Lucas Millecco por ele mesmo

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millecco

“Estudo audiovisual (Rádio e TV) pela UFRJ. Tive um blog, ‘Eutamnésia’, mas tranquei. Tenho o costume de escrever alguns textos no Facebook, pego uma imagem que acho legal e faço um texto paralelo, mas só pela prática.
Ana Cristina César sempre foi minha favorita. O Carlito Azevedo entra nessa também, por ter mexido muito com minha forma de escrever depois que li o Monodrama (2010, 7Letras), e tem uma portuguesa sensacional, que ainda não saiu em livro, mas tem uns vídeos com leitura dos próprios poemas que não me permitem levar mais nada a sério: Matilde Campilho.
Fiz cinco curta-metragens desde que entrei na faculdade, o que considero parte do meu amadurecimento na arte e da busca pelos meus objetivos com o audiovisual. Posso destacar o que realizei neste ano: Meu Amor Fez um Projeto. Esse trabalho faz parte do projeto de TCC que estou desenvolvendo, Depois do Dia 23. O resultado final será, se tudo der certo, um documentário experimental, que gira todo em torno do casamento de dezesseis anos de minha mãe e meu pai (falecido em 2001). Vale dizer: meu pai era músico e poeta. Foi minha porta de entrada pro universo artístico.”

UM INIMIGO DE DEZEMBRO

O que perdi. Nosso GMC verde elétrico percorre a reta final interna daquela estradinha em Tiradentes até uma cachoeira rasa, fria, nublada. O frio em Minas às vezes me espanta, você diz, e o olhar azul já não contrasta tanto com as árvores, tudo é cinza, você solta seus cabelos curtos e um pouco de tudo cobre seu rosto, agora os gravetos. A menina pequena sem muito entusiasmo cobre os olhos com a touca, não a de banho, você sabe bem que ela nunca mergulharia naquela água, tosse duas vezes e fecha os olhos. Ana, você diz, ela parece fazer charme, Ana, de novo, e outra vez. Ela fraqueja um sorriso no canto da boca, no canto do canto da boca, e sua gargalhada agora descende uma emoção de milênios, em segundos mais leves que as gotas da queda d’água respingando em minhas botas. Não aquilo que ganhei. Você e Ana trocando cócegas, as duas agora gladiando como loucas em ponta de estoque, em ponta de gansos, de bicos de gansos com a bola do cachorro, e ela já não está entre nós, e persistimos. O inverno aqui escolhe as frutas, e eu não me conformo com a sua capacidade de produzir versos no meio da tarde. Não, o cachorro não persegue mais os gansos, mesmo a bola, ele agora descansa, os olhos avermelhados, a respiração quase no nosso ritmo de humanos. Ana e você mergulham, mesmo no frio, você diz que faz bem ao coração e às paredes do estômago, ela acredita e diz querer ser bióloga, eu caio na gargalhada e me seco, fico feliz que entraram um pouco na água comigo. Ana parece chorar; seus dedos pequenos de seis anos tremem um pouco e ela quer aquele chocolate quente que tomamos uma vez na estrada para São João. Enquanto voltamos, o cão adormecido, Ana adormecida, as velhinhas do clube de tecelagem adormecidas esperando a hora de voltar aos retalhos. Você me olha, falamos de tudo, falamos de Baudelaire, de Baudrillard, do infinito de possibilidades que nos levaram até ali e mesmo de uma série de TV americana que fala de universos paralelos nos quais, provavelmente, você não teria me conhecido, o menino que fazia curta-metragens e aquela que sonhava ser atriz de cinema, nosso GMC enguiça e você deita no meu colo. O que você prefere, metáforas ou prognósticos?, acho que sou do tipo que está mais para roteiros, reticências, e você me escapa o sorriso no canto do canto da boca, igual à sua filha, à nossa filha, que agora abraça o cachorro. Você classificaria estes dias como um roteiro?, acho que não. O Tudo agora parece improvável ou incerto, por isso o nomeio Desejo.

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