Carmen Moreno

by

Carmen é carioca, contista, romancista, poeta e dramaturga. Tem formação em Artes Cênicas e Educação Artística. Tem vários livros publicados, entre eles: o romance “Diário de Luas” de 1995, o romance policial “O Primeiro Crime” de 2003, contos em “O Estranho” de 2006 e está lançando agora em 2010 o livro “Loja de Amores Usados” (Poesia). Além de ter participado de antologias como “Mais 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira” (contos, organização de Luiz Ruffato) e “Antologia da Nova Poesia Brasileira” (organização de Olga Savary).

Carmen é atuante em saraus de poesia desde a década de 80. Leciona teatro e já adaptou um de seus romances para o cinema.

RM: Você é contista, romancista, poeta, professora… Como você se define e se apresenta?

Sou poeta e ficcionista (contista e romancista). Já escrevi peças de teatro, mas não me dedico à dramaturgia, por não ser meu gênero literário preferido. Leciono Artes Cênicas e trabalho também como professora de Sala de Leitura, desenvolvendo projetos de incentivo à leitura, para adolescentes.

Publiquei:O Primeiro Crime, romance policial (Rocco); Diário de Luas, romance (Rocco); Sutilezas do Grito, contos (Rocco); O Estranho, contos (Fivestar); De Cama e Cortes, poesia (UERJ), A Erosão de Eros, dramaturgia (RioArte) e Loja de Amores Usados, poesia (Multifoco). Meu trabalho integra várias coletâneas, entre elas aAntologia da Nova Poesia Brasileira, org. Olga Savary (Hipocampo); Mais 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, org. Luiz Ruffato (Record); Quem Conta um Conto – Estudos Sobre Contistas Brasileiras Estreantes nos Anos 90 e 2000, org. Helena Parente Cunha.

RM: Como surgiu seu interesse pela escrita?

Escrever é um exercício de autoconhecimento e catarse profundos, do qual sempre necessitei, desde menina, sem perceber o quanto a ferramenta da escrita sustentava e impulsionava minha lucidez e alegria. Hoje tenho plena consciência da importância da criação literária na minha “salvação” pessoal. Tive uma infância feliz, pois a felicidade é um talento que herdei de minha mãe Carmen, mulher que, até hoje, aos 93 anos, é uma menina bem humorada e criativa. Mas não foi uma infância tão fácil, pois convivi com a esquizofrenia de minha irmã. A literatura me ajuda a realizar, de forma lúdica e intensa, minha travessia existencial, sempre ao encontro do meu semelhante. Não é um mero expurgar de fantasmas, e tampouco uma exposição de umbigo. A escrita é a terra do encontro. Parto de mim para o universal. Não construo um baú de experiências memorialistas, mas um moinho que as tritura e as transforma em comunhão e salto.

Através de seus símbolos poderosos, consigo mergulhar em mim e trazer à tona o outro, de forma densa, clara e inédita. Meus personagens (na prosa) são absolutamente intensos e reais. Existem, com todas as contradições e neuroses humanas. Fico feliz quando leio este tipo de comentário nas resenhas sobre meus livros, pois os personagens pulsam com a nitidez da vida que eu lhes empresto. Não apenas a minha, mas a que apreendo na íntima observação e absorção do meu semelhante.

Comecei a escrever poesia e depois me encantei pela prosa, que apresenta características marcantes do meu exercício como poeta. Meu irmão, Tanussi Cardoso, foi meu primeiro mestre e ídolo. Na antiga escola primária, aos sete anos de idade, sempre que a professora abria espaço, ao final das aulas, para atividades artísticas, eu levava seu primeiro livro para ler, diante da turma, orgulhosa por ter um irmão poeta. Aos 14 anos, escrevi meus primeiros versos, sob o olhar de estímulo delicado e crítico do Tanussi. Fundamental para a construção do meu próprio olhar humano e artístico. E, recentemente, tive a honra e a alegria de apresentar, no PEN Clube do Brasil, instituição da qual sou membro, um ensaio sobre a obra do meu irmão: Fragmentos do Humano e do Místico em Tanussi Cardoso. Foi uma noite de muita emoção para nós dois, e para a plateia também.

Gostaria de finalizar, compartilhando com vocês um poema que sintetiza a importância da escrita na minha vida.

ESCREVER:
TRANSFORMAR A DOR EM LEVEZA,
E QUALQUER LIXO HUMANO EM BELEZA.

RM: Você tem formação em Artes Cênicas e faz parte de um grupo de poetas que têm uma ligação muito forte com a poesia falada.
Como essas duas coisas se relacionam e colaboram entre si?

Carmen Moreno e Delayne Brasil ao violão no evento Poesia no SESI

Na década de 80, integrava o Teatrote, grupo de poesia teatralizada, juntamente com Leila Míccolis, Tanussi Cardoso e Eugênia Loretti. O grupo se apresentava em diversos eventos e espaços culturais da cidade do Rio de Janeiro, entre eles, a Academia Brasileira de Letras. Na época, eu trabalhava, ou tentava trabalhar (rss), como atriz. Isso facilitava a união dessas duas linguagens artísticas na minha vida. Mas faz muitos anos que só apresento minha poesia individualmente, embora em alguns eventos esteja ao lado de grupos importantes, como o Poesia Simplesmente, que organiza, há mais de 10 anos, o evento Terça ConVerso no Café, no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, e é responsável também pelo Festival Carioca de Poesia que, inclusive, está acontecendo agora, em novembro, em diversos espaços da cidade.

RM: O interesse pela poesia entre os jovens não é muito grande. Alguns escritores inclusive defendem uma apresentação da poesia de uma maneira mais moderna, mais atual, como Ferreira Gullar e o Chacal. Com tantos poetas atuais por aí… O que você acha sobre isso?

Os adultos leem pouco também, não só  os jovens. Recentemente, fiquei impressionada ao saber que 41% dos universitários brasileiros só leram um (1) livro na vida, além dos didáticos. É lógico que isso afeta a poesia também, pois há uma atmosfera de preconceito em torno desse gênero, lindo e essencial, que é relegado a segundo plano pelos editores, livreiros e imprensa.

Trabalho com adolescentes, desenvolvendo projetos que incentivam tanto a prosa quanto a poesia. Um deles, o Encontro com Aluno Leitor, forma multiplicadores do prazer de ler: os alunos que mais frequentam a Sala de Leitura são convidados a participarem de uma roda de leitura, onde são entrevistados pelos colegas,  compartilham trechos de livros, e indicam autores. A poesia está sempre presente e é bastante solicitada por meus alunos.

Qualquer produto, de qualidade ou não, vende. Depende da campanha de marketing que o impulsiona. Precisamos de propagandas sistemáticas, maciças e criativas em torno do livro e da leitura. Não bastam campanhas esporádicas. A criança e o adolescente precisam ler, na escola e no ambiente familiar. Mas com prazer. Para isso, o professor tem de ser um leitor, e a família também precisa ler. O avanço da tecnologia não pode servir de pretexto para que o livro seja deixado de lado, e a literatura concebida como algo superado e sonolento. Porque isso não é verdade! É preciso que se encontrem formas de valorizá-la aos olhos daqueles que estão com a personalidade em formação, aqueles cujo olhar ainda não está cristalizado. É necessário um investimento concreto na Educação, não só em termos da criação de prédios destinados ao ensino. Não precisamos apenas de escolas, embora sejam fundamentais. É importante que o aluno aprenda a pensar, pensar-se, refletir sobre o mundo que o cerca. E o livro é um instrumento imprescindível para essa expansão do espírito, da emoção e da mente. É urgente que se estabeleça um sistema de ensino criativo, inteligente, onde haja infraestrutura digna para o professor trabalhar e aperfeiçoar seu ofício. O sistema de educação pública abarca cerca de 40 alunos (ou mais) por sala de aula! Assim fica difícil…

RM: Como você encara as famosas interpretações de texto feitas nas escolas? Me lembro de uma professora citando Drummond e como ele não acertou questões de vestibular sobre seus próprios poemas…

Como já disse acima, é necessária uma estrutura educacional inventiva. Não se aprende a gostar de ler realizando exercícios preguiçosos de múltilpla escolha. Onde está a consideração pela subjetividade, pelo olhar pessoal do estudante? Além do mais, ele precisa escrever, dissecar e narrar seus sentimentos, sua percepção sobre o texto. Representá-la, não só através da palavra escrita e da oral, mas também através dos recursos simbólicos, por exemplo, das diversas linguagens artísticas.

RM: Teve uma época – eu diria que mais ou menos na década de 90 – em que se falava muito sobre poesia feminina.

Leila Míccolis, Elisa Lucinda… Adélia Prado… Carmen Moreno…
O que você acha de se usar essa classificação? Algumas escritoras inclusive não gostam do termo poetiza, preferindo poeta. Você se incomoda com isso? Ou acha natural?

Entendo que há diferenças físicas, biológicas, psicológicas e culturais entre homens e mulheres, e que isso se reflete no comportamento de ambos os sexos, e em tudo o que produzem, inclusive literatura. Mas não acho que essa diferença seja marcante o suficiente para classificarmos uma produção artística a partir desse ponto. Até porque, o mais importante é a qualidade da escritura, e isso não tem nenhum vínculo com gênero sexual. Quanto ao termo, prefiro poeta, acho mais sonoro.

Umbigos

Tenho minha mãe entre as pernas.
Há anos eu tento pari-la, parti-la de mim.
Mas minha mãe não se desgarra.
Me assombra no sono perder minha mãe –
Mato minha mãe desde criança,
Quando sonho sua morte e acordo sobressaltada.
E choro sempre uma dor maior que esse amor
Medonho – medo de morte. Premeditada?
Sempre quis ter pernas minhas:
Partir por mundos. Mas como deixá-la?
Como me deixar só – sob meus tratos?
Sou o que minha mãe me deu.
Não posso ser o que roubou de minhas asas.
Hoje me trato bem, restauro melhor minhas mágoas.
Poderia inventar uns caminhos só meus…
Quem sabe, sumir por tempos, itinerante tardia,
Já que não plantei nem filhos nem machos.
Mas minha mãe, velha, é uma filha
Inesperada. Indesejada?
Cuido dela como se fosse partir a qualquer
Lapso do meu olhar.
Minha mãe passou a ter toneladas.
O amor é uma invenção pesada.
Tenho essa mulher debruçada em peitos
E colos sobre meus passos.
Sou seu brilho, sua festa e solidão.
E morro de medo do fim:
A liberdade de um dia morrê-la em mim.

 

RM: Tem muita coisa acontecendo hoje na poesia. Muitos poetas contemporâneos, muita gente nova, tem essa coisa de internet, blog literário, canais de poesia no youtube. Você participa bastante dessa cena. Que outros escritores você indica pra gente?

Tanussi Cardoso, Delayne Brasil, Laura Esteves, Telma da Costa…

RM: Lançamento do novo livro, muitas apresentações falando poesia por aí, quais são as próximas novidades?

Novidades no meu blog: www.carmenmorenoemprosaeverso.blogspot.com
Ficarei muito contente com a visita dos leitores desta Revista e com seus comentários.

Quase cinquenta

O amor roçou no tempo até esgarçar-se de vez – por excessos
Quando caminho as coxas roçam uma na outra – por excessos
Cortar gorduras é exercício estóico (às vezes esmoreço e espreguiço)
Mas tenho apreço pela assepsia da alma:
Limpo desde menina o lixo entranhado na história
Há que se enxergar a dor com lupas
Sangrá-la até libertar o sorriso soterrado
Sorte: o sol é exercício diário
Disciplino a fé – que o medo tem recantos insondáveis
Crescer não é uma linha reta
Recaio e aprumo os cabelos a cada ventania
Minha mãe há noventa anos me ensina que aprende
Apronta-se apenas para o instante
O presente é seu presente
Rega as plantas e tece bordados com mãos firmes
Teço palavras para salvar meus jardins
Que a seca é perigo iminente
Aprendo com minha mãe a brotar sementes podar folhagens
E espanar a fuligem que encobre os sonhos
Tenho quase meio século
Imprescindíveis tornaram-se os óculos para leitura
Mas prescindo de intérpretes para almas
Leio entrelinhas como nunca!
Venho esquecendo datas e nomes
Mas tenho lembrado de perdoar
Que o tempo não seria apenas a erosão dos neurônios
E o despencar dos músculos
Há que se gozar os ganhos da dialética:
Escondo a barriga sem lipo
Mas a alma – renovada – mostra a cara.

poemas do livro “Loja de Amores Usados”

Outros Livros da Autora
Anúncios

Tags: ,

Uma resposta to “Carmen Moreno”

  1. gloria nunes Says:

    Seu domínio das palavras é fascinante, carmen. O poema Umbigos é lúcido, feroz, certeiro. Muitas almas se sentiram, como eu, tocadas por falas vindas do âmago de seus umbigos. Obrigada por mais esse deleite.
    beijos
    glória nunes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: