Olhar de Sol e Açúcar

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crônica de Lena Jesus Ponte

Nasce o Sol por trás do Pão de Açúcar. Fantasmas de neblina se dissipam no cocuruto do morro. Trampolim de luz. Olhos mergulham no azul de águas primevas, baía-placenta anterior ao Descobrimento. Brincadeiras de botos marotos. Raias riscam traços de Niemeyer na tela de areia. Ondas lambem a pele da encosta, vomitam mariscos e algas que se agarram ali, onde se perde o contorno, se fundem água e pedra.

O Sol sobe um pouco mais alto o trampolim. Despenca o desejo de ver caravelas aportando, uma brisa quinhentista enfunando velas, gritos de excitação e dedos apontando para a espantosa esfinge pétrea a vigiar a entrada da baía. Morros da Urca e Pão de Açúcar.

Mais um degrau de luz o Sol escala. O olhar descortina a passagem dos séculos, registrada no desenho mutante das embarcações. E revela a cabeça e o dorso ainda nus dos dois morros, as patas de pedra não aprisionadas por faixa de terra e casas e prédios e ruas.

Inclina o Sol e dependura, da cabeça ao dorso do grande felino, fios de luz. Ruge a fera, domada para transportar gentes com vontade de beleza.

Eleva-se mais o Sol no trampolim do tempo. 1958. Um olhar de criança entra no bondinho oscilante, a excitação, o sonho ícaro, o lá embaixo se afastando, o adeus da praça, o estudo de geografia subitamente vivo e colorido, enseadas, cabos, ilhas, a cidade adotada para toda a vida… o bondinho desafia alturas e medos, o bicho gigante cada vez mais perto, cada vez mais pedra, um tremor e enfim a descoberta de existir terra firme onde a imaginação menina só enxergava nuvens e morada de anjos e pássaros.

Está o Sol a pino e os olhos não abandonam esta Praia de Botafogo. Manhã inteira a viajar na luz e a percorrer todos os ângulos daquele corpo mineral, pensamento a perscrutar o universo de seres que ali escolheram habitar: insetos, aves, pequenos mamíferos e répteis; gerações e gerações de espécies da mata atlântica. A visão, por instantes, esquece o lixo que arranha a areia com suas unhas de plástico. Maiores que o aqui e o agora, os milenares morros preenchem a menina dos olhos adultos. Um gosto de açúcar na língua eternamente. O coração para sempre dependurado num fio. Sensação de ser a vida uma travessia de bondinho.

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