Bruno Bou Haya

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– Desculpa, eu tô jantando enquanto falo com você…
– Você quer que eu te espere uns minutinhos?
– Nunca é esperar. A vida é muito louca.

Começou assim um bate-papo com Bruno Bou Haya, 22 anos, numa tarde quente de uma terça-feira no Rio de Janeiro. Formado em Relações Públicas (“meio frustrado mas tudo bem, tamo aí”), Bruno vem se definindo, entre outras coisas, como fotojornalista há mais ou menos um ano.

RM: Como foi esse início?
Eu comecei a fotografar no meio da Jornada de Junho. Eu não conseguia me inserir de forma completa na Jornada mas depois eu percebi que ninguém se encaixava completamente. Então fotografar foi uma forma de me inserir naquilo, de participar sem estranheza.
Eu não tive tempo de me formar como fotógrafo, eu não fiz nenhum curso de fotografia. Foi muito pela densidade de uma formação não acadêmica… Por mais que eu ganhe dinheiro com isso, eu sou mais fotógrafo por teimosia.

Eu gosto muito da definição do João Roberto Ripper: ele fala que é um fotógrafo humanista. Pra mim é muito isso porque eu não gosto muito de tirar foto de paisagem. Eu gosto de tirar foto que tenha alguma pessoa no meio.

Eu gosto de foto com pouca informação e no fotojornalismo isso já não cabe. Você tem que ter o maior número de informação possível. Pra que se entenda onde aquela foto foi tirada, em que contexto. O fotojornalismo não prioriza a estética, né? E a minha pegada num primeiro momento foi foto-denúncia – do que tava acontecendo na rua. Mas eu nunca quis deixar, por exemplo, o rosto de uma pessoa totalmente claro. Num ambiente que foi quase totalmente a noite.


Eu valorizava também o documental, valorizava as luzes que estavam lá até porque minha câmera não era super boa. Foi mais ou menos equacionar o equipamento que eu tinha – mais barato – e ir construindo o meu jeito de fotografar.

Eu me consideraria um foto-humanista.

RM: Qual a origem do seu nome?
Bou Haya é um nome libanês. Meus avós são do líbano.

RM: Você prioriza bastante o P&B…
O preto e branco abstrai, deixa a foto mais homogênea. Você consegue valorizar a textura, a idéia, a mensagem.
Eu gosto muito da ficção, sabe? A foto por si só já ficciona a realidade, né? Porque você fez um recorte da realidade. A foto tá alheia ao mundo, é um recorte, descontextualiza. E quando você bota em P&B me parece que você consegue abstrair mais ainda. O P&B tranquiliza o olhar,  valoriza o gesto. O que me aproxima das artes cênicas.

RM: Filme ou foto digital?
Olha, é muito cômoda a foto digital  mas é sempre um prazer tirar analógica por mais que ainda seja um desafio pra mim. A minha história na fotografia é muito recente – por mais que eu viva isso muito intensamente. Então, acho que só com muita prática.

Mas a fotografia analógica me ensina muito sobre a vida. É sempre aquela espera, né? E a espera é uma coisa que a gente vive cada vez menos. Eu, que sou um fotógrafo de rua, a coisa que você mais faz é esperar. Isso resume o cotidiano do fotógrafo.

Acho que é mais interessante esse aspecto (da fotografia analógica) do que como estética, como arte. Eu uso a fotografia muito mais como um instrumento de vida do que como um instrumento político, cultural. A analógica contribuiu muito na fotografia digital. Essa coisa de você valorizar muito aquele frame, ao invés de disparar várias fotos por segundo.

RM: Você compõe muito a foto então?
Eu acho que mais do que eu deveria. O Capa dizia que depois do quinquagésimo filme é que você vai tirar uma foto boa. Mas eu só tiro uma foto quando eu acho que realmente vale a pena. Aquela foto que eu esperava, eu sou muito crítico. Então eu comecei a fotografar com foto analógica justamente pra quebrar com essa crítica e poder tirar foto das coisas ordinárias, do cotidiano. Mas eu acho que eu penso demais e isso me irrita.

RM: Quais os temas que mais te atraem?
Existe um professor da USP chamado Boris Kossoy que em 85  fazia na fotografia o que o Gabriel Garcia Marquez fazia na literatura; o realismo fantástico.
Ficcionar cenas do cotidiano. É isso que eu tento fazer. Eu tento criar um mundo abstrato a partir de cenas do cotidiano. É como dar pé a um sonho.

Numa narrativa de fotos você cria um mundo abstrato. Tem um projeto no meu site, chamado “Mangueira: o um e o meio”, e eu coloquei duas fotos que não foram tiradas lá. Mas que compõem muito bem aquele espaço. Acho que um fotojornalista nunca faria isso mas não importa porque é o meu mundo e eu tenho a possibilidade de criar, o que me faz um contador de histórias.
Eu não tenho compromisso com a realidade. Eu tenho compromisso com a mudança.

Aqui é que entra a instrumentalização política da arte. Um processo mais profundo. Não é uma mudança imediata. É passar pela ficção para chegar na realidade. Mas isso tudo é coisa de momento, né? Minha foto está assim mas não sei se permanece assim.

