Thales Paradela

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Thales Paradela é poeta, ator e professor. Reside no Rio de Janeiro. Os poemas aqui publicados pertencem ao livro “Pedra curva tempo”, Publit, Rio de Janeiro, 2009.

 

 

 

 

 

 

OLHOS ABERTOS

Não, não pisca!
Aconteça o que for,
mantenha a pupila dilatada
e as pálpebras escancaradas ao eterno.
Pelo amor de deus,
não pisca!

Tens a lua em tua íris.
Nesse refratário úmido,
o ontem, o hoje e o talvez
ecoaram em uníssono
e fui pleno.
Ao menos ali
reconheci-me íntegro,
como o espelho sempre me negara.
E altivo, fiz-me todo:
a criança que não fora;
a caligrafia que não praticara;
a palavra que não esculpira;
o beijo que não dera;
o leão que não adormecera;
…mas era eu…

Eu por mim desconhecido,
aquele que tu sonharas.
Era pleno e estilhaçado.
Mitigado em planos
e recomposto em amor:
o teu.

QUANDO

Não é sempre que te quero.
É só quando a aurora
com olheiras roxas
chega atrasada ao ocaso da noite;

É só quando o tempo
com cabelos desgrenhados
veste sua camisa pelo avesso;

É só quando a lua
comovida por um beijo abandonado
esquece-se no firmamento
em soluços até o meio-dia;

É só quando a pena
verga-se flácida
e o tinteiro resseca-se por não conseguir grafar adeus;

É só quando mais não me vejo
e o que fora de mim jaz semeando chuva,
plantando, não minha carne, mas minha angústia;

Não é sempre que te quero:
é só quando existo.

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