O Pavilhão Dourado de Yukio Mishima

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Contribuição para leitura

O Ponto fundamental está em que este romance é alicerçado em uma construção linguística e cultural sobre o mundo, completa e complexamente diversa daquela que construímos cotidianamente e estamos imersos do Brasil.

Há pontos de contato que sobre nós exercem o efeito de uma miragem, onde lemos os sentimentos do outro como se nossos fossem. Mas decerto que não é assim. Provavelmente este é o item que determina o maior cuidado na leitura deste romance que de resto, é linear.

Estamos em um universo alicerçado no zen budismo, a religião que no Japão da época deste romance, era a religião ainda das elites com origem guerreira e samurai, resumindo, a religião das elites militares e imperiais.

Muito embora a personagem central, por um acidente de percurso faça fronteira com a miséria, o lugar social que seu pai ocupava e onde o deixou sob a proteção de amigos, é um núcleo cultural da elite. No Japão, a ligação do budismo com o campesinato pobre se dá através das seitas da Terra Pura.

Como todo o universo romanesco está amarrado na lógica zen, esta observação não é passageira. Dela podemos observar o seguinte:

Há uma opção cultural e religiosa pelo silêncio e pelos atos significativos, pois o zen, e especialmente o rinzai que é a seita da qual faz parte a personagem, sobrevaloriza ambos. Assim vemos como conseqüência, uma sobrevalorização do mundo íntimo, das reflexões subjetivas, de uma análise onde o pensamento aparece destacado da noção de ser em si, essa noção será estabelecida, determinada e demarcada em associação aos atos.

Há uma lógica que associa a existência de defeitos físicos ao mal, não no sentido estrito em que essa associação emerge entre nós – como resultado do pecado e da cólera de Deus – mas ao mal absoluto no sentido de imanente e inescapável àquele que é deformado. Deus não tem lugar na lógica budista, aqui apenas prevalecem os atos dos homens na relação que instituem conscientemente ou não uns com os outros e também com o mundo.

Há uma associação da compaixão com a ausência de ego, com a construção interior do vazio em contraponto não a existência de um ego inflado, mas a realização consciente e em ato de um ego forte, rígido que alicerça todo o mal.

Há ainda uma muito séria discussão sobre aquilo que é fenômeno composto e transitório em contraponto a uma realidade outra eterna, não no sentido em que compreendemos o Reino dos Céus cristão, muito próxima a noção de Terra Pura do Buda Amithaba, mas vinculada a discussão que contrapõe a Roda da Vida e da Morte, e o Nirvana, se traduzindo este último espaço como o Lugar onde não sopra o vento do Carma.

E há uma associação do Pavilhão Dourado, com a noção do Dharma de Buda, fazendo com que aquele emerja enquanto um avatar deste na terra, e dentro disto, explicitando um vínculo entre este símbolo e o velho mestre, que não é uma designação qualquer, mas expressão humana da mesma associação.

Uma vez feitas essas explicitações, podemos talvez compreender que o romance expõe a derrocada, o fracasso, mais do que humano, religioso de uma personagem que é marcada pelo trágico no sentido de um destino inescapável que está desde o começo delimitado e determinado para si.

É um romance linear enquanto desde o começo até o final, há um único percurso, sem desvios ou tergiversações, apenas emergem alguns momentos de resistência da personagem, alguns instantes de construção por ela, de janelas de oportunidade àquelas que a possam estar observando, como forma de – não exatamente impedi-la – mas barrar-lhe o destino.

As personagens secundárias de Uiko, Tsurukawa e Kashiwagi são marcos, demarcações, balizas onde o fluxo de pensamento que na tradição zen se confunde com o fluxo potencial do carma, se ancora de modo a nos dar uma compreensão plena do ato final.

Uiko é a emersão dessa barreira composta pelo olhar do outro, onde a personagem central se vê, descobre e reconhece enquanto uma revelação. Ela é então a encarnação de quem a revelou, de quem a consolida, institui e lhe abre por este mesmo feito, as portas de seu destino.

Tsurukawa é a âncora da beleza interior, a imagem da possibilidade da compaixão que está associada à beleza, a beleza do Pavilhão Dourado, do avatar do Dharma de Buda, que é a beleza manifesta da possibilidade do Vazio. Sua verdadeira natureza íntima enquanto uma imagem do Dharma é revelada pelas cartas que Kashiwagi entrega à personagem central. Neste momento sua emersão enquanto um humano falível e sofrido, enfrentando seu destino, reforça na lógica do suicídio o fracasso da realização religiosa.

Kashiwagi por seu turno é a encarnação não do mal, que a personagem central irá realizar, mas da pequenez mesquinha do cinismo humano frente ao ideal do Buda, ele é o avatar dos pequenos pecados, da lascívia do velho mestre, da mesquinharia do diácono e da inveja, ganância e puerilidade suburbana dos acólitos. Sua expressão como âncora da feiúra íntima, imagem da impossibilidade manifesta pela covardia que realiza um lugar animalizado e ridículo em um apequenamento que desconhece a si mesmo, iludindo-se com a arrogância e a auto-importância sem sentido, é essencial à construção do êxtase final da personagem central.

A cena final do romance:

Meus dedos tocaram no maço de cigarros em outro bolso. Fumei um cigarro, como um trabalhador que, ao cabo de um serviço, tira uma baforada e se sente pronto para a vida. E, como ele, eu quis viver.

É a expressão clara do êxtase zen no caminho da esquerda, do caminho que realiza o despertar através da assunção da face escura do fluxo do mundo, e mais uma vez aqui se enfatiza a distância que há neste romance em relação a uma moralidade ocidental, este mal transitório do e no fluxo do mundo, em relação ao budismo, especificamente o budismo zen, aqui comparece tão somente enquanto um meio hábil no caminho da prática em direção ao despertar: a personagem central despertou para a vida.

  1. Despertou: está totalmente presente no aqui e no agora – atenção/consciência de si/eternidade.
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