Lena Jesus Ponte – Professora e Poeta

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Lena Jesus Ponte nasceu em Vitória (ES), em 1950. Reside no Rio de Janeiro. Professora de Língua Portuguesa, lecionou em escolas da rede municipal de educação do Rio de Janeiro e no Colégio Pedro II. Atualmente dinamiza a Oficina da Palavra Luiz Simões Jesus e a Oficina de Haicai Luís Antônio Pimentel.
São quinze para as seis da tarde. Com medo de chegarmos cedo demais, o que poderia constituir uma gafe, vamos passear um pouco pelo bairro das Laranjeiras, enquanto aguardamos a hora marcada para conversar com Lena. É sábado, feriado, e tem jogo do Fluminense. Após um rápido reconhecimento pelas ruas adjacentes, voltamos ao nosso destino. Lena nos recebe com um simpático lanche, que ajuda a dissipar um pouquinho do nosso nervosismo. O escritor Wanderlino Teixeira está presente também. Entre sucos e geléias light, Lena nos revela que não come açúcar há alguns anos e que – embora isso seja difícil de encaixar na minha memória como sua aluna – é bastante tímida.

Elaine: Como você gostaria de ser apresentada? 

Lena: Como professora. Atualmente eu e o escritor Wanderlino Teixeira Leite Netto dinamizamos uma oficina de texto criativo.

Elaine: Você se lembra quando foi a primeira vez que você pensou em ser escritora?

Lena: Meu contato com o ato de escrever começou muito cedo. Meu pai gostava de brincar comigo de fazer quadrinhas. Ele me desafiava: para muitas coisas que aconteciam em casa, ele fazia dois versinhos iniciais e pedia que eu completasse com os dois outros versos. Aquilo ficava como um segredinho entre nós. Como uma brincadeira, um jogo. Ele me ensinava direitinho a métrica da redondilha maior, (os versos de sete sílabas). A gente dialogava daquela maneira muitas vezes. Então, antes de eu me alfabetizar, já tinha contato com a poesia. À medida que o tempo foi passando, ele tornava mais complexos os desafios. Pedia que eu fizesse os dois primeiros versos e ele completava com os dois outros… Às vezes, a gente emendava uma trovinha na outra. Quando eu tinha uns dezesseis anos, estudante do Colégio Pedro II, comecei a fazer um livro… Eu cheguei a mostrar pra você?

Elaine: O “Meu Mundo” (1965)?

Lena: Exatamente. Comecei a escrever aquele livro e papai me incentivou a publicar. Havia uma editora, a Pongetti Editores, que fazia algumas edições financiadas pelo autor. O pai fez aquele livrinho para mim. Depois que entrei para a faculdade, passei um tempo grande sem escrever. Escrevia muito esporadicamente. Causou-me um certo medo analisar as obras dos grandes escritores e perceber que eu não tinha a mesma capacidade, o mesmo talento, o mesmo nível de escrita. Aquilo me bloqueou por um tempo. Só mais tarde tomei coragem de voltar a publicar um livro, em 1983, já com 33 anos.

Elaine: Mas teve algum momento que você parou e falou: é isso que eu quero fazer. Ou não era? Não era uma coisa principal na sua vida…

Lena: Quando lancei o livro “Revelação”, em 1983, estava no auge da necessidade de trabalhar para ajudar a manter a mim e à família. Já tinha dois filhos, não tinha muito espaço e tempo para pensar em outra coisa além da rotina do trabalho e a criação dos meninos. Fazia poesia por prazer de vez em quando. Após lançar esse livro, não vi muitas perspectivas de continuar escrevendo para publicar. Só retomei essa ideia em 92…

Elaine: Com “O Corpo da Poesia”.

Lena: Em que juntei textos de várias épocas diferentes. Não sei se foi nesse ano que fui sua professora.

Elaine: Não… Foi em 94.

Lena: Devo muito da minha retomada a Wanderlino. Ele é uma pessoa que leva muito a sério a criação literária, tenta se profissionalizar, faz parte de instituições ligadas à Literatura, escreve quase todo dia… Ele falava muito: “Você tem que tirar seus textos da gaveta.” Mas eu sou muito tímida. Se puder, me escondo, sabe? Hoje em dia algumas pessoas já conhecem meu trabalho apesar dessa dificuldade minha.

Elaine: Também é uma área que você tem que correr muito atrás no sentido de lidar com as pessoas… É complicado mesmo né?

Lena: É… então, se depender só de mim, essa parte da divulgação fica muito difícil. Agora, com a Internet, que não exige o contato físico, direto, a divulgação tornou-se mais fácil. Tenho meu site, exponho meu trabalho ali, as pessoas que quiserem entrar, entram. Às vezes, pessoas que nem conheço fazem contato comigo.

Elaine: Você falou bastante do seu pai. Mas teve mais alguém que te influenciava? O que você lia quando você era adolescente? Você lia muito?

Lena: Ah, sempre li muito. Até porque sou de uma geração em que não havia tantos outros apelos. A diversão nossa era basicamente leitura. Me lembro muito que a minha mãe, desde que a gente era muito criancinha, chegava em casa, muitas vezes, com três livrinhos de contos de fadas, um para cada filha. Sem que a gente visse a capa, ela pedia que cada uma escolhesse um. Quando eu tinha treze anos, como sempre gostei de falar poesia, minha mãe me levou a uma senhora austríaca para fazer com ela um curso de recitação. E essa senhora me “apresentou” Fernando Pessoa. Fiquei alucinada pela poesia dele. Outro escritor que me marcou muito, que li pela primeira vez no segundo grau do Colégio Pedro II, foi João Guimarães Rosa. “Sagarana” representou uma descoberta para mim. Me lembro da sensação do sol entrando pela janela da casa da minha mãe, a luminosidade da tarde, eu lendo “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, descobrindo algo fundamental na minha vida. Machado de Assis também sempre considerei maravilhoso, mas Guimarães Rosa foi um susto. E Chico Buarque de Holanda! Me recordo do primeiro compacto simples dele, “Pedro Pedreiro”, em 1965 se não me engano. Eu tinha 15 anos. Uma surpresa grande. Considero Chico Buarque um dos grandes poetas brasileiros.

Elaine: E no geral? Pensei que você ia falar de Adélia Prado…

Lena: Sem querer, Adélia Prado influenciou minha vida de forma interessante. Eu fiz terapia, psicanálise