no meu colo. O que você prefere, metáforas ou prognósticos?, acho que sou do tipo que está mais para roteiros, reticências, e você me escapa o sorriso no canto do canto da boca, igual à sua filha, à nossa filha, que agora abraça o cachorro. Você classificaria estes dias como um roteiro?, acho que não. O Tudo agora parece improvável ou incerto, por isso o nomeio Desejo.

Paulo Pessoa

terça-feira, maio 21, 2013

 “Paulo Pessoa de Andrade escreve e cria como os leões de Henry Miiler: mastigando o indigerível chicle da linguagem. Um artista que alinhava a escritura com a contundência de quem soca o estômago do sentido das coisas : contunde, visceral.” Flávio Viegas Amoreira – escritor e crítico literário.

Paulo Pessoa é autor dos blogs CeleumaPintando Vênus e Galeria.

Dínamo Infernal

Mastiguei até ficar seca. Hordas empaçocadas indigeríveis nas horas. Fui pelo milímetro da beira à procura de um hiato. Salto noturno para arranjos desajeitados num copo de pensamento.

Gole de misericórdia. A meia-noite me segue como um cão.

A mentira insistente é toda a verdade. E a desilusão… é uma

grande dádiva! Fachos de púrpura, fachos de amarelo, fachos de gente. Véu ocre de certezas frágeis, insônia maya, dínamo infernal, ad continuum, ad infinituum. A madrugada se arreganha no esboço de um pigarro em rumo aberto de úlcera, o dia nasce de fórceps.

Meus olhos mal podem abrir…

Átimo

O logo após as pisadas irregulares, cambaleia o futuro. A semana passou num lapso, num átimo alcoólico. Pude ouvir gargalhadas vindas do tablado rotundo dos bêcos. Eco de imagens embaralhadas, idéias colipsadas… Um carrossel de personagens na roda oculta das circunstâncias… e eu aqui, na mesa de canto do bar… daqui tudo se vê, até o uivo do vento dobrar a esquina. A inconformidade concreta precipita-se em tudo… estão visíveis por sobre os ombros como caspas em pretas camisas de algodão sob luz negra. Figuras deslocadas de seu original podem-se entrever no silício, no ópio, no fundo da garrafa. Caleidoscópio de artimanhas neurais. Arte experimental. Daqui, da mesa de canto, mudo a sintaxe a esmo… a arte é mental… Tangram de holografias moldadas em arranjos dramáticos. Virtudes e vícios descoloridos no suor das paredes… um panteão de afrescos mundanos. Eu mesmo, um semi-deus, crio um buraco no tempo, uma matéria escura, uma nuvem, uma dúvida… Mastigo um bolinho de queijo ensopado de tabasco. Viro do avesso a cachaça… o mundo aparece em miniatura no fundo do copo…

Existe sobriedade ?

Ele se chama… Antônio!

sábado, dezembro 29, 2012

Encantar leitores com guardanapos recheados de pequeníssimas poesias e enormíssimos sentidos: é isso que “Eu me chamo Antônio” tem feito por aí… Quero dizer: por aqui mesmo, pela web… Um projeto que nasceu ao acaso na solidão de um balcão de bar e ganhou uma multidão de seguidores nas redes sociais. O autor é um jovem redator publicitário (e agora também escritor) que, enquanto puder, prefere resguardar sua real identidade. Afinal, não é fácil saber o que fazer quando milhares de olhos se voltam para você de uma hora para outra, principalmente quando se é tímido. Bem tímido.

Como nasceu essa entrevista – Parte 1
(Dentro de mim, quando vi os guardanapos pela primeira vez)

Sim, ele é um poeta.
Novo. Muito novo. De hoje. Bem agora.
Mas será que existe mesmo?
Bem, um amigo disse que ele meio que se chama Antônio e que totalmente mora perto de mim.
Ou será que mora em mim?
Bem… Ele pode ser eu.
Sim, escrevi aqueles versos aqui por dentro de mim, e alguém postou… Hackearam meu coração. Lógico: tudo é possível nos dias de hoje.
Não, não escrevi aquilo ali. Sou mulher e quem escreveu aquilo ali foi um homem.
Ai que lindo! Um homem! Estou apaixonada por ele!
Não…
Me apaixonei pelo que ele diz.
Não…
Pelo que escreve.
Não…
Pelo que expressa… Da forma que expressa.
Ai, a poesia. Ufa… É só a poesia.
Sim, poesia… Sempre ela… Dando sustos.
Não…
Dando suspiros…
Eu amo poetas e poesias… Alimentam meus suspiros. É isso. Só isso. Tudo isso.

