Archive for the ‘conto’ Category

Lucas Millecco por ele mesmo

quinta-feira, novembro 21, 2013

millecco

“Estudo audiovisual (Rádio e TV) pela UFRJ. Tive um blog, ‘Eutamnésia’, mas tranquei. Tenho o costume de escrever alguns textos no Facebook, pego uma imagem que acho legal e faço um texto paralelo, mas só pela prática.
Ana Cristina César sempre foi minha favorita. O Carlito Azevedo entra nessa também, por ter mexido muito com minha forma de escrever depois que li o Monodrama (2010, 7Letras), e tem uma portuguesa sensacional, que ainda não saiu em livro, mas tem uns vídeos com leitura dos próprios poemas que não me permitem levar mais nada a sério: Matilde Campilho.
Fiz cinco curta-metragens desde que entrei na faculdade, o que considero parte do meu amadurecimento na arte e da busca pelos meus objetivos com o audiovisual. Posso destacar o que realizei neste ano: Meu Amor Fez um Projeto. Esse trabalho faz parte do projeto de TCC que estou desenvolvendo, Depois do Dia 23. O resultado final será, se tudo der certo, um documentário experimental, que gira todo em torno do casamento de dezesseis anos de minha mãe e meu pai (falecido em 2001). Vale dizer: meu pai era músico e poeta. Foi minha porta de entrada pro universo artístico.”

UM INIMIGO DE DEZEMBRO

O que perdi. Nosso GMC verde elétrico percorre a reta final interna daquela estradinha em Tiradentes até uma cachoeira rasa, fria, nublada. O frio em Minas às vezes me espanta, você diz, e o olhar azul já não contrasta tanto com as árvores, tudo é cinza, você solta seus cabelos curtos e um pouco de tudo cobre seu rosto, agora os gravetos. A menina pequena sem muito entusiasmo cobre os olhos com a touca, não a de banho, você sabe bem que ela nunca mergulharia naquela água, tosse duas vezes e fecha os olhos. Ana, você diz, ela parece fazer charme, Ana, de novo, e outra vez. Ela fraqueja um sorriso no canto da boca, no canto do canto da boca, e sua gargalhada agora descende uma emoção de milênios, em segundos mais leves que as gotas da queda d’água respingando em minhas botas. Não aquilo que ganhei. Você e Ana trocando cócegas, as duas agora gladiando como loucas em ponta de estoque, em ponta de gansos, de bicos de gansos com a bola do cachorro, e ela já não está entre nós, e persistimos. O inverno aqui escolhe as frutas, e eu não me conformo com a sua capacidade de produzir versos no meio da tarde. Não, o cachorro não persegue mais os gansos, mesmo a bola, ele agora descansa, os olhos avermelhados, a respiração quase no nosso ritmo de humanos. Ana e você mergulham, mesmo no frio, você diz que faz bem ao coração e às paredes do estômago, ela acredita e diz querer ser bióloga, eu caio na gargalhada e me seco, fico feliz que entraram um pouco na água comigo. Ana parece chorar; seus dedos pequenos de seis anos tremem um pouco e ela quer aquele chocolate quente que tomamos uma vez na estrada para São João. Enquanto voltamos, o cão adormecido, Ana adormecida, as velhinhas do clube de tecelagem adormecidas esperando a hora de voltar aos retalhos. Você me olha, falamos de tudo, falamos de Baudelaire, de Baudrillard, do infinito de possibilidades que nos levaram até ali e mesmo de uma série de TV americana que fala de universos paralelos nos quais, provavelmente, você não teria me conhecido, o menino que fazia curta-metragens e aquela que sonhava ser atriz de cinema, nosso GMC enguiça e você deita no meu colo. O que você prefere, metáforas ou prognósticos?, acho que sou do tipo que está mais para roteiros, reticências, e você me escapa o sorriso no canto do canto da boca, igual à sua filha, à nossa filha, que agora abraça o cachorro. Você classificaria estes dias como um roteiro?, acho que não. O Tudo agora parece improvável ou incerto, por isso o nomeio Desejo.

Anúncios

Paulo Pessoa

terça-feira, maio 21, 2013

 “Paulo Pessoa de Andrade escreve e cria como os leões de Henry Miiler: mastigando o indigerível chicle da linguagem. Um artista que alinhava a escritura com a contundência de quem soca o estômago do sentido das coisas : contunde, visceral.” Flávio Viegas Amoreira – escritor e crítico literário.

Paulo Pessoa é autor dos blogs CeleumaPintando Vênus e Galeria.

Dínamo Infernal

Mastiguei até ficar seca. Hordas empaçocadas indigeríveis nas horas. Fui pelo milímetro da beira à procura de um hiato. Salto noturno para arranjos desajeitados num copo de pensamento.

Gole de misericórdia. A meia-noite me segue como um cão.

A mentira insistente é toda a verdade. E a desilusão… é uma

grande dádiva! Fachos de púrpura, fachos de amarelo, fachos de gente. Véu ocre de certezas frágeis, insônia maya, dínamo infernal, ad continuum, ad infinituum. A madrugada se arreganha no esboço de um pigarro em rumo aberto de úlcera, o dia nasce de fórceps.

Meus olhos mal podem abrir…

Átimo

O logo após as pisadas irregulares, cambaleia o futuro. A semana passou num lapso, num átimo alcoólico. Pude ouvir gargalhadas vindas do tablado rotundo dos bêcos. Eco de imagens embaralhadas, idéias colipsadas… Um carrossel de personagens na roda oculta das circunstâncias… e eu aqui, na mesa de canto do bar… daqui tudo se vê, até o uivo do vento dobrar a esquina. A inconformidade concreta precipita-se em tudo… estão visíveis por sobre os ombros como caspas em pretas camisas de algodão sob luz negra. Figuras deslocadas de seu original podem-se entrever no silício, no ópio, no fundo da garrafa. Caleidoscópio de artimanhas neurais. Arte experimental. Daqui, da mesa de canto, mudo a sintaxe a esmo… a arte é mental… Tangram de holografias moldadas em arranjos dramáticos. Virtudes e vícios descoloridos no suor das paredes… um panteão de afrescos mundanos. Eu mesmo, um semi-deus, crio um buraco no tempo, uma matéria escura, uma nuvem, uma dúvida… Mastigo um bolinho de queijo ensopado de tabasco. Viro do avesso a cachaça… o mundo aparece em miniatura no fundo do copo…

Existe sobriedade ?