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Varal Poético – Douguiníssimo

domingo, maio 11, 2014

Douguiníssimo (Douglas Aparecido): Poeta, Performer, Agitador Cultural, Videomaker e Fotógrafo. Nascido e criado em Ouro Preto, Minas Gerais, cidade cuja existência se deve a ganância e febre provocada pelo ouro. Nesta antiga vila rica, constitui-se pensador livre pelo curso de filosofia da UFOP. Ativista Cultural, é um dos idealizadores do Movimento Orgânico Imaginário, cuja essência é refletir e desenvolver ações que possibilitem construir novas formas de existência e convívio na nossa massacrante sociedade. Se apropria da poesia, como quem empunha uma arma e através das palavras lança o grito que ecoa e ressoa em todos aqueles que se sensibilizam com o impacto desses versos.

Aos Dr.s da Saúde Mental

Declaro para todos os fins, minha veemente e instituída loucura.
Aquela boa e velha, descabida e maldizida.
A mesma que levou Zaratustra pra montanha
Jesus pro deserto
Icaro pro sol
E Jonas pra baleia.

A mesma que fez Quixote se atracar com moinhos,
Kafka a perder-se de si mesmo,
Torquato Neto a matar-se num banheiro
Cazuza a viver amores inventados
Nero a botar fogo em Roma
E Moises a cruzar o mar vermelho.

Permitam-me, Dr.s da Saúde Mental.
Por favor, me respondam:
Como manter a sanidade nesta ridicularizante sociedade?
Como manter-se mudo diante de uma corja de boas-vidas, pernas-longas e umbigos-miúdos?
Como levar a sério esta estrutura nefanda e carcomida, que só é adoecedora e anti-vida?

Estou aqui vomitando palavras, a verborragia é um efeito do contágio.
Estou doente, veementemente demente, de mente cheia de tudo isto!
Trago o cansaço dos justos injustiçados, sou o eco dos gritos amordaçados!

Dr.s, por favor, tem remédio?
Tem? Remédio?
Por mim, tomem receita:
Loucura pouca é bobagem, eis o antídoto desta antibiótica sacanagem.

Rebecca Albino

sexta-feira, julho 22, 2011

 

 

 

Carioca, não teve a fase dos piercings e não tem tattoo. Como estudante de Comunicação, ficou hesitante se seria jornalista ou publicitária, aí resolveu estudar o equivalente ao Cinema, mas acabou se decidindo por Publicidade — e, olha, já está por um triz da formatura! Escreve desde que a professora da sétima série lhe apontou talento e a encorajou a tal. Como não fala pouco, reter palavras para expressar muito é um exercício, uma distração e, sem querer rimar, uma grande paixão. Não é de favoritar, mas dentre aqueles que sempre acompanha na literatura, estão Bukowski, Fante, Lispector, Fernando Pessoa (e companhia), Bishop e por aí vai.

06

Não amo, não vivo
Perambulo –
no meu silêncio, articulo
essa relação de arquivo.

Não desprezo,
tampouco preservo,
prefiro esquecer
– deixar engavetado,
que uma hora vira passado.

Uma hora a gaveta cospe papel
o pensamento é realmente,
totalmente, infiel;
e tudo vira Torre de Babel.

Mas (e mais) vale a aventura
ainda que cruel, incerta
e expressa por quem não te interessa
a aguardar, na esquina,
por essa vida, que termina.

O poeta é um fingidor.

enquanto pecorro esse caminho
estranho e tão só, distinto
me bate saudades de tempos tão recentes
daquela torrente mista de alegria e
loucura
em que era eu tão crente.

absorta em fantasioso mistério
respirando promessas, anseando momentos
tudo ficou para trás, por onde os carros
andam
e por onde acabo de passar, passeando.

ainda que o cheiro e som estejam íntimos
e que o toque ainda me encoste
que o indisfarçável tremor na sua voz
me fascine
ainda é passado — efusivo, delirante.

de ti não peço o amor
quando há o perdão e adeus
peço que não fiques triste com minha
ausência
que mais triste que amor não
correspondido
é amor escondido — eclipsado,
jamais alcançado.

No meio do bloco…

E que dentre todas aquelas faces,
Seu rosto procurei.
Não uma, mas centenas de vezes mais.
Se era esperança minha
ou tolice, como queira,
– não sei.
Ao vento me descabelei
e molhei-me a chuva
Sem que uma única palavra tua que pudesse justificar.

Não te culpo;
não por aquilo que não podes controlar.
Lhe culpo pelas traças, pelos copos
sujos vazios e
tudo cheirando a vinho.

Lhe direciono a pouca cautela,
a distração, falta de tato
e uma certa rispidez.

Se não falamos sobre isso
foi porque eu não quis
e você não se opôs –
neste silêncio em que insistem
berrar palavras de insulto,
você sempre se fez entender
enquanto eu fiz questão
de tentar esquecer.

O quão em vão, é desnecessário dizer.
Ainda lembro de minhas tremedeiras
teu tão teu jeito
seu suor criando piscinas em minhas unhas
o frenesi que nos achávamos
emitindo sons, que vibravam.

Goteira Poética

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Esse telhado nem massa de calafetagem tampouco durepóxi dá jeito, o pinga pinga é de letras.
Espaço para os que escrevem de forma pingada, poesia aqui outra alí, prosa acolá…
Cabe todo mundo e de todo jeito, mão livre sobre papel de pão, máquina de escrever com letra quebrada ou sofisticadíssimos palm tops, não importa.
O telhado pinga e, de caneca em punho, colhemos a chuva. Água fresca, boa de beber, sempre aos pouquinhos, gota a gota, gota a gota, gota a, gota…

Inauguro este espaço com algumas de minhas poesias. São poucas e pingadas, bem no jeito da Goteira.

Palavras Brancas

Folha branca, risco cinza.
Aglomerado de palavras sem rima.
Entram pelos olhos,
Boca, ouvido e poros.
Convulsionam os sentidos
E lentas escorrem pelas narinas.

É o agridoce que lateja na garganta.
Salgado gosto, palavra doce.
Palavras de aglomerado sem rima.
Branco risco na folha cinza.
Convulsiona o dicionário
E adormece a língua.

Expresso (numa noite calma)

Engraçado é se sentir sozinho
No meio dos bom dias e boa tardes.
É tanta gente que não tem ninguém.

Gira sem fim a roda dos dias
E a gente se multiplica na proporção
Da hora que passa.

É difícil achar alguém,
Perder de vista não é fácil:
É óbvio (já sumiram tantos…).

Certo dia num reencontro numa livraria,
A conversa foi ao sabor de um expresso.
Eram tantos livros ao redor que não via nenhum.

Se quisesse escolheria um pra ler
Mas não dá pra ler ali no tempo de um expresso.
Essa conversa foi um livro lido nesse tempo.

Conversa de dois no tempo de anos…
Bom dias, boa tardes e boa noites não dados.
Boa leitura pra ser posta em dia.
No bom dia que a noite é expressa
É o livro de ler calmo.

No dia comum da roda,
É muita gente pra ler.
Muita gente querendo ser lida sem saber ler,
Não dá nem no tempo de anos.

Engraçado mesmo é ver alguém.
Ali, carne, osso e tristezas.
Alegrias por que não?
Dá tempo no tempo de um expresso.

Ao amigo Raony, que já morreu uma vez.

Sonho?

O sonhador acordou
E acordou com seu sonho
Que não dormiria mais,
Pra não correr mais o risco.

Dormiu quarto de século ou mais
E o sonho durou o sono.
Hoje, desperto, toma café,
Pra não correr mais o risco.

Pensa às vezes se o sonho era aquilo,
Ou isso é o que deve chamar sonho.
Pensa sempre no fim da tarde,
Pra não correr mais o risco.

À noite o sonhador deita,
E acorda com o sono
A apenas acordar de manhã,
Pra não correr mais o risco.

Toda manhã o sonhador se arrisca.
Aprende cada dia que o sonho começa
E termina no mesmo ponto.
Todo dia o sonhador vive a vida de um dia.

O sonhador acordou
E acordou com seu sonho
Que viveria mais,
Pra não correr mais o risco
De sonhar que sonha.

Para saber mais, visite o blog do autor.