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Ricardo Tokumoto

quarta-feira, setembro 25, 2013

Ricardo sempre gostou de desenhar. Aliás, como ele mesmo diz, toda criança gosta – a diferença é que ele não parou.
Ele trabalhou em gráfica, foi selecionado para o salão de humor de Limeira, publicou um fanzine… tudo isso antes de finalmente começar a tão sonhada faculdade de Belas Artes.
Hoje, Ricardo é autor do blog “RyotIRAS”.

RM: Li que você gostava de desenhar quando criança. E que também se interessava por várias coisas diferentes: chegou a estudar música, pintura, fez oficinas de histórias em quadrinhos, desenho animado, elaboração de fanzines, escultura, teoria da arte…
Acha que quando alguém se interessa por alguma manifestação artística é natural ir abrindo esse leque?
Sim, e acho bastante enriquecedor quando não nos fechamos apenas a um dos caminhos que a arte pode prover. Sem falar que tudo isso está muito mais ligado do que imaginamos. É realmente muito comum escritores, pintores, músicos transitarem entre outras formas de expressão por mais que dêem prioridade a apenas uma delas. E não apenas no ramo das artes e ciências humanas, acho importante nos abrirmos e buscarmos os mais variados conhecimentos que nos interessam, independente da natureza. Acredito que quanto mais variedade nessa mescla de aprendizados, maior será a autenticidade e originalidade do seu produto final.

RM: Você trabalhou numa gráfica e começou a imprimir seus primeiros fanzines. Você citou que tinha uma ideologia né? Uma fase meio “revoltada”… Com o quê?
Na verdade essa revolta não acabou, só mudei as minhas atitudes pra lutar por minhas idéias. A revolta é contra todo esse esquema em que vivemos hoje, onde se prioriza o consumo acima de tudo e milhares de pessoas sofrem em prol de pouquíssimas. Essa desigualdade em que vivemos, não apenas financeira, mas de hierarquização de muitos aspectos que não fazem sentido algum. Me incomoda muito a questão do homem magro, alto, branco, heterossexual, cristão e rico sendo colocado como um ser superior a todos os outros. A minha luta, e que não é só minha mas de muita gente, é de se acabar com esse tipo de pensamento individualista que nos coloca contra nós mesmos diariamente. A ponto de famílias, irmãos, casais, amigos se destruirem por conta de um sistema totalmente ilusório. No fim das contas é a velha questão de nos tratarmos mais como iguais e nos ajudarmos, sem essa película distorcida e confusa de rótulos e julgamentos nos cobrindo. E que todos tenham direito ao básico, como eu tive.

RM: Quando você começou a faculdade de Belas Artes já tinha uma bagagem bem grande: tinha lançado um fanzine, foi selecionado no Salão de Humor de Limeira. Como foi essa fase?
A Faculdade foi um ótimo momento de amadurecimento. Por mais que já tivesse com uma bagagem tudo ainda soava bastante amador. Não que isso seja ruim, até hoje meus trabalhos mais autorais ainda possuem essa atmosfera, mas para que eu pudesse trabalhar e me sustentar como ilustrador, foi essencial esse salto para um maior profissionalismo. E também foi ótimo para expandir ainda mais meus horizontes, conhecer novas pessoas, entrar em contato com essa multiplicidade artística. Perder o medo de ousar e ver que tudo é bem menos complicado do que a gente imagina.

RM: Como é para você essa troca com os leitores que a internet propicia?
É o que mais me motiva em manter essa constante de produção. Se não houvesse esse retorno dos leitores que a internet possibilita tudo seria bem mais sem graça com certeza. Acho ótimo que novas ferramentas vêm surgindo e aumentando ainda mais essa interatividade, inclusive entre os próprios artistas. Assim como eu venho me aproximando cada vez mais dos meus leitores, eu também venho me aproximando cada vez mais dos autores que eu gosto tanto. Isso é sensacional.


RM: Qual é o perfil do leitor do site?
Acaba por ser um perfil muito semelhante ao meu, com uma faixa de idade entre os 20 e 30 anos, que geralmente tem uma forte ligação com video-games, internet, literatura, cinema, música, desenhos animados, os próprios quadrinhos e cultura pop no geral. Uma particularidade do humor que eu gosto de usar é um humor mais nonsense, ou seja, às vezes, eu prefiro atropelar a lógica em prol do riso e nem todo mundo está acostumado com esse estilo… o que me leva a atrair pessoas que já tem uma certa familiaridade com isso. E às vezes eu gosto de experimentar o contrário, tiras mais críticas e reflexivas, com um humor mais sutil, menos óbvio ou até mesmo sem essa necessidade de ser engraçado. Isso acaba por fechar também a gama de público, mas tento não fazer isso sempre, pra não restringir demais. Eu gostaria na verdade de ser o mais universal possível, mas sem subestimar a potencialidade do intelecto de cada um.

RM: Você também fez especialização em cinema. Quais são seus outros interesses?
O cinema é algo que eu gosto muito, mas ao me especializar aprendi que é uma arte colaborativa, que dificilmente dá pra se fazer sozinho. E isso acaba tornando a produção de um filme, por mais curto ou simples que ele seja, em algo que se precisa de um planejamento, dedicação e atenção maior. Então os projetos de cinema ficaram meio de lado por enquanto. Bom, eu gosto muito de música, toco alguns instrumentos e sempre tento estar em alguma atividade que envolva essa área, ou em último caso assistir apresentações musicais. Me interesso também por literatura, sempre estou lendo vários livros de uma vez, apesar de ser num ritmo mais lento do que eu gostaria. Artes Marciais, especificamente Kung Fu, que eu sempre admirei e agora estou também praticando. Sempre adorei vídeo-games mas tenho jogado bem pouco ultimamente. Procuro ficar sempre por dentro dos movimentos populares com um cunho social e tento sempre dar algum apoio. E por fim as artes plásticas no geral, gosto de pintar, desenhar, tenho idéias pra esculturas, instalações…
Infelizmente o tempo fica curto pra tanta coisa.

RM: Quais quadrinhos ou autores de quadrinhos você considera indispensáveis hoje?
O Laerte pra mim é um dos principais. Sempre cito também o Fábio Zimbres e o Lourenço Mutarelli. Dos quadrinistas estrangeiros não tem como fugir de nomes como Alan Moore, Katsuhiro Otomo, Osamu Tezuka, Chris Ware, Geof Darrow, Moebius, Daniel Clowes, Neil Gaiman, Art Spiegelman, Will Eisner, Scott Mccloud, Charles Schulz, Bill Watterson… E tem muita gente nova e boa surgindo tanto lá fora como aqui no Brasil, por exemplo Rafael Sica, os gêmeos Bá e Moon, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Gustavo Duarte, Eduardo Medeiros, o pessoal todo das (In)Dependentes, meus amigos do Pandemônio: Eduardo Damasceno, Daniel Pinheiro, Daniel Werneck, Felipe Garrocho, Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi, Combrim, Eiko. E de fora tem o Craig Thompson, Cyril Pedrosa, Marjane Satrapi, Guy Delisle, Olivier Martin, David B., Christopher Blain, Taiyo Matsumoto, Dash Shaw, Nicholas Gurewitch, Rui Tenreiro, Bryan Lee O’Malley… Nossa, é muita gente! E olha que eu na certa não citei nem um décimo de nomes bons que temos por aí! Com certeza esqueci muita gente e errei algumas grafias. De qualquer modo, coisa boa pra se ler é o que não falta!