Como nasceu essa entrevista – Parte 2
(SMS da Nany Prata)

Ela: Viu o cara que se chama Antônio no FB?
Eu: Vi. Quero dizer, li.
Ela: Quanta poesia, né?
Eu: Muita. Demais.
Ela: Sei que já entrevistou outros poetas, outros artistas… Então: converse com ele para a gente colocar lá na Mambembe!?
Eu: … Ai… Será? Sei lá…

Como nasceu essa entrevista – Parte 3
(No muro, grafitando)

Nany: Hoje vou grafitar uma daquelas frases dos guardanapos…
Eu: Uau! Que boa ideia! Tudo a ver!
Nany: E você?
Eu: Vou fazer uma bailarina pelada e descabelada. De cabelão bem doido.
Nany: Estou querendo saber da entrevista… Se você está empolgada!
Eu: Ah… Acho que sim… Mas… Sei lá. Fiz isso profissionalmente durante tanto tempo… Até topo fazer, mas num formato diferente. Bem longe das regras do bom jornalismo.
Nany: Tranquilo, claro! Danem-se as regras! Está liberada para subverter.

Como nasceu essa entrevista – Parte 4
(Inbox no Facebook)

Oi. A Nany me pediu para te entrevistar. A primeira pergunta é: é verdade que você mora aqui no meu bairro?
Hahaha. Sim, a duas quadras de você. Todos os meus guardanapos nasceram naquele bar da esquina.

Me disseram também que você não gosta de falar…
Sou tímido. Posso responder em guardanapos?

Talvez. Mas por agora, me responda apenas: quando ou como você se descobriu escritor?
Acho que colocar palavras no papel foi a forma que encontrei para domar minha ansiedade. Minha cabeça não para quieta, sabe? Se eu não escrever, não durmo. Preciso me esvaziar, sabe?

Claro que sei… 😉
Acho que não me descobri ainda, não me acho “escritor”. Só coloco palavras no papel (e, agora, nos guardanapos). Acho que a arte é isso: fazer o que você pode com aquilo que você tem. Há muito silêncio em mim, e essas frases são meu grito. E não é amor-fofo. Alguns são quase pequenas depressões, pequenas confissões, pequenas confusões. Quando escrevo não me sinto tímido porque estou, de certa forma, distante.

Você se imagina fazendo os guardanapos por muito tempo? 
Comecei há umas semanas e não consigo parar…

Como nasceu essa entrevista – Parte 5
(Gravando!)

Quando entramos na fan pageEu me chamo Antônio’, a única explicação é: “Antônio é um personagem de um romance que está sendo escrito, vivido”. Você está escrevendo mesmo esse romance?
Estou. Mas Antônio, na verdade, é um personagem desse romance. E de repente vai ser um cara que escreve em guardanapos também. Ainda não sei. Mas estou escrevendo.

Mas está escrevendo mesmo no papel ou só na sua cabeça?
É que tem um romance dentro do romance. Toda a ideia do romance e do romance de dentro já está pronta. Só falta sentar e escrever. E estou sem tempo. Mas já tá tudo pronto. Só falta escrever o livro, que é a parte mais fácil, né?

Significa então que você já estruturou os capítulos e tudo?
Já. Quer dizer: eu acho que já. Botei a ideia no papel. Não sei se na hora de escrever vai mudar alguma coisa, mas se chama mesmo “O Romance Inacabado”. Porque é tudo mesmo meio inacabado no livro.

É tudo mesmo totalmente inacabado em tudo…
O romance é sobre uma garota só?
Garota?

É.
Não! Não. Não.

Não tem nada de garota?
Tem um romance, que a gente não sabe se o romance que ele está escrevendo é inacabado, se o romance que eu estou escrevendo está inacabado ou se o romance dele com a personagem é inacabado. Ah, tem uma história de amor, mas não é nhem-nhem-nhem, não. É um amor bonito, assim, impossível: eles nunca se encostam.

Amor impossível bonito?
É.

Então a gente pode considerar os guardanapos como teasers do livro?
Exatamente. A ideia blog era essa: cativar leitores para uma história que um dia vai nascer. E essas frases podem surgir no livro também. Nenhuma frase ali é à toa. Pelo menos a maioria não é à toa. Elas podem aparecer no livro de alguma forma, como no mural do Antônio, já que ele tem uma parede gigante branca no jardim dele, onde escreve frases.

Lá na sua descrição da página no Facebook, você diz que adora silêncio, distância, girafas e amores impossíveis. Eu queria falar disso. Você diz que gosta de silêncio, mas está fazendo o maior barulho na Internet. Isso, de certa forma pode estar incomodando?
Não, pelo contrário, estou gostando. Mas eu gosto de ficar em silêncio. O barulho é consequência do guardanapo. Eu mesmo estou em silêncio ainda. Para mim é uma dificuldade sair, falar. Não gosto.

Entendo. Sou igual. Parece que faz parte da personalidade do escritor.
Eu gosto de falar no guardanapo, no papel. Foi uma coisa que me surpreendeu muito… Eu não esperava isso: oito mil pessoas na fan page, em dois meses.

E vai crescer mais…
Não sei…

Claro que vai…
Não sei. Talvez uma hora vá enjoar. Não sei.

Você diz também que gosta de distância. Sabe, eu achava que também gostava de distâncias, até descobrir que escrevia para me aproximar das pessoas. Se não fosse a escrita, eu jamais chegaria às pessoas. Tanto as de longe, quanto as de perto. Então, você diz que gosta de distância, mas escreve e assim acaba por se aproximar.
É verdade. Contradição total, né? É como o silêncio que faz barulho… Mas na verdade eu gosto da distância porque acho que ela inspira. Meu pai mora na Suíça. Tenho duas irmãs, que moram longe também. Meus amigos de infância estão todos no mundo. Eu acho que isso ajuda a alimentar a poesia, a escrita.

Pois é, aí entra a parte de amores impossíveis, que você diz gostar também. Só pode ser para alimentar a escrita, né?
É.

Escrever é melhor do que viver?
Não sei. Acho que na minha vida, por acaso, surgiram vários amores impossíveis. Não sei se escolhi viver isso… Impossíveis não no sentido de não terem acontecido, mas de não terem ido para frente. E talvez silêncio e distância sejam igual a amor impossível, né?

É. E é triste.
Para o poeta é triste, mas para a poesia é bonito. Emocionalmente é ruim, mas como ferramenta de trabalho é maravilhoso.

E o que a girafa está fazendo no meio da lista de coisas que você gosta?
Nasci no meio delas, lá na África. Meus pais atribuíram um animal africano para cada filho e eu fiquei com a girafa. Uma irmã ficou com o hipopótamo, a outra com o elefante e a outra com o camelo.

Nossa… Achei que teria uma explicação bem filosófica para o fato de você gostar de girafas. O que seus pais foram fazer na África?
Meu pai trabalha com ajuda humanitária e foi enviado para algumas missões na África, principalmente no Chade, onde nasci, e em Cabo Verde. Mais tarde vi que, inconscientemente, eles acertaram na escolha: a girafa é um poeta de quatro patas e incontáveis manchas, que vive com os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

Há muitos anos, entrevistei o poeta Nicolas Behr, e ele disse que essa coisa de que os poetas têm a cabeça nas nuvens é um estereótipo. Ele acredita que a inspiração dos poetas está no cotidiano. Que não existe gente mais ligada à realidade do que um poeta. A partir daquele dia, daquela resposta, mudei completamente o meu pensamento sobre isso…
Sim, sim! Concordo com ele! Mas também acho que o poeta precisa dialogar com as nuvens, mesmo que crie os diálogos com as palavras que ele encontra aqui no chão. Afinal, as referências são desse mundo. E ele precisa ser compreendido por quem habita aqui. Mas as ideias são encontradas quando as mãos do poeta (ou o pescoço da girafa) se estendem para o céu para catar qualquer sintoma de poesia, é quase divino.

Quero te contar que parei de curtir e de comentar os guardanapos porque eu curto e tenho vontade de comentar todos. Parei para não parecer chata, a presidente do fã clube.
Já eu queria achar um jeito de parar de postar um pouco, porque a ideia vem, e eu não consigo não postar. Posto muito, muito, muito. Não tem um dia que eu não poste quatro ou cinco coisas. Mas toda hora vem uma ideia nova, e eu quero, e preciso, escrever. E funciona muito mais como agenda para mim: o que eu pensei aquele dia…

Ah, para mim também é assim. Minha página é um super diário, para a qual eu volto para ver certas coisas. É muito mais para mim que para os outros.
Exatamente. Acho que é isso: muito mais para mim que para os outros. E eu estou tentando achar uma forma de preservar meu perfil pessoal. As pessoas estão começando a me adicionar no perfil pessoal, e isso está me incomodando. Não acho ruim, mas é estranho aceitar ser amigo de quem não tenho ideia de quem seja.

O povo quer ser seu amigo por causa da identificação com a sua arte, que é muito forte. Já parou para pensar e viajar nessa coisa da identificação?
Sim. E é muito louco. Porque, às vezes, acho alguns guardanapos muito simples. Coisa que qualquer um faria. Eu não sei por que deu certo.

Qualquer um faria, mas não fez. Então o artista é você, e eles são os burocratas. Por isso deu certo.
Não sei. Mas o fato de ser simples é ótimo, porque todo mundo entende, por mais que seja um trocadilho. Não há palavras rebuscadas.

Mas não deixa de ser bem inteligente.
E agora estou tentando colocar a interferência de um desenho minimalista, às vezes. Porque eu estava achando os guardanapos muito vazios. Mas aí eu volto de novo para o primeiro guardanapo, só com o desenho das letras. Esse exercício tem me ensinado tanto a enxergar quanto a valorizar a importância do vazio.

Com o ó bailarino, com aquele braço de balé, que eu amo!
Eu gosto também!

Com o sucesso dos guardanapos, acabou que o romance do Antônio foi para o final da sua lista de prioridades, e você está produzindo um livro só com as imagens dos guardanapos…
Sim. A ideia é essa. Estou fazendo. Mas, por falar em livro, você não vai fazer o “não duvide:” em formato de livro, não?

Não. Aquilo não é para virar livro, não. Um livro de onze versos? Ele nasceu para ser de muro mesmo. Livre por aí…
Mas é aquilo que já te falei: você tem que fazer um livro-adesivo, que dê para destacar as páginas. O leitor cola onde quiser. Você tem que conseguir patrocínio para isso, contatos… Porque é um livro que não acaba, né? Tudo pode virar “não duvide:”.

Essa ideia é muito boa!
Olha só: você perguntou se eu achava sua arte sincera, por causa daquilo que te disseram… Vamos falar disso.
Não. Não, vamos colocar isso não.

Vamos colocar sim.
Não, por favor.

Vamos colocar sim, vamos polemizar, poxa. Sem pimenta não tem graça. A pessoa que te falou aquilo é do seu trabalho?
Não. Mandou inbox.

Então, vamos falar!
Mas ela não falou de um jeito maldoso, não. Acho, inclusive, que tentou ajudar. Só não entendi direito o que ela quis dizer. Também eram duas da manhã… Por isso acho que não vale a pena polemizar.

Por causa dela você ficou com um nó no peito e me perguntou se eu achava sua arte sincera, porque ela disse que achou algumas coisas um pouco forçadas. Respondi que gosto tanto da sua arte, que acho tão de coração, que por isso ia te entrevistar, sem ninguém me pagar nada por isso, numa situação de meio tempo na vida, no amor, na saúde e no trabalho, quer dizer: toda meio lascada… Mas o mais importante é: você acha a sua arte sincera?
Sim, pô! Se eu perco meu tempo escrevendo guardanapos e fotografando… Tudo é sincero! Passa pela minha cabeça, e eu não resolvi guardar para mim… E não é uma frase do Chico Buarque… É uma frase minha… E não pedi para um profissional desenhar. Eu mesmo desenho… Então claro que é sincero! Não existe nada tão sincero na minha vida.

Aí mais de 8 mil pessoas, na maioria mulheres, te curtem, te amam, querem te conhecer… E apenas uma resolve não gostar e falar. É ruim, né? Mexe com a gente!
Ruim. Muito ruim. Papo de quase não conseguir dormir.

A gente é artista e quer ser só amado, né? Mas acho que tem que aprender a conviver com isso…
É, mas as pessoas constroem isso também. Não quero que os guardanapos virem ídolos teen. Muitas meninas escrevem dizendo que eu falo tão bem de amor. Mas não sei se meus guardanapos falam de amor…

…Eles falam de sentimentos. E isso, vindo de um homem, é bem inédito.
Mas também tem humor, sátira, política… E tem um limite de espaço, que sempre me poda. Pode parecer fácil, mas escrever frase é difícil. Muito mais que um livro.

É sim. Eu também faço esse exercício, que chamo de escrito Naïf.
Como dificuldade, tem também a falta do word para me corrigir. Já aconteceu de dois guardanapos irem com erro, que eu deixei. Acho bonito. É um erro consciente, então não é um erro: só não deu para consertar.

As frases são ficcionais, mas os guardanapos são um objeto tão real. Será que é isso que mexe com as pessoas?
É… De uma coisa feita para limpar a sujeira da boca, procuro dar certa beleza literal: beleza de sentido, beleza tipográfica, beleza sincera. Não é a beleza mais bonita do mundo, mas é a beleza mais bonita que eu consegui colocar para fora do mundo mudo que grita em mim.

Ah, poeta…
Tomara que um dia alguém diga que é arte e que valha alguma coisa.

Tomara…
Projetos para 2013?
Um blog com textos maiores, usando os guardanapos como títulos para desenvolver a ideia. Como uma manchete. Manchete de sentimento. Não tenho muita paciência (nem muito tempo) para escrever muito, mas vou sentar e escrever ao menos umas linhas a mais. Outro projeto é o livro “Antoniologia Poética”, com imagens desses guardanapos já conhecidos e o livro “Cicatriz Coadjuvante”, com 40 guardanapos inéditos de dor, ausência… De tudo que é rasgado. Tenho ideias também de exposições, livros de historinhas curtas como alguns do Mario Quintana. Acabei de fazer uma exposição encomendada, com 60 guardanapos para uma festa. Foi a primeira vez dos guardanapos off line. Achei bem legal.

Desse jeito o romance do Antônio foi mesmo para o final da lista de prioridades!
É…

A marca “Eu me chamo Antônio” é tão filosófica, bonita e artística… Porque esconde e revela. É uma confissão, porque é o seu nome, mas não é como você é conhecido no seu mundo.
Eu tinha pensado em vários nomes filosóficos, com trocadilhos e tudo, mas acabei indo para o mais simples… Que é mesmo o meu nome.

É. E que ninguém sabe…
Exatamente. Por isso que ao mesmo tempo é um mistério.

Isso combina tanto com a sua arte porque a poesia esconde e revela o tempo todo… Cada guardanapo é uma confissão, assim como a marca…
Nunca tinha parado para pensar assim, mas acho que concordo com você.

Como nasceu essa entrevista – Parte 6
(Relendo e pensando…)

A entrevista ficou grande, enorme. Não era a intenção. Mas renderia muito mais: a história do primeiro poema, que falava de saudade e foi recitado na escola por uma menina chamada Sofia; a parte do contato com a Língua Portuguesa, que passou a integrar a vida dele só pelos 12, 13 anos; o mau humor de não querer associar a página fictícia à página pessoal no Facebook, mas, ao mesmo tempo, de não querer ser indelicado com os amigos sobre esse assunto; a recente viagem internacional, que adiou nossa gravação; minha alegria de me sentir espelhada, contemporaneamente, por um artista vizinho; a composição estética dos guardanapos (vazios+imperfeições+etc); minha felicidade de a traquinagem ter dado certo: papo vai, papo vem, adorei conhecê-lo; as muitas coincidências de vida; a certeza de que um perfil careta, jornalisticamente correto, virá em breve (por um ou mais jornalistas caretas e politicamente corretos)… Afinal, ele é novo e tem projetos originais. Ainda vai render muita notícia. Todos esses assuntos, eu adoraria aprofundar. É a minha cara ir além… Mas o importante mesmo, para mim, que vivo em meio a tantos personagens (de dentro e de fora), é ter assegurado que ele é mesmo poeta. De agora. E existe. E não mora apenas bem perto de mim. Está on line para o coração do mundo, deixando a vida pulsar, o tempo todo, bem perto de quem quiser. Isso tudo aqui não foi bem uma entrevista. Foi só um papo publicado, ao sabor da web: meio fragmentado, meio qualquer coisa, meio preguiçoso ou fluido, à moda dos poetas, ou à moda dele mesmo… Uma entrevista inacabada…

Ah… Faltou falar também do Tumblr, uma ferramenta na web, que não tenho a menor noção do que significa e que foi onde começou o sucesso dele… Mas isso vocês podem procurar saber, né?

Wanderlino Teixeira

quarta-feira, outubro 17, 2012

Wanderlino Teixeira Leite Netto nasceu na cidade do Rio de Janeiro e reside em Niterói desde os 4 anos de idade.

Administrador (bacharelado e licenciatura plena), exerceu a profissão e aposentou-se em 1993.

Poeta, cronista, contista, ensaísta, biógrafo, historiador (19 livros editados); trabalhos publicados em antologias, jornais e revistas.

Pertence aos quadros da Academia Niteroiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói.

Cofundador da Associação Niteroiense de Escritores.

Dinamizador, juntamente com Lena Jesus Ponte, da “Oficina da Palavra Luiz Simões Jesus”, criada por ambos.

Fórmula I

Esgane o tempo, parceiro,
na pressa do cada dia.

Não tema a falta de tema,
não demonstre o teorema
nem pense na liturgia.

Esgane o tempo, parceiro.

Mergulhe fundo no poço,
rabisque o corpo do mapa,
sorva num gole a garapa,
não tente fazer esboço.

Esgane o tempo, parceiro.

Beba pelo gargalo,
mastigue a base do talo,
não pense em se arrepender.

Esgane o tempo, parceiro.

Caminhe para lá da vertente
ou declare-se incompetente.

Mas tome muito cuidado, parceiro,
há reverso no vintém.
Na hora do quem é quem,
o tempo esgana também.

Espelho

Encurte do passado esta distância,
encolha esta lonjura do futuro,
avoque enfim o desafio
de, atando as pontas deste fio,
enfocar o tempo em nova dimensão.

E trate de trocar trilhos por trilhas
e ouse dispersar velhas quadrilhas,
e arrisque atiçar mancos demônios
e busque convocar duendes tantos
e tente enxugar todos os prantos
na hora de encarar sem entretantos
seus medos, seus sustos, seus espantos.

A Poesia de Múcio Góes

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Múcio Góes é poeta, autor dos livros “Incensos, Insônias, Silêncios e Outros Sons” (Editora Nossa Livraria, 2010), “Grãos ao Alto!” (Editora Árvore dos Poemas, 2009) e “O Avesso e o Verso” (Editora Nossa Livraria, 2008) e autor do blog Traversuras.

de repente
não mais que de repente
eu você
você e eu
nós dois assim
frente a frente
não mais que de repente
nós dois a fim
bem rente
olho no olho
dente no dente
de repente nós dois

pra sempre


não me procure

e me ache
o mundo é o meu forte
apache

soltos no céu

no primeiro jardim
da via láctea

fica assim combinado
o nosso piquenique

eu vou de bike
com meu tênis da nike

e não vejo a hora
de avistar o teu

sputnik

Livros do autor:

Thales Paradela

quinta-feira, outubro 13, 2011

Thales Paradela é poeta, ator e professor. Reside no Rio de Janeiro. Os poemas aqui publicados pertencem ao livro “Pedra curva tempo”, Publit, Rio de Janeiro, 2009.

 

 

 

 

 

 

OLHOS ABERTOS

Não, não pisca!
Aconteça o que for,
mantenha a pupila dilatada
e as pálpebras escancaradas ao eterno.
Pelo amor de deus,
não pisca!

Tens a lua em tua íris.
Nesse refratário úmido,
o ontem, o hoje e o talvez
ecoaram em uníssono
e fui pleno.
Ao menos ali
reconheci-me íntegro,
como o espelho sempre me negara.
E altivo, fiz-me todo:
a criança que não fora;
a caligrafia que não praticara;
a palavra que não esculpira;
o beijo que não dera;
o leão que não adormecera;
…mas era eu…

Eu por mim desconhecido,
aquele que tu sonharas.
Era pleno e estilhaçado.
Mitigado em planos
e recomposto em amor:
o teu.

QUANDO

Não é sempre que te quero.
É só quando a aurora
com olheiras roxas
chega atrasada ao ocaso da noite;

É só quando o tempo
com cabelos desgrenhados
veste sua camisa pelo avesso;

É só quando a lua
comovida por um beijo abandonado
esquece-se no firmamento
em soluços até o meio-dia;

É só quando a pena
verga-se flácida
e o tinteiro resseca-se por não conseguir grafar adeus;

É só quando mais não me vejo
e o que fora de mim jaz semeando chuva,
plantando, não minha carne, mas minha angústia;

Não é sempre que te quero:
é só quando existo.

A Poesia de Gregorio Duvivier

terça-feira, agosto 9, 2011

Gregorio Byington Duvivier (Rio de Janeiro, 11 de abril de 1986) é ator e poeta carioca. Filho da cantora Olivia Byington e do músico Edgar Duvivier. É formado em Letras na PUC-Rio desde 2008. Começou a atuar aos 9, no curso de teatro Tablado. Um ano antes de entrar na faculdade, aos 17 anos, formou o grupo que faria a peça Z.É., Zenas Emprovisadas, que está em cartaz até hoje. Bem aceito pela crítica, seu livro de estréia “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” (7 Letras, 2008) foi elogiado por Millôr Fernandes e Ferreira Gullar.

os invasores

durante o mês de outubro sobre
tudo nos bairros sem praia é preciso
que ás seis da tarde precisamente
tranquem-se as portas fechem-se
as janelas apaguem-se as luzes
durante quinze minutos de silêncio
e escuridão para que os invasores
achem que não há mais ninguém ali
pois se por acaso houver alguma
luz esquecida em algum canto qual
quer meus amigos é bom saber pre
parem-se pois eles vão achá-la e a
través de alguma brecha eles hão
de se esgueirar em bando à procura
de alguma lâmpada incandescente
que lhes sirva de deus sob o qual
voarão histéricos para celebrar a luz.

escuta só

num dia ensolarado, eu disse,
você pode ouvir o big bang até
hoje, eu li num jornal, até hoje,
é um barulho ensurdecedor, eu
disse, mas como é, você disse,
como é que não estamos ouvindo
nada agora, você disse, mas nós
estamos ouvindo ele agora, eu
disse, só não estamos escutando,
porque sempre ouvimos, desde
pequenos, mas se ouvíssemos
agora pela primeira vez seria
ensurdecedor, eu disse, e você
de repente disse, e eu nunca
me esqueci, disse que talvez por
isso as pessoas não se entendam
direito, por causa do estrondo,
e nós voltamos a ouvir música,
e ninguém disse mais nada.

(e eu pensei: talvez por isso
a música – para calar o estrondo)

Rebecca Albino

sexta-feira, julho 22, 2011

 

 

 

Carioca, não teve a fase dos piercings e não tem tattoo. Como estudante de Comunicação, ficou hesitante se seria jornalista ou publicitária, aí resolveu estudar o equivalente ao Cinema, mas acabou se decidindo por Publicidade — e, olha, já está por um triz da formatura! Escreve desde que a professora da sétima série lhe apontou talento e a encorajou a tal. Como não fala pouco, reter palavras para expressar muito é um exercício, uma distração e, sem querer rimar, uma grande paixão. Não é de favoritar, mas dentre aqueles que sempre acompanha na literatura, estão Bukowski, Fante, Lispector, Fernando Pessoa (e companhia), Bishop e por aí vai.

06

Não amo, não vivo
Perambulo –
no meu silêncio, articulo
essa relação de arquivo.

Não desprezo,
tampouco preservo,
prefiro esquecer
– deixar engavetado,
que uma hora vira passado.

Uma hora a gaveta cospe papel
o pensamento é realmente,
totalmente, infiel;
e tudo vira Torre de Babel.

Mas (e mais) vale a aventura
ainda que cruel, incerta
e expressa por quem não te interessa
a aguardar, na esquina,
por essa vida, que termina.

O poeta é um fingidor.

enquanto pecorro esse caminho
estranho e tão só, distinto
me bate saudades de tempos tão recentes
daquela torrente mista de alegria e
loucura
em que era eu tão crente.

absorta em fantasioso mistério
respirando promessas, anseando momentos
tudo ficou para trás, por onde os carros
andam
e por onde acabo de passar, passeando.

ainda que o cheiro e som estejam íntimos
e que o toque ainda me encoste
que o indisfarçável tremor na sua voz
me fascine
ainda é passado — efusivo, delirante.

de ti não peço o amor
quando há o perdão e adeus
peço que não fiques triste com minha
ausência
que mais triste que amor não
correspondido
é amor escondido — eclipsado,
jamais alcançado.

No meio do bloco…

E que dentre todas aquelas faces,
Seu rosto procurei.
Não uma, mas centenas de vezes mais.
Se era esperança minha
ou tolice, como queira,
– não sei.
Ao vento me descabelei
e molhei-me a chuva
Sem que uma única palavra tua que pudesse justificar.

Não te culpo;
não por aquilo que não podes controlar.
Lhe culpo pelas traças, pelos copos
sujos vazios e
tudo cheirando a vinho.

Lhe direciono a pouca cautela,
a distração, falta de tato
e uma certa rispidez.

Se não falamos sobre isso
foi porque eu não quis
e você não se opôs –
neste silêncio em que insistem
berrar palavras de insulto,
você sempre se fez entender
enquanto eu fiz questão
de tentar esquecer.

O quão em vão, é desnecessário dizer.
Ainda lembro de minhas tremedeiras
teu tão teu jeito
seu suor criando piscinas em minhas unhas
o frenesi que nos achávamos
emitindo sons, que vibravam.

Goteira Poética

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Esse telhado nem massa de calafetagem tampouco durepóxi dá jeito, o pinga pinga é de letras.
Espaço para os que escrevem de forma pingada, poesia aqui outra alí, prosa acolá…
Cabe todo mundo e de todo jeito, mão livre sobre papel de pão, máquina de escrever com letra quebrada ou sofisticadíssimos palm tops, não importa.
O telhado pinga e, de caneca em punho, colhemos a chuva. Água fresca, boa de beber, sempre aos pouquinhos, gota a gota, gota a gota, gota a, gota…

Inauguro este espaço com algumas de minhas poesias. São poucas e pingadas, bem no jeito da Goteira.

Palavras Brancas

Folha branca, risco cinza.
Aglomerado de palavras sem rima.
Entram pelos olhos,
Boca, ouvido e poros.
Convulsionam os sentidos
E lentas escorrem pelas narinas.

É o agridoce que lateja na garganta.
Salgado gosto, palavra doce.
Palavras de aglomerado sem rima.
Branco risco na folha cinza.
Convulsiona o dicionário
E adormece a língua.

Expresso (numa noite calma)

Engraçado é se sentir sozinho
No meio dos bom dias e boa tardes.
É tanta gente que não tem ninguém.

Gira sem fim a roda dos dias
E a gente se multiplica na proporção
Da hora que passa.

É difícil achar alguém,
Perder de vista não é fácil:
É óbvio (já sumiram tantos…).

Certo dia num reencontro numa livraria,
A conversa foi ao sabor de um expresso.
Eram tantos livros ao redor que não via nenhum.

Se quisesse escolheria um pra ler
Mas não dá pra ler ali no tempo de um expresso.
Essa conversa foi um livro lido nesse tempo.

Conversa de dois no tempo de anos…
Bom dias, boa tardes e boa noites não dados.
Boa leitura pra ser posta em dia.
No bom dia que a noite é expressa
É o livro de ler calmo.

No dia comum da roda,
É muita gente pra ler.
Muita gente querendo ser lida sem saber ler,
Não dá nem no tempo de anos.

Engraçado mesmo é ver alguém.
Ali, carne, osso e tristezas.
Alegrias por que não?
Dá tempo no tempo de um expresso.

Ao amigo Raony, que já morreu uma vez.

Sonho?

O sonhador acordou
E acordou com seu sonho
Que não dormiria mais,
Pra não correr mais o risco.

Dormiu quarto de século ou mais
E o sonho durou o sono.
Hoje, desperto, toma café,
Pra não correr mais o risco.

Pensa às vezes se o sonho era aquilo,
Ou isso é o que deve chamar sonho.
Pensa sempre no fim da tarde,
Pra não correr mais o risco.

À noite o sonhador deita,
E acorda com o sono
A apenas acordar de manhã,
Pra não correr mais o risco.

Toda manhã o sonhador se arrisca.
Aprende cada dia que o sonho começa
E termina no mesmo ponto.
Todo dia o sonhador vive a vida de um dia.

O sonhador acordou
E acordou com seu sonho
Que viveria mais,
Pra não correr mais o risco
De sonhar que sonha.

Para saber mais, visite o blog do autor.