Tales Sabará

by

Tales Sabará é de Minas, tem 28 anos e é formado em Pintura e Gravura em Metal.

Vê a arte como um meio de despertar emoções nas pessoas e idealiza projetos que promovam o acesso à cultura.

RM : Como surgiu seu interesse pelas artes?
Hoje, aos 26 de idade, fazendo uma retrospectiva do meu início com o que possa chamar algo próximo das artes visuais, tendo a dizer que meu interesse pelas artes nasce do contato com o desenho, linguagem que se faz presente principalmente na infância, na vida de qualquer um.

Por ser filho de mãe professora e pedagoga e muito influenciado pela minha tia Delvira, também professora, ter o contato com papéis diversos, desenhos para colorir, lápis de cor, caneta e tantos outros materiais sempre foi algo natural. Isso despertou minha paixão e ao longo dos anos procurei aprofundar certos conhecimentos.

Lembro-me de, aos 12 anos de idade, ainda em Congonhas (Minas Gerais), ser inscrito por meus pais em aulas de desenho de observação, ministradas pelo professor Jomadi e de pintura com a professora Nadege. Esses dois profissionais foram muito importantes em minha vida, pois me apresentaram as primeiras noções técnicas da pintura e do desenho. Aliado a isso, a figura dos meus pais (Ângela Sabará e João Sabará) que sempre incentivaram cada passo. Aos 16 anos de idade recordo-me deles me levarem em uma exposição de gravuras de Pablo Picasso. Naquele momento ainda não conhecia muito a respeito do processo de gravura e tudo mais, mas foi suficiente para que eu decidisse o que gostaria de tentar na minha vida profissional, já que os trabalhos do artista espanhol me comoveram profundamente. Naquele momento percebi que um trabalho de arte propriamente dito não estava apenas a serviço da técnica, haveria que ter uma busca maior, tocar outra pessoa, e foi isso o que aquela exposição deixou e que hoje tento a cada projeto.

RM: Você é formado em pintura e Gravura em Metal. O que você busca hoje como artista?
Sou graduado nas duas habilitações e sempre gostei de música apesar de não saber tocar nenhum instrumento. A citação da música aqui é apenas no intuito de dizer o que hoje pretendo com o meu trabalho. Vejo como a música é capaz de chegar às pessoas de forma tão espontânea e natural e ser capaz de emocionar. Sempre que vou a concertos, ou mesmo escutando rádio ou CD em casa me pego também me emocionando em um curto espaço de tempo. A minha busca, tentativa, com os projetos que realizo é: despertar emoções nas pessoas; inserir as artes visuais nos lares e nas vidas das pessoas – tal como a música está presente, já que em qualquer canto do país ou do mundo uma pessoa tem um radinho, mesmo que a pilha; promover o estudo das artes através das crianças e adolescentes.

Esse último item, vem ao encontro da criação do Atelier Kayab. Além de ser o meu local de trabalho em Congonhas (Minas Gerais), esse espaço é também galeria e recebe workshops, oficinas, palestras, em geral, oferecidas às pessoas da cidade em questão e municípios vizinhos, em especial crianças e adolescentes da rede pública de ensino. Com a elaboração de simples projetos pretendo, com a colaboração de amigos, outros artistas e empresas parceiras, incentivar a arte, a cultura e promover oportunidades.

RM: Você participou do projeto “No olho da rua” (fotografia). Como você vê essa troca entre as diversas formas de expressão artística?
A arte visual é um terreno muito fértil e possibilita ao profissional estar em contato com diversas áreas de conhecimento: desenho, pintura, gravura, escultura, vídeo, fotografia, etc. Nas minhas atuais produções, tento a mescla entre os universos e aprofundar o meu conhecimento a respeito de cada área. Cada nova área de atuação ajuda no direcionamento e construção de uma área anterior já estudada.

Com relação ao projeto citado, No olho da rua, a grata oportunidade de trabalhar com os profissionais Patrícia Azevedo, Murilo Godoy e Julian Germain só não foi maior que a oportunidade que esses me ofereceram de aplicar as artes visuais no contexto social. Tal projeto é configurado pelos profissionais citados e a cooperação de diversas crianças e jovens que vivem nas ruas de Belo Horizonte e visa incentivar a produção da fotografia de forma livre e apresentar ao público o trabalho realizado pelos moradores de rua, deixando clara a visão deles de mundo e do que são capazes. Além das questões poéticas e visuais presentes nas imagens que são captadas, esse material está repleto de questionamentos a respeito de diversas questões sociais globais que são trazidas ao público através da distribuição gratuita de jornais contendo as fotografias. Ter participado desse projeto em 2007 transformou a minha concepção de mundo e das reais necessidades humanas.

RM: Algumas de suas obras são bastante características e parecem ter uma ligação entre si. O que as obras como “D. Maria”, “D. Maria II”, “Maria Joana”, “Efigênia”, “Sr Agostinho” representam?

Fazem parte de um projeto intitulado Filhos da Terra. Nesta série de desenhos de grafite sobre papel, retrato homens e mulheres negras da minha cidade natal, Congonhas.

Quando iniciei o projeto, no final de 2008, início de 2009, acreditava que abordava a questão do negro na minha cidade e, por conseguinte, no meu estado ou país. No entanto, com o desenrolar do trabalho percebi que, na verdade, estava falando a respeito da minha identidade cultural, na medida em que estava falando de pessoas que faziam parte do meu cotidiano, como uma quitandeira, uma beata, um senhor do grupo de congado ou mesmo o meu avô paterno.

Aqui chamo a atenção para o quanto é importante para um artista visitar e revisitar o próprio trabalho e ter a oportunidade de apresentá-lo ao público. O primeiro ponto se faz importante para perceber as reais possibilidades e propostas ditas pelo próprio trabalho; o segundo confere a oportunidade do artista compartilhar uma leitura possível com seu público e ao mesmo tempo ter uma ou várias leituras compartilhadas pelo público sobre o trabalho.

RM: A gravura em metal não é uma expressão tão popular. Por que você a escolha?

Quando visitei a exposição de gravuras de Picasso, que possuía cerca de 80 gravuras sendo a maioria gravuras em metal, talvez ali, no ano de 2001, muito distante da minha formação como gravador em 2011, tenha nascido o primeiro desejo de fazer gravura.

Ter feito o curso de Artes Visuais na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) me possibilitou conhecer processos que não eram familiares.

O intuito de estudar gravura em metal, que hoje é uma das minhas paixões, nasceu justamente da minha dificuldade em entender a técnica nos primeiros anos de faculdade. A gravura em metal é a sensibilidade da linha, ponta seca, buril, berceau, rolete e tantas outras ferramentas, ao mesmo tempo há a matriz a ser gravada, a prensa, o papel, as provas de estado, a prova de artista, a reprodutibilidade. Tudo isso em uma área, não é de se espantar o encanto que se desperta.

Após minha formação em pintura (2009) passei a dedicar meus estudos à produção da gravura em metal. No início, o meu embate passou a ser com as questões técnicas desse meio, somente hoje, após 3 anos de estudos, começo a ver outras possibilidades que irão me direcionar para a configuração de um trabalho propriamente dito nesta área.

RM: Suas obras são bem diversificadas. Você usa diversos materiais e técnicas, percebemos uma identidade em alguns grupos de suas obras como os desenhos em grafite, os desenhos em nanquim. Você busca essa diversidade?

A busca pela diversidade técnica passa primeiro pelo desejo de ampliar o meu repertório de possibilidades. Segundo, cada série de trabalhos e ou tema me sugerem apontamentos para qual processo deve ser utilizado. Não quero dizer com isso que a pintura, a gravura, ou desenho, ou qualquer área sejam capazes de dizer coisas específicas, porém percebo que a respeito de determinados temas, a minha pintura, ou o meu desenho, a minha gravura, possam ser mais coerentes. Aliás, considero que tema e processo caminham juntos.

RM: Você vive hoje do seu trabalho como artista? Como vê essa realidade hoje no Brasil?

Hoje o trabalho de artista visual não se resume ao papel de produtor de imagens. Considero que o artista hoje desenvolve trabalhos frente à produção cultural, gestão de projetos, marketing, consultoria, palestras, oficinas, workshops. Com a criação do Atelier Kayab em 2011 e a colaboração de empresas parceiras (Vale, itsNOON, Gallearte e Viamundi Idiomas e Traduções), temos aos poucos iniciado um trabalho que poderemos escalar em pouco tempo e gerar frutos, tanto do ponto de vista financeiro como social. Considero que essa é uma linha de raciocínio de diversos artistas, galerias e empresas apoiadoras e é uma atividade que aos poucos se desenvolve no Brasil.

RM: Que artistas da atualidade você admira?

Todo profissional tem as grandes referências que historicamente foram reconhecidas e comigo também não é diferente. Atualmente eu citaria os artistas que ao longo do tempo a vida me apresentou e hoje se tornaram amigos pessoais, como: Gil Vicente, Marcelo Silveira, Mário Zavagli, Clébio Maduro, Bruno Amarante, Eduardo Rosa, Marcel Diogo, Marcelo Albuquerque, Paulo Fiotti, Manoel Veiga, Renato Valle, Fábio Belotte, Patrícia Azevedo, Luciomar S. de Jesus, Sérgio Barros, Leandro Figueiredo, Daniel Bilac, Gabriela Brasileiro.

Anúncios

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: