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Bruno Bou Haya

quinta-feira, janeiro 15, 2015

– Desculpa, eu tô jantando enquanto falo com você…
– Você quer que eu te espere uns minutinhos?
– Nunca é esperar. A vida é muito louca.

Começou assim um bate-papo com Bruno Bou Haya, 22 anos, numa tarde quente de uma terça-feira no Rio de Janeiro. Formado em Relações Públicas (“meio frustrado mas tudo bem, tamo aí”), Bruno vem se definindo, entre outras coisas, como fotojornalista há mais ou menos um ano.

RM: Como foi esse início?
Eu comecei a fotografar no meio da Jornada de Junho. Eu não conseguia me inserir de forma completa na Jornada mas depois eu percebi que ninguém se encaixava completamente. Então fotografar foi uma forma de me inserir naquilo, de participar sem estranheza.
Eu não tive tempo de me formar como fotógrafo, eu não fiz nenhum curso de fotografia. Foi muito pela densidade de uma formação não acadêmica… Por mais que eu ganhe dinheiro com isso, eu sou mais fotógrafo por teimosia.

Eu gosto muito da definição do João Roberto Ripper: ele fala que é um fotógrafo humanista. Pra mim é muito isso porque eu não gosto muito de tirar foto de paisagem. Eu gosto de tirar foto que tenha alguma pessoa no meio.

Eu gosto de foto com pouca informação e no fotojornalismo isso já não cabe. Você tem que ter o maior número de informação possível. Pra que se entenda onde aquela foto foi tirada, em que contexto. O fotojornalismo não prioriza a estética, né? E a minha pegada num primeiro momento foi foto-denúncia – do que tava acontecendo na rua. Mas eu nunca quis deixar, por exemplo, o rosto de uma pessoa totalmente claro. Num ambiente que foi quase totalmente a noite.


Eu valorizava também o documental, valorizava as luzes que estavam lá até porque minha câmera não era super boa. Foi mais ou menos equacionar o equipamento que eu tinha – mais barato – e ir construindo o meu jeito de fotografar.

Eu me consideraria um foto-humanista.

RM: Qual a origem do seu nome?
Bou Haya é um nome libanês. Meus avós são do líbano.

RM: Você prioriza bastante o P&B…
O preto e branco abstrai, deixa a foto mais homogênea. Você consegue valorizar a textura, a idéia, a mensagem.
Eu gosto muito da ficção, sabe? A foto por si só já ficciona a realidade, né? Porque você fez um recorte da realidade. A foto tá alheia ao mundo, é um recorte, descontextualiza. E quando você bota em P&B me parece que você consegue abstrair mais ainda. O P&B tranquiliza o olhar,  valoriza o gesto. O que me aproxima das artes cênicas.

RM: Filme ou foto digital?
Olha, é muito cômoda a foto digital  mas é sempre um prazer tirar analógica por mais que ainda seja um desafio pra mim. A minha história na fotografia é muito recente – por mais que eu viva isso muito intensamente. Então, acho que só com muita prática.

Mas a fotografia analógica me ensina muito sobre a vida. É sempre aquela espera, né? E a espera é uma coisa que a gente vive cada vez menos. Eu, que sou um fotógrafo de rua, a coisa que você mais faz é esperar. Isso resume o cotidiano do fotógrafo.

Acho que é mais interessante esse aspecto (da fotografia analógica) do que como estética, como arte. Eu uso a fotografia muito mais como um instrumento de vida do que como um instrumento político, cultural. A analógica contribuiu muito na fotografia digital. Essa coisa de você valorizar muito aquele frame, ao invés de disparar várias fotos por segundo.

RM: Você compõe muito a foto então?
Eu acho que mais do que eu deveria. O Capa dizia que depois do quinquagésimo filme é que você vai tirar uma foto boa. Mas eu só tiro uma foto quando eu acho que realmente vale a pena. Aquela foto que eu esperava, eu sou muito crítico. Então eu comecei a fotografar com foto analógica justamente pra quebrar com essa crítica e poder tirar foto das coisas ordinárias, do cotidiano. Mas eu acho que eu penso demais e isso me irrita.

RM: Quais os temas que mais te atraem?
Existe um professor da USP chamado Boris Kossoy que em 85  fazia na fotografia o que o Gabriel Garcia Marquez fazia na literatura; o realismo fantástico.
Ficcionar cenas do cotidiano. É isso que eu tento fazer. Eu tento criar um mundo abstrato a partir de cenas do cotidiano. É como dar pé a um sonho.

Numa narrativa de fotos você cria um mundo abstrato. Tem um projeto no meu site, chamado “Mangueira: o um e o meio”, e eu coloquei duas fotos que não foram tiradas lá. Mas que compõem muito bem aquele espaço. Acho que um fotojornalista nunca faria isso mas não importa porque é o meu mundo e eu tenho a possibilidade de criar, o que me faz um contador de histórias.
Eu não tenho compromisso com a realidade. Eu tenho compromisso com a mudança.

Aqui é que entra a instrumentalização política da arte. Um processo mais profundo. Não é uma mudança imediata. É passar pela ficção para chegar na realidade. Mas isso tudo é coisa de momento, né? Minha foto está assim mas não sei se permanece assim.

RM: E não tem engajamento na sua fotografia?!
O fotojornalista prima pelo conteúdo e não pela forma. Pelo imediatismo, no rítmo industrial…

Eu já tenho mais tempo pruma pauta então eu tento priorizar a forma, dar uma paridade com o conteúdo. Eu posso me dar ao luxo de ter o mínimo de informação tentando dizer o máximo.

Como eu penso política 24 horas por dia, eu acho que a minha foto não é tão política quanto a minha fala. Porque é o lance do caminho mais longo, de passar pela ficção pra chegar na realidade.

Eu admiro a forma como Ariano Suassuna fazia política, com o Auto da Compadecida, por exemplo. Como ele conseguia enaltecer a estética e a cultura brasileiras sem cair no clichê da política.

RM: Quais os fotógrafos da atualidade que você admira?
João Roberto Ripper é um chamego sabe? Acho que a arte tem muito dessas questões muito pessoais. O Boris é um cara que me fascina bastante também. São pessoas que tiveram um papel político também. Nem que seja abertura de processo. O Korda que fez a foto icônica do Che Guevara… Fidel Castro, Simone de Beauvoir, Sartre.

Rola também um pouco de uma inveja, né?

Referências como o Evandro Teixeira são inevitáveis. Quando eu comecei a ir pra rua, cobrir as manifestações, eu fui buscar saber o que o Evandro já tinha aprontado.

Eder Chiodetto, da Folha de São Paulo, fez um livro “Lugar do Escritor” que eu gostaria de ter feito. Que fala de grandes escritores brasileiros e tenta desvendar um pouco o místico no espaço de produção. Ele visitou poetas e escritores que eu admiro. Eu acho que essas grandes idéias é que fazem grandes fotógrafos. Eu acredito que o fotógrafo não é um cara que tem uma câmera na mão, é o cara que vislumbra, que produz a foto.

E também tem o René que é um fotógrafo humanista, de uma sofisticação incrível.

Outro grande fotógrafo é o Marcos Prado. Ele produziu o filme Tropa de Elite. Talvez ele seja o melhor fotógrafo brasileiro. Ele é um fotógrafo lento, ele demora muito pra finalizar um livro, por exemplo. Mas ele é muito impressionante.

RM: O que você gostaria de perguntar pros fotógrafos que você admira?
Por mais que eu saiba a resposta eu gostaria de perguntar pro João Roberto Ripper assim: “Todo fotógrafo sonha em ser o Ripper. E você, o que sonha?”
Eu tenho certeza que ele falaria sobre um mundo mais humano, com mais amor. Mas eu gostaria de ouvir da boca dele. Ele fala de um jeito tão tranquilo… Faz a gente acreditar num mundo melhor.

RM: Como qualquer artista, imagino que o que te inspira pode não estar somente na fotografia…
A literatura, tudo ficcional, o ambiente do sonho… a poesia que te dá todas as possibilidades.
Eu tenho uma foto que eu gosto muito que é a foto de uma ave – que depois eu descobri que é uma garça… Quando eu vi eu pensei no Manoel Bandeira que diz que o poema tem que ter uma falta, uma surpresa. Por isso eu esperei a garça colocar a cabeça dentro d’água.

Isso pauta muito a minha foto. Esconder, não dar muitos detalhes. Eu não gosto de dar título, por exemplo, que eu acho que limita muito. Não te dá toda possibilidade de um devaneio, uma vertigem. A possibilidade de viajar com a foto.

No campo de luz eu já vou muito no Barroco, no Renascimento… que vai cuidar muito do contraste… e que vai valorizar as sombras, o feixe de luz. Tentar ser o mais real com a luz. No fotojornalismo isso já não acontece. O jornalista vai clarear a foto como um todo. Eu já não faço, não me submeto.
Eu sempre emprego essa estética que eu busco – mais Barroca. Certas impressões e certa identidade que eu não abro mão.

RM: O que você espera da fotografia daqui pra frente?
Eu espero seguir fotografando e viajar mais. Conhecer o mundo e as pessoas pra que isso me enriqueça e enriqueça a minha fotografia.
Eu quero pintar, aprender a tocar um instrumento…

RM: Tem alguma coisa que você queira acrescentar?
Eu espero não inverter o motivo de ter começado a fotografar. Eu espero não distanciar a minha foto do povo.
Por mais que eu tente me aproximar da pintura, da fotografia fine art, eu não quero me afastar do povo. Eu acho que a gente tem que usar os instrumentos pra ocupar os espaços públicos. Eu não tenho tanta preocupação de fazer uma galeria. Eu tenho a preocupação de que a minha fotografia possa servir à sociedade.
Se a gente puder buscar parcerias, como os coletivos já fazem, pra que a gente possa não ficar muito alheio, sabe?
Porque a galeria é a abstração máxima, é um quadrado branco que sai da realidade. A gente estar na praça, em ambientes onde circulam o maior número de gente é importante pra que a fotografia e a arte não fiquem nesse mundo paralelo. Porque a arte é o único espaço onde a gente pode gastar energia e que é aceito na sociedade se não der em nada. Fora essa trincheira da arte, nenhuma outra área permite gastar essa energia em vão – ou ter um ócio criativo.
É a partir daí que a gente tem que ampliar. Então a gente tem que ocupar essa porra. É isso.

RM: Porra. Fechou bem.

 

Cazé

terça-feira, agosto 12, 2014

Fernando Sawaya, o Cazé, iniciou a carreira artística através do graffiti. Estudou Design Gráfico e Animação. Já atuou como Web Designer, Motion-Designer e tem como foco a animação 2D. Barbudinho, seu principal personagem, espalha bom humor e reflexão pelas ruas do Rio.

 

RM: Como foi seu primeiro contato com o graffiti?
Tudo começou com a pichação em 2003/04. Tinha minha galera onde eu morava em Copacana e alguns amigos já eram pichadores. Despertei interesse pelo assunto e comecei a riscar uns nomes pelo meu bairro, foi uma trajetória bem curta – nesse meio tempo mudei de colégio e fui estudar no Méier, zona norte do Rio de Janeiro, onde tudo começou: vi os primeiros painéis de graffiti da Nação crew, tive uma aula de artes no colégio falando sobre graffiti e um professor que passou a me incentivar bastante. Conheci outros grafiteiros no colégio e montamos a nossa “crew”, pude acompanhar a evolução dos caras da Nação, Flesh Beck e Acme e aprender muita coisa com eles ao longo dessa caminhada, foram fortes influências para eu construir o meu trabalho.

RM: Você esteve envolvido em projetos educacionais. Como eram esses projetos?
Minha mãe já era engajada em projetos sociais na época e foi ela que me iniciou no primeiro projeto, que foi com menores infratores no bairro de Nova Iguaçu. A partir daí foi um longo percurso, fiquei nessa durante uns 5, 6 anos, passando desde projetos sociais em favelas do Rio de janeiro às penitenciárias da Ilha do Governador, presídios femininos e masculinos. Através do graffiti conseguíamos ter a atenção desses jovens por algumas horas ao longo das semanas e com essa magia que o graffiti tem de entreter o jovem, muitos deles conseguiram através do graffiti sair da criminalidade ou evitá-la, alguns deles pintam até hoje e se tornaram amigos meus.

RM: Acha que o contato com a rua ajuda a despertar ou aprofundar a consciência do artista?
Com certeza, sair de andarilho atrás de um muro pela cidade nos faz entender como a cidade é e como ela precisa da gente.
Andar pela cidade e ver como um bairro é mais visto que o outro pelos nossos governantes é triste.Captura de tela de 2014-06-24 22:45:47Essa reflexão me faz pensar mais sobre o meu trabalho e de que forma irei agir de forma positiva para a rua. E através do graffiti conseguimos dar vida a muitos espaços esquecidos pelo governo.

mucho amorRM: Sua formação é em Design Gráfico. Como isso influenciou ou se refletiu depois na sua arte?
Conheci o Design através do graffiti. Um amigo que pintava comigo, o Grau, é que me apresentou e na sequência tive contato com o Motta, uma das minhas maiores referências como designer. A partir daí fui construindo a minha formação e não larguei mais do ofício, tento mesclar os dois o tempo todo, levando a linguagem de um para dentro do outro.

RM: Você gosta desse intercâmbio entre os diversos formatos/áreas (Web Design, Design Gráfico, Motion Design, Ilustração e Animação 2D)?
Já vi graffitis seus que são como tirinhas…
Como falei acima, um está dentro do outro e através do design, conheci o Motion Design que me levou para a animação 2d, que é área que ando me dedicando paralelo ao Motion. Nesse meio tempo o Tito na Rua, que é o criador do Zé Ninguém e idealizador do projeto Street Comics, me chamou para construir com ele a primeira história em quadrinho nas ruas aqui do Rio de Janeiro e me deu a liberdade de continuar o projeto através dos meus personagens, que é o que venho fazendo em alguns pontos da Lapa. Tenho o personagem Barbudinho, que é um jovem diferente dos padrões impostos pela a sociedade pois ele é barbudo e peludo, através dele tento passar diversas mensagens como por exemplo a causa da bicicleta, tento mostrar através das histórias que bicicleta é um veículo e a importância dela para o mundo. Vou relançar em breve a versão nova do Mucho Amor que é um super-herói que irá contaminar o mundo de amor e lutar contra os malfeitores. O segundo passo dessa brincadeira toda é transformar tudo isso em animação, mas aí já é outra história.

RM: O graffiti é uma arte em que o artista está muito próximo do público, na rua, no dia a dia das pessoas e até no momento da confecção das obras, enquanto as pessoas passam. Isso é importante pra você? Como você vê essa troca, esse diálogo?
Uma das coisas que mais me atraiu no graffiti e me atrai até hoje é esse contato com as pessoas, poder executar uma obra a céu aberto e ao longo dessa execução ser abordado por diversas pessoas te questionando o porquê de eu estar ali, que o que estou pintando está horrível, está lindo, quero uma obra dessas na minha casa, sai daí seu merda, pichador e por aí vai, esse é o real sentimento e essa troca me faz ter a cabeça mais aberta e pensar mais sobre como vou agir e como estou agindo, deixando as minhas marcas nas ruas. Então essa troca é essencial para a minha evolução.

RM: Já teve alguma experiência curiosa nesse contato com as pessoas na rua?
Captura de tela de 2014-06-24 22:52:52

RM: Como você vê o cenário do graffiti no Brasil hoje?
Acho que cada estado tem a sua cena, São Paulo vai ser sempre referência para mim, lá temos uma cidade que reflete literalmente o que a população sente. Vejo um Brasil aceitando cada vez mais o graffiti e a arte de rua, empresas aderindo ao graffiti como linguagem para as campanhas, projetos grandes aparecendo e isso só fortalece a cena, mas sempre o graffiti será ilegal, se apropriar de um espaço que não é nosso é a essência da parada.

nhobi, efixis, anonimundo e cazé no bairro de vila isabel, rio de janeiro

RM: Que artistas da atualidade você admira?
São tantos, mas os principais que admiro pela história e trabalho são o Onesto, Acme, Toz, Motta, Airá, Efixis, Biofa, Tito, Orion, Birita, Nhobi, Tarm, Crânio e Paulo Ito.

barbudinho

Tales Sabará

terça-feira, junho 24, 2014

Tales Sabará é de Minas, tem 28 anos e é formado em Pintura e Gravura em Metal.

Vê a arte como um meio de despertar emoções nas pessoas e idealiza projetos que promovam o acesso à cultura.

RM : Como surgiu seu interesse pelas artes?
Hoje, aos 26 de idade, fazendo uma retrospectiva do meu início com o que possa chamar algo próximo das artes visuais, tendo a dizer que meu interesse pelas artes nasce do contato com o desenho, linguagem que se faz presente principalmente na infância, na vida de qualquer um.

Por ser filho de mãe professora e pedagoga e muito influenciado pela minha tia Delvira, também professora, ter o contato com papéis diversos, desenhos para colorir, lápis de cor, caneta e tantos outros materiais sempre foi algo natural. Isso despertou minha paixão e ao longo dos anos procurei aprofundar certos conhecimentos.

Lembro-me de, aos 12 anos de idade, ainda em Congonhas (Minas Gerais), ser inscrito por meus pais em aulas de desenho de observação, ministradas pelo professor Jomadi e de pintura com a professora Nadege. Esses dois profissionais foram muito importantes em minha vida, pois me apresentaram as primeiras noções técnicas da pintura e do desenho. Aliado a isso, a figura dos meus pais (Ângela Sabará e João Sabará) que sempre incentivaram cada passo. Aos 16 anos de idade recordo-me deles me levarem em uma exposição de gravuras de Pablo Picasso. Naquele momento ainda não conhecia muito a respeito do processo de gravura e tudo mais, mas foi suficiente para que eu decidisse o que gostaria de tentar na minha vida profissional, já que os trabalhos do artista espanhol me comoveram profundamente. Naquele momento percebi que um trabalho de arte propriamente dito não estava apenas a serviço da técnica, haveria que ter uma busca maior, tocar outra pessoa, e foi isso o que aquela exposição deixou e que hoje tento a cada projeto.

RM: Você é formado em pintura e Gravura em Metal. O que você busca hoje como artista?
Sou graduado nas duas habilitações e sempre gostei de música apesar de não saber tocar nenhum instrumento. A citação da música aqui é apenas no intuito de dizer o que hoje pretendo com o meu trabalho. Vejo como a música é capaz de chegar às pessoas de forma tão espontânea e natural e ser capaz de emocionar. Sempre que vou a concertos, ou mesmo escutando rádio ou CD em casa me pego também me emocionando em um curto espaço de tempo. A minha busca, tentativa, com os projetos que realizo é: despertar emoções nas pessoas; inserir as artes visuais nos lares e nas vidas das pessoas – tal como a música está presente, já que em qualquer canto do país ou do mundo uma pessoa tem um radinho, mesmo que a pilha; promover o estudo das artes através das crianças e adolescentes.

Esse último item, vem ao encontro da criação do Atelier Kayab. Além de ser o meu local de trabalho em Congonhas (Minas Gerais), esse espaço é também galeria e recebe workshops, oficinas, palestras, em geral, oferecidas às pessoas da cidade em questão e municípios vizinhos, em especial crianças e adolescentes da rede pública de ensino. Com a elaboração de simples projetos pretendo, com a colaboração de amigos, outros artistas e empresas parceiras, incentivar a arte, a cultura e promover oportunidades.

RM: Você participou do projeto “No olho da rua” (fotografia). Como você vê essa troca entre as diversas formas de expressão artística?
A arte visual é um terreno muito fértil e possibilita ao profissional estar em contato com diversas áreas de conhecimento: desenho, pintura, gravura, escultura, vídeo, fotografia, etc. Nas minhas atuais produções, tento a mescla entre os universos e aprofundar o meu conhecimento a respeito de cada área. Cada nova área de atuação ajuda no direcionamento e construção de uma área anterior já estudada.

Com relação ao projeto citado, No olho da rua, a grata oportunidade de trabalhar com os profissionais Patrícia Azevedo, Murilo Godoy e Julian Germain só não foi maior que a oportunidade que esses me ofereceram de aplicar as artes visuais no contexto social. Tal projeto é configurado pelos profissionais citados e a cooperação de diversas crianças e jovens que vivem nas ruas de Belo Horizonte e visa incentivar a produção da fotografia de forma livre e apresentar ao público o trabalho realizado pelos moradores de rua, deixando clara a visão deles de mundo e do que são capazes. Além das questões poéticas e visuais presentes nas imagens que são captadas, esse material está repleto de questionamentos a respeito de diversas questões sociais globais que são trazidas ao público através da distribuição gratuita de jornais contendo as fotografias. Ter participado desse projeto em 2007 transformou a minha concepção de mundo e das reais necessidades humanas.

RM: Algumas de suas obras são bastante características e parecem ter uma ligação entre si. O que as obras como “D. Maria”, “D. Maria II”, “Maria Joana”, “Efigênia”, “Sr Agostinho” representam?

Fazem parte de um projeto intitulado Filhos da Terra. Nesta série de desenhos de grafite sobre papel, retrato homens e mulheres negras da minha cidade natal, Congonhas.

Quando iniciei o projeto, no final de 2008, início de 2009, acreditava que abordava a questão do negro na minha cidade e, por conseguinte, no meu estado ou país. No entanto, com o desenrolar do trabalho percebi que, na verdade, estava falando a respeito da minha identidade cultural, na medida em que estava falando de pessoas que faziam parte do meu cotidiano, como uma quitandeira, uma beata, um senhor do grupo de congado ou mesmo o meu avô paterno.

Aqui chamo a atenção para o quanto é importante para um artista visitar e revisitar o próprio trabalho e ter a oportunidade de apresentá-lo ao público. O primeiro ponto se faz importante para perceber as reais possibilidades e propostas ditas pelo próprio trabalho; o segundo confere a oportunidade do artista compartilhar uma leitura possível com seu público e ao mesmo tempo ter uma ou várias leituras compartilhadas pelo público sobre o trabalho.

RM: A gravura em metal não é uma expressão tão popular. Por que você a escolha?

Quando visitei a exposição de gravuras de Picasso, que possuía cerca de 80 gravuras sendo a maioria gravuras em metal, talvez ali, no ano de 2001, muito distante da minha formação como gravador em 2011, tenha nascido o primeiro desejo de fazer gravura.

Ter feito o curso de Artes Visuais na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) me possibilitou conhecer processos que não eram familiares.

O intuito de estudar gravura em metal, que hoje é uma das minhas paixões, nasceu justamente da minha dificuldade em entender a técnica nos primeiros anos de faculdade. A gravura em metal é a sensibilidade da linha, ponta seca, buril, berceau, rolete e tantas outras ferramentas, ao mesmo tempo há a matriz a ser gravada, a prensa, o papel, as provas de estado, a prova de artista, a reprodutibilidade. Tudo isso em uma área, não é de se espantar o encanto que se desperta.

Após minha formação em pintura (2009) passei a dedicar meus estudos à produção da gravura em metal. No início, o meu embate passou a ser com as questões técnicas desse meio, somente hoje, após 3 anos de estudos, começo a ver outras possibilidades que irão me direcionar para a configuração de um trabalho propriamente dito nesta área.

RM: Suas obras são bem diversificadas. Você usa diversos materiais e técnicas, percebemos uma identidade em alguns grupos de suas obras como os desenhos em grafite, os desenhos em nanquim. Você busca essa diversidade?

A busca pela diversidade técnica passa primeiro pelo desejo de ampliar o meu repertório de possibilidades. Segundo, cada série de trabalhos e ou tema me sugerem apontamentos para qual processo deve ser utilizado. Não quero dizer com isso que a pintura, a gravura, ou desenho, ou qualquer área sejam capazes de dizer coisas específicas, porém percebo que a respeito de determinados temas, a minha pintura, ou o meu desenho, a minha gravura, possam ser mais coerentes. Aliás, considero que tema e processo caminham juntos.

RM: Você vive hoje do seu trabalho como artista? Como vê essa realidade hoje no Brasil?

Hoje o trabalho de artista visual não se resume ao papel de produtor de imagens. Considero que o artista hoje desenvolve trabalhos frente à produção cultural, gestão de projetos, marketing, consultoria, palestras, oficinas, workshops. Com a criação do Atelier Kayab em 2011 e a colaboração de empresas parceiras (Vale, itsNOON, Gallearte e Viamundi Idiomas e Traduções), temos aos poucos iniciado um trabalho que poderemos escalar em pouco tempo e gerar frutos, tanto do ponto de vista financeiro como social. Considero que essa é uma linha de raciocínio de diversos artistas, galerias e empresas apoiadoras e é uma atividade que aos poucos se desenvolve no Brasil.

RM: Que artistas da atualidade você admira?

Todo profissional tem as grandes referências que historicamente foram reconhecidas e comigo também não é diferente. Atualmente eu citaria os artistas que ao longo do tempo a vida me apresentou e hoje se tornaram amigos pessoais, como: Gil Vicente, Marcelo Silveira, Mário Zavagli, Clébio Maduro, Bruno Amarante, Eduardo Rosa, Marcel Diogo, Marcelo Albuquerque, Paulo Fiotti, Manoel Veiga, Renato Valle, Fábio Belotte, Patrícia Azevedo, Luciomar S. de Jesus, Sérgio Barros, Leandro Figueiredo, Daniel Bilac, Gabriela Brasileiro.

Mentirinhas do Coala

sexta-feira, março 14, 2014

Fábio é formado em publicidade, curte livros de ficção e aventura e já foi do Corpo de Bombeiros de São Paulo.
É autor do site Mentirinhas, onde publica tiras desde 2010.

RM: Quando você começou a se interessar por quadrinhos?
Como a maioria das crianças meu primeiro contato com os quadrinhos foi lendo Turma da Mônica, mas foi mais ou menos aos 13 anos quando conheci autores como Laerte e Angeli que pensei: também quero fazer isso.

RM: Quais eram seus quadrinhos favoritos?
Quando criança, Turma da Mônica. Depois, na adolescência, Chiclete com Banana, Circo, Geraldão, alguma coisa de super-heróis…
RM: Como foi que surgiu o site? Quando você começou a fazer tirinhas?
Publiquei as primeiras tirinhas com 15 anos, num jornal da minha cidade. O site veio muitos anos depois, em 2010. Foi uma maneira que encontrei de divulgar algumas tirinhas que havia produzido para outro jornal da região e ser um incentivo pra continuar produzindo.

RM: Como você vê essa realidade de hoje em que, com a internet, as pessoas têm mais acesso não só a consumir vários tipos de expressão artística como também produzir?
É muito bom, tanto pra quem “consome” como pra quem produz. A interatividade da internet te permite encontrar exatamente o que te agrada (em qualquer lugar do mundo), onde você estiver e na hora que você quiser. Fora a maior facilidade de interação entre público e artista.

RM: Qual é o perfil do leitor do site?
Tenho alguns “leitores” bem jovens, que gostam do site pelos desenhos, digamos, fofinhos. Mas a maioria está na faixa dos vinte e tantos anos e tem uma visão mais crítica das coisas.

RM: Que visão é essa? Qual é essa crítica?
Tento colocar algumas mensagens, por vezes bem discretas, nas tirinhas. Coisas relacionadas aos “novos” valores sociais, política, conformismo, intolerância…

RM: Hoje, os quadrinhos se prestam a assuntos bem mais variados do que somente a comédia. Vários artistas têm uma abordagem mais sensível, ou mais crítica, como o próprio Liniers que tem quadrinhos melancólicos e Moon & Bá que frequentemente colocam algumas questões nas tiras.
Suas tiras também colocam algumas questões para pensarmos.
O Mentirinhas foi mudando com o tempo e ficando cada vez mais com a minha cara. Passei a expor mais alguns pensamentos e experiências. Muita coisa vem da época que fui bombeiro.

RM: Tem alguma história interessante pra contar pra gente?
Vez ou outra faço histórias baseadas em acontecimentos reais. Tenho a ideia de fazer uma série contando minha passagem pelo Bombeiro, já fiz a primeira –  “o anjo da morte”. Aos poucos soltarei outras.

RM: Quais são seus outros interesses?
Fora desenhar de tudo, gosto muito de animais e natureza. Quando dá pra tirar uns diazinhos de férias, gosto de ecoturismo, mergulhar e coisas do tipo.

RM: Quais quadrinhos ou autores de quadrinhos você considera indispensáveis hoje?
Da atualidade: Liniers, os irmãos Moon e Bá e o Vitor Cafaggi.
De qualquer época: Will Eisner, Bill Watterson e Fernando Gonsales.

Limpo

terça-feira, dezembro 10, 2013

Conhecido no graffiti como Limpo, Fábio Rocha é baiano de Salvador, tem 33 anos e há 5 mora na Suécia. Ilustrador e grafiteiro, ele se inspira principalmente na realidade difícil que ainda encontra no nordeste: trabalho infantil, fome e o preconceito sofrido pelo povo nordestino no resto país…

RM: Hoje você trabalha como ilustrador – entre outras coisas, de livros infantis. Existe algum intercâmbio aí entre o graffiti e a ilustração? O que vai de um para o outro?
O lance da ilustração aconteceu através do graffiti. Foi a partir daí que surgiram os convites. Costumo falar que são ilustrações grafitadas só que não em paredes.

RM: Você também dá aulas de graffiti. Qual o público que chega nas aulas?
Tenho muitos trabalhos paralelos à minha arte.
Um deles são as oficinas de graffiti. O público não tem idade específica.  As pessoas chegam querendo ter o contato com o spray, aprender a técnica. Chegam através do contato com o meu trabalho no graffiti.
Agora estou recebendo convites de empresas para conduzir oficinas de inspiração artística.

RM: Li uma matéria onde você menciona a falta de valorização do graffiti no Brasil, economicamente… Uma lata de spray hoje custa em torno de R$16,00. Um trabalho grande sai caro e pode não ter retorno. Qual é a realidade do graffiti em outros países que você conhece?
Alguns grafiteiros até conseguem fazer muitos trabalhos comerciais mas colocam pouco da sua arte nesses trabalhos. Aparece muita gente pedindo pra pintar coisas específicas: peixes, meninos, aviões e tal.
Fica difícil quando você já vem amadurecendo seu trabalho…
Hoje, vivo do meu trabalho e acho que não conseguiria fazer isso no Brasil.

RM: O que é o Turbilhão Urbano?
Turbilhão Urbano é um grupo formado por Peace, Sisma, Madureira e eu. São grafiteiros que começaram a pintar na cidade de Salvador e que influenciaram todos os grafiteiros que hoje estão pintando por lá. Hoje, o grupo atua em produção cultural, design, turismo étnico, graffiti…
É uma turbina da rua.

RM: Muitos de seus trabalhos retratam a realidade nordestina. Ainda hoje é assim? Como você se mantém em contato com o Brasil, a Bahia, estando longe?
O trabalho continua com as mesmas características. Estou vindo ao Brasil 2 vezes por ano.

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RM: Quais são suas fontes de inspiração?
As crianças magras, descalças nas ruas, tristes e sofridas.
Meninas ainda crianças que têm que trabalhar e ter responsabilidades de adulto.
As casas de madeira, o preconceito que vem sofrendo o povo nordestino.
A vida é a minha inspiração.

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Ricardo Tokumoto

quarta-feira, setembro 25, 2013

Ricardo sempre gostou de desenhar. Aliás, como ele mesmo diz, toda criança gosta – a diferença é que ele não parou.
Ele trabalhou em gráfica, foi selecionado para o salão de humor de Limeira, publicou um fanzine… tudo isso antes de finalmente começar a tão sonhada faculdade de Belas Artes.
Hoje, Ricardo é autor do blog “RyotIRAS”.

RM: Li que você gostava de desenhar quando criança. E que também se interessava por várias coisas diferentes: chegou a estudar música, pintura, fez oficinas de histórias em quadrinhos, desenho animado, elaboração de fanzines, escultura, teoria da arte…
Acha que quando alguém se interessa por alguma manifestação artística é natural ir abrindo esse leque?
Sim, e acho bastante enriquecedor quando não nos fechamos apenas a um dos caminhos que a arte pode prover. Sem falar que tudo isso está muito mais ligado do que imaginamos. É realmente muito comum escritores, pintores, músicos transitarem entre outras formas de expressão por mais que dêem prioridade a apenas uma delas. E não apenas no ramo das artes e ciências humanas, acho importante nos abrirmos e buscarmos os mais variados conhecimentos que nos interessam, independente da natureza. Acredito que quanto mais variedade nessa mescla de aprendizados, maior será a autenticidade e originalidade do seu produto final.

RM: Você trabalhou numa gráfica e começou a imprimir seus primeiros fanzines. Você citou que tinha uma ideologia né? Uma fase meio “revoltada”… Com o quê?
Na verdade essa revolta não acabou, só mudei as minhas atitudes pra lutar por minhas idéias. A revolta é contra todo esse esquema em que vivemos hoje, onde se prioriza o consumo acima de tudo e milhares de pessoas sofrem em prol de pouquíssimas. Essa desigualdade em que vivemos, não apenas financeira, mas de hierarquização de muitos aspectos que não fazem sentido algum. Me incomoda muito a questão do homem magro, alto, branco, heterossexual, cristão e rico sendo colocado como um ser superior a todos os outros. A minha luta, e que não é só minha mas de muita gente, é de se acabar com esse tipo de pensamento individualista que nos coloca contra nós mesmos diariamente. A ponto de famílias, irmãos, casais, amigos se destruirem por conta de um sistema totalmente ilusório. No fim das contas é a velha questão de nos tratarmos mais como iguais e nos ajudarmos, sem essa película distorcida e confusa de rótulos e julgamentos nos cobrindo. E que todos tenham direito ao básico, como eu tive.

RM: Quando você começou a faculdade de Belas Artes já tinha uma bagagem bem grande: tinha lançado um fanzine, foi selecionado no Salão de Humor de Limeira. Como foi essa fase?
A Faculdade foi um ótimo momento de amadurecimento. Por mais que já tivesse com uma bagagem tudo ainda soava bastante amador. Não que isso seja ruim, até hoje meus trabalhos mais autorais ainda possuem essa atmosfera, mas para que eu pudesse trabalhar e me sustentar como ilustrador, foi essencial esse salto para um maior profissionalismo. E também foi ótimo para expandir ainda mais meus horizontes, conhecer novas pessoas, entrar em contato com essa multiplicidade artística. Perder o medo de ousar e ver que tudo é bem menos complicado do que a gente imagina.

RM: Como é para você essa troca com os leitores que a internet propicia?
É o que mais me motiva em manter essa constante de produção. Se não houvesse esse retorno dos leitores que a internet possibilita tudo seria bem mais sem graça com certeza. Acho ótimo que novas ferramentas vêm surgindo e aumentando ainda mais essa interatividade, inclusive entre os próprios artistas. Assim como eu venho me aproximando cada vez mais dos meus leitores, eu também venho me aproximando cada vez mais dos autores que eu gosto tanto. Isso é sensacional.


RM: Qual é o perfil do leitor do site?
Acaba por ser um perfil muito semelhante ao meu, com uma faixa de idade entre os 20 e 30 anos, que geralmente tem uma forte ligação com video-games, internet, literatura, cinema, música, desenhos animados, os próprios quadrinhos e cultura pop no geral. Uma particularidade do humor que eu gosto de usar é um humor mais nonsense, ou seja, às vezes, eu prefiro atropelar a lógica em prol do riso e nem todo mundo está acostumado com esse estilo… o que me leva a atrair pessoas que já tem uma certa familiaridade com isso. E às vezes eu gosto de experimentar o contrário, tiras mais críticas e reflexivas, com um humor mais sutil, menos óbvio ou até mesmo sem essa necessidade de ser engraçado. Isso acaba por fechar também a gama de público, mas tento não fazer isso sempre, pra não restringir demais. Eu gostaria na verdade de ser o mais universal possível, mas sem subestimar a potencialidade do intelecto de cada um.

RM: Você também fez especialização em cinema. Quais são seus outros interesses?
O cinema é algo que eu gosto muito, mas ao me especializar aprendi que é uma arte colaborativa, que dificilmente dá pra se fazer sozinho. E isso acaba tornando a produção de um filme, por mais curto ou simples que ele seja, em algo que se precisa de um planejamento, dedicação e atenção maior. Então os projetos de cinema ficaram meio de lado por enquanto. Bom, eu gosto muito de música, toco alguns instrumentos e sempre tento estar em alguma atividade que envolva essa área, ou em último caso assistir apresentações musicais. Me interesso também por literatura, sempre estou lendo vários livros de uma vez, apesar de ser num ritmo mais lento do que eu gostaria. Artes Marciais, especificamente Kung Fu, que eu sempre admirei e agora estou também praticando. Sempre adorei vídeo-games mas tenho jogado bem pouco ultimamente. Procuro ficar sempre por dentro dos movimentos populares com um cunho social e tento sempre dar algum apoio. E por fim as artes plásticas no geral, gosto de pintar, desenhar, tenho idéias pra esculturas, instalações…
Infelizmente o tempo fica curto pra tanta coisa.

RM: Quais quadrinhos ou autores de quadrinhos você considera indispensáveis hoje?
O Laerte pra mim é um dos principais. Sempre cito também o Fábio Zimbres e o Lourenço Mutarelli. Dos quadrinistas estrangeiros não tem como fugir de nomes como Alan Moore, Katsuhiro Otomo, Osamu Tezuka, Chris Ware, Geof Darrow, Moebius, Daniel Clowes, Neil Gaiman, Art Spiegelman, Will Eisner, Scott Mccloud, Charles Schulz, Bill Watterson… E tem muita gente nova e boa surgindo tanto lá fora como aqui no Brasil, por exemplo Rafael Sica, os gêmeos Bá e Moon, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Gustavo Duarte, Eduardo Medeiros, o pessoal todo das (In)Dependentes, meus amigos do Pandemônio: Eduardo Damasceno, Daniel Pinheiro, Daniel Werneck, Felipe Garrocho, Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi, Combrim, Eiko. E de fora tem o Craig Thompson, Cyril Pedrosa, Marjane Satrapi, Guy Delisle, Olivier Martin, David B., Christopher Blain, Taiyo Matsumoto, Dash Shaw, Nicholas Gurewitch, Rui Tenreiro, Bryan Lee O’Malley… Nossa, é muita gente! E olha que eu na certa não citei nem um décimo de nomes bons que temos por aí! Com certeza esqueci muita gente e errei algumas grafias. De qualquer modo, coisa boa pra se ler é o que não falta!

Will Leite

terça-feira, novembro 6, 2012

Will tem 25 anos e é de Porecatu, no Paraná. Vive em Apucarana, gosta de miojo, futebol e – claro – tirinhas. Designer por profissão, Will Leite transformou o hobbie em site, onde os visitantes participam sugerindo idéias para as tiras.

RM: Quando você começou a se interessar por quadrinhos?
Comecei tarde. Só aos 20 anos, mais ou menos (hoje tenho 25). Comecei a fazer tiras depois que descobri alguns blogs de quadrinhos para internet.

RM: Lia quadrinhos quando era criança? Quais eram seus favoritos?
Eu confesso que não era um bom leitor quando criança. Arrependo-me hoje por isso. No entanto era muito observador e curioso. Folheava todos os livros e revistas da minha casa (de enciclopédias a revistas de bordado), procurando por ilustrações. E apreciava-as por horas. Tentava redesenhar algumas das ilustrações.
Minha família nunca teve o costume de comprar revistas de quadrinhos, gibis para mim. Mas lembro que lia a Turma da Mônica sempre quando criança. Também lembro de ler tiras da Mafalda, Calvin e Haroldo, Asterix e Obelix nos livros da escola.

RM: Como foi que surgiu o site? Quando você começou a fazer tirinhas?
Surgiu despretensiosamente. Eu li algumas tiras na internet. Cyanide & Happiness. Tiras naquele estilo palito. Um humor simples, direto. Me chamou atenção e pensei “Vou fazer algumas tiras assim também”. Fiz umas cinco, e publiquei no Orkut. A família e amigos gostaram, aí continuei desenhando. Quando já tinha umas 50, criei o blog. Ainda naquele estilo simplista, palito. Mas comecei a receber bastante crítica, por causa do estilo. Foi quando resolvi trabalhar em cima de um estilo que fosse meu mesmo. E é o que uso até hoje, e que vem dando certo.

RM: Como você vê essa realidade de hoje em que, com a internet, as pessoas têm mais acesso não só a consumir vários tipos de expressão artística como também produzir?
Tanto para quem consome, como para quem produz tem seu lado bom e ruim. O bom para quem consome é a rapidez na informação e a interatividade. O ruim, é que a internet acostuma mal essas pessoas, e elas não buscam um conteúdo mais confiável, digamos (livro, revista, bate-papo cara a cara).
Para quem produz, o lado bom é que a internet te dá a possibilidade de ser uma fonte de conteúdo, de informação. O lado ruim é que existe um mar de conteúdo, vindo de todos os lados, que engolem o seu, e te faz só mais um, perdido ali. Pra se destacar é necessário que você faça um conteúdo bom e constante, para aparecer e agradar sempre.

RM: Qual é o perfil do leitor do site?
Na verdade, todo tipo de gente, de tudo quanto é lugar do Brasil. Mas numericamente falando, 65% homens e 35% mulheres. 80% têm menos de 24 anos… uma galera que está saindo do ensino médio e entrando no mundo acadêmico.

RM: Quais são seus outros interesses?
Gosto muito de futebol (de assistir, não de jogar). Eu trabalho como designer gráfico também. Aliás, é esse o meu sustento. O blog e os quadrinhos são como um hobbie. Mas a cada dia me interesso mais pelos quadrinhos.

RM: Quais quadrinhos ou autores de quadrinhos você considera
indispensáveis hoje?
Eu admiro muita gente. Nacionalmente tem uma série de artistas que me influenciou bastante.
Gosto muito dos ilustradores ‘das antigas’, da época do Pasquim: Ziraldo, Jaguar, Millôr, Henfil, Glauco. Mas tem gente que se destaca ainda – e principalmente hoje – que são mestres como Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai, Orlandeli, Allan Sieber. E tem também uma turma nova, que está aparecendo principalmente na internet que admiro muito, como Ricardo Tukomoto, Carlos Ruas, Fábio Coala, André Dahmer, etc.
Mas os que são para mim, indispensáveis, que eu leio toda a semana e sou fã: Mikael Wulff e Anders Morgenthaler (Wulffmorgenthaler), Maitena e Adão Iturrusgarai.

Nuno de Matos

quarta-feira, setembro 26, 2012

Nuno de Matos, também conhecido como Matox, é artista plástico. Nasceu em Portugal e hoje reside na França. Seu trabalho, considerado expressionista, foi influenciado pelos graffitis de rua – do Bairro Alto de Lisboa e do Barri Gotic de Barcelona.
Nuno se interessa pelas cores, movimento, texturas e caligrafia. Explora a fotografia e faz experimentações como lightdesign e lightgraffiti. Organiza todos os anos “la croisée d’art” em Eus (catalunha), exposição de arte contemporânea.

RM: Você transita entre vários países. Vê diferenças nas expressões artísticas de cada lugar?
Sim, acho que cada lugar tem sua magia própria. No processo atual de globalização, os artistas viajam muito, para conhecer, partilhar, mas também para investir em novos espaços.
A arte nas galerias pode ser a mesma em São Paulo, Nova York ou Paris, mas a arte urbana, deve estar imersa nessas cidades de forma muito diferente. Por isso, cada artista gosta de estar imerso numa nova cidade, para criar um novo impulso em sua criação…

RM: Acha que o contato com esses vários contextos influencia seu trabalho?
Sim, cada passo na vida, cada encontro influencia a vida de nós todos, em particular para os artistas, que talvez sejam mais atentos às expressões plásticas.

RM: Como é o trabalho com lightpainting? Como é lidar com algo tão efêmero?
Há o lightpainting efêmero, só visualizável com uma máquina reflex, mas também há o lightpainting que é, propriamente dito, pintar com a luz. Isso abrange projeções no espaço urbano… É efêmero também, mas o público pode ver ao vivo o que está projetado. Além disso, com as projeções é possível interagir com os espaços sem “vandalismo” e ao mesmo tempo sem perder o aspecto subversivo.

RM: Você utiliza várias técnicas: pintura, graffiti, fotografia… Como foi acontecendo essa mistura?
Gosto de brincar com tudo! Agora com as novas tecnologias há espaço para utilização de novas mídias na criação artística.

RM: Que artistas você admira?
Há muitos! Os clássicos: Picasso, Miró, Georges Mathieu… Atualmente há muitos artistas fantásticos. No Brasil em particular, gosto muito do trabalho de os gêmeos (que trabalham muito também aqui na Europa), de Zezão e suas intervenções abstratas, mas há muitos artistas que ainda nao conheço, por isso espero voltar ao Brasil em breve…

Clau Cseri

terça-feira, setembro 27, 2011

Claudia Cseri é artista plástica e restauradora. Além disso, cria semi-jóias e conhece bem a arte da tapeçaria. Nascida em São Paulo e filha de europeus (o pai é austríaco e a mãe italiana), aprendeu ainda jovem e em companhia das irmãs a arte que os pais dominam.
Curiosa, Clau fez cursos de fabricação de tintas e de papel artesanal. Com as dificuldades da vida de artista, está sempre correndo atrás de novas possibilidades.

RM: Seus pais também são artistas. Foi essa convivência que despertou seu interesse?
Meus pais são artistas no ramo da tapeçaria artística: meu pai – austríaco de Viena e minha mãe – de Udine – se conheceram em São Paulo. Quando jovem ele aprendeu tapeçaria artística em Viena e quando se casou com minha mãe ensinou a ela todas as técnicas . Mudaram-se para a fazenda onde vivemos agora e montaram o atelier 7 pastores e começou a produção das tapeçarias por encomenda e venda em exposições. Aprendi junto com minhas irmãs, e como sempre tive paixão pela arte foi fácil.

RM: Você tem um grande interesse também pela fabricação dos materiais (fez cursos de fabricação de tintas e de fabricação artesanal de papel). Como acha que isso complementa a sua experiência como artista?
Eu sempre fui muito curiosa e queria aprender como se fabricavam as tintas e outros materiais, e por coincidência surgiu um curso de fabricação de tintas com pigmentos minerais na Galeria Documenta em São Paulo e também o de fabricação de papel artesanal na mesma galeria – é claro que corri pra aproveitar essas chances. Adorei. Foram maravilhosos os dois cursos, são as técnicas antigas que os artistas usavam quando não existiam as tintas industriais, mas bem mais saudáveis. Me fizeram crescer muito como artista, e serviram muito também na restauração.

RM: Você também trabalha com restauração, tapeçaria artística, entre outras coisas… É muito difícil viver da própria arte?
Acabei entrando para a restauração por incentivo de minha tia e adorei pois envolve muita pesquisa, cada obra a ser restaurada é única e a gente acaba conhecendo toda a história de sua origem, muita técnica, bom olho para perceber todos os detalhes e paixão pela arte.  A tapeçaria acho que é continuação da pintura  em outra técnica. Atualmente está  muito dificil viver de arte, por isso temos que sempre fazer  outros cursos.  Atualmente estou fazendo curso de computação gráfica – animação – para poder ampliar chances de melhores trabalhos.

RM: Para você, qual é o papel da arte?
Acho que a arte faz parte do dia a dia da humanidade mesmo que as pessoas não percebam, ela nos dá o equilíbrio para a vida se tornar mais agradável – ela abrange tudo: principalmente a natureza. Ela é um meio de comunicação que se expressa através da beleza, formas, cores, tanto na pintura, na tapeçaria, nas semi-jóias, no cinema, na fotografia – em todas as expressões. O mundo sem a arte não daria certo, já está difícil com ela,  sem ela o mundo não existiria – ela faz parte do meio ambiente de nosso lindo planeta, e universo.

RM: Quais são as suas influências?
As maiores influências foram do Picasso e Cezanne. Sempre gostei muito do tabalhos de ambos.

RM: Quais os artistas da atualidade você destacaria?
Dos artistas atuais, acho o Romero Brito um bom artista, não por estar na moda mas por ele ser autêntico e simples. Frann, Clarice Sarraf, Walter Handro e outros ótimos artistas.

Toes

sábado, julho 2, 2011

Thiago Toes nasceu em Curitiba e vive em São Paulo. Começou a desenhar influenciado por seu pai e ainda muito cedo conheceu e se interessou pelo grafite. Thiago trabalhou com Nina Pandolfo e desenvolveu um estilo muito próprio, com traços retos e desenhos por vezes abstratos. Toes comenta como se inspira em seus próprios sonhos, sentimentos, etc.

RM: Como foi seu primeiro contato com o grafite?

Foi nas férias em 1998 quando vi um pessoal na quadra em frente a minha casa fazendo um GRAPIXO. Não entendi muito o que estava rolando, daí na semana seguinte começaram as aulas no colégio novo onde eu iria estudar e lá conheci um dos graffiteiros que fez aquele grapixo. Cheguei em casa e fui conversar com meu pai que é desenhista publicitário e eu sempre desenhei por influência dele. Uns dias depois meu pai apareceu com uma revista de graffiti bem velha em casa, que ele encontrou na banca. A partir daí, comecei a reparar no graffiti e na pixação, pois comecei a andar com o pessoal mais velho do meu bairro que pixava e a cada dia fui conhecendo mais o que era este movimento. Daí no colégio fiz meu primeiro desenho na parede, mas eu era muito novo, tinha apenas 12 anos, não conseguia dinheiro para comprar spray e também meu interesse na época era muito mais pixar do que fazer graffiti. Em 2001 fui em um evento em Santo André, vi tantos graffiteiros e estilos diferentes que me chamaram atenção que voltei para casa querendo fazer letra e desenho na rua. No dia seguinte, fiz minha primeira letra na rua. Mas meu contato com estilos e o movimento graffiti foi muito lento, pelo pouco acesso (ao material) e porque havia poucos graffiteiros na minha cidade. Só no final de 2002 para 2003 comecei a pintar um pouco mais na rua e entre 2005 e 2006 foi a época que entendi mais o que era o graffiti e o que ele representava e assim eu fui buscar algo além do graffiti ou coisas ainda não descobertas dentro dele.

RM: Percebe diferenças de estilos de acordo com os lugares?

Claro. Cada região – bairro, cidade, estado, país – tem seus estilos que a diferenciam de outros lugares. Porque cada lugar teve alguém que começou e então este primeiro acabou influenciando todos os outros que vieram depois. E acredito também que em cada lugar existem diferenças de estilo pela cultura ao redor, ou pelo estado financeiro ou por movimentos que possam ter existido no lugar muito antes.

RM: O seu trabalho ou parte dele é considerado abstrato… Você acha importante esse tipo de distinção entre estilos?

Para ser bem sincero, eu nunca parei para pensar sobre isso, se parte dele é abstrato ou não, porque na verdade eu nunca me importei com isso, em seguir distinção de estilos e etc. Meu trabalho tomou este rumo por aquilo que tive influência na minha vida, e principalmente pelas coisas que meu pai criava em casa, mas tudo isso nunca pensando só em influências abstratas, porque gosto de muitas coisas e acredito também que meu trabalho direciona para várias coisas, pois sonhos não tem limites.

RM: Que coisas te influenciam? Que outros artistas?

Sempre sonhos, o contato com a atmosfera humana, sentimentos, meu mundo que carrego aqui dentro. A relação com as pessoas, no começo com meu pai e a partir dele vários outros artistas, desde músicos, escritores, artistas plásticos, fotógrafos, enfim, tudo que você vê, ouve ou sente pode ser sua influência, mas depende só de você conseguir saber o que lhe toca mais.

RM: Que outros artistas você indica pra gente?

Tenho vários artistas para indicar que eu gosto muito: todos os meus amigos da minha crew – porque todos eles são pessoas de muito talento – e outros como Robert Kaltenhauser, Peter Michalski entre outros… Mas tem uma pessoa com quem trabalhei por um tempo que me ajudou muito a trabalhar como um artista e me ensinou muita coisa no mundo da arte em todos os aspectos: a Nina Pandolfo, uma grande artista e amiga.
Agradeço também ao Finok, um grande amigo, um irmão.