RM: E não tem engajamento na sua fotografia?!
O fotojornalista prima pelo conteúdo e não pela forma. Pelo imediatismo, no rítmo industrial…

Eu já tenho mais tempo pruma pauta então eu tento priorizar a forma, dar uma paridade com o conteúdo. Eu posso me dar ao luxo de ter o mínimo de informação tentando dizer o máximo.

Como eu penso política 24 horas por dia, eu acho que a minha foto não é tão política quanto a minha fala. Porque é o lance do caminho mais longo, de passar pela ficção pra chegar na realidade.

Eu admiro a forma como Ariano Suassuna fazia política, com o Auto da Compadecida, por exemplo. Como ele conseguia enaltecer a estética e a cultura brasileiras sem cair no clichê da política.

RM: Quais os fotógrafos da atualidade que você admira?
João Roberto Ripper é um chamego sabe? Acho que a arte tem muito dessas questões muito pessoais. O Boris é um cara que me fascina bastante também. São pessoas que tiveram um papel político também. Nem que seja abertura de processo. O Korda que fez a foto icônica do Che Guevara… Fidel Castro, Simone de Beauvoir, Sartre.

Rola também um pouco de uma inveja, né?

Referências como o Evandro Teixeira são inevitáveis. Quando eu comecei a ir pra rua, cobrir as manifestações, eu fui buscar saber o que o Evandro já tinha aprontado.

Eder Chiodetto, da Folha de São Paulo, fez um livro “Lugar do Escritor” que eu gostaria de ter feito. Que fala de grandes escritores brasileiros e tenta desvendar um pouco o místico no espaço de produção. Ele visitou poetas e escritores que eu admiro. Eu acho que essas grandes idéias é que fazem grandes fotógrafos. Eu acredito que o fotógrafo não é um cara que tem uma câmera na mão, é o cara que vislumbra, que produz a foto.

E também tem o René que é um fotógrafo humanista, de uma sofisticação incrível.

Outro grande fotógrafo é o Marcos Prado. Ele produziu o filme Tropa de Elite. Talvez ele seja o melhor fotógrafo brasileiro. Ele é um fotógrafo lento, ele demora muito pra finalizar um livro, por exemplo. Mas ele é muito impressionante.

RM: O que você gostaria de perguntar pros fotógrafos que você admira?
Por mais que eu saiba a resposta eu gostaria de perguntar pro João Roberto Ripper assim: “Todo fotógrafo sonha em ser o Ripper. E você, o que sonha?”
Eu tenho certeza que ele falaria sobre um mundo mais humano, com mais amor. Mas eu gostaria de ouvir da boca dele. Ele fala de um jeito tão tranquilo… Faz a gente acreditar num mundo melhor.

RM: Como qualquer artista, imagino que o que te inspira pode não estar somente na fotografia…
A literatura, tudo ficcional, o ambiente do sonho… a poesia que te dá todas as possibilidades.
Eu tenho uma foto que eu gosto muito que é a foto de uma ave – que depois eu descobri que é uma garça… Quando eu vi eu pensei no Manoel Bandeira que diz que o poema tem que ter uma falta, uma surpresa. Por isso eu esperei a garça colocar a cabeça dentro d’água.

Isso pauta muito a minha foto. Esconder, não dar muitos detalhes. Eu não gosto de dar título, por exemplo, que eu acho que limita muito. Não te dá toda possibilidade de um devaneio, uma vertigem. A possibilidade de viajar com a foto.

No campo de luz eu já vou muito no Barroco, no Renascimento… que vai cuidar muito do contraste… e que vai valorizar as sombras, o feixe de luz. Tentar ser o mais real com a luz. No fotojornalismo isso já não acontece. O jornalista vai clarear a foto como um todo. Eu já não faço, não me submeto.
Eu sempre emprego essa estética que eu busco – mais Barroca. Certas impressões e certa identidade que eu não abro mão.

RM: O que você espera da fotografia daqui pra frente?
Eu espero seguir fotografando e viajar mais. Conhecer o mundo e as pessoas pra que isso me enriqueça e enriqueça a minha fotografia.
Eu quero pintar, aprender a tocar um instrumento…

RM: Tem alguma coisa que você queira acrescentar?
Eu espero não inverter o motivo de ter começado a fotografar. Eu espero não distanciar a minha foto do povo.
Por mais que eu tente me aproximar da pintura, da fotografia fine art, eu não quero me afastar do povo. Eu acho que a gente tem que usar os instrumentos pra ocupar os espaços públicos. Eu não tenho tanta preocupação de fazer uma galeria. Eu tenho a preocupação de que a minha fotografia possa servir à sociedade.
Se a gente puder buscar parcerias, como os coletivos já fazem, pra que a gente possa não ficar muito alheio, sabe?
Porque a galeria é a abstração máxima, é um quadrado branco que sai da realidade. A gente estar na praça, em ambientes onde circulam o maior número de gente é importante pra que a fotografia e a arte não fiquem nesse mundo paralelo. Porque a arte é o único espaço onde a gente pode gastar energia e que é aceito na sociedade se não der em nada. Fora essa trincheira da arte, nenhuma outra área permite gastar essa energia em vão – ou ter um ócio criativo.
É a partir daí que a gente tem que ampliar. Então a gente tem que ocupar essa porra. É isso.

RM: Porra. Fechou bem.

 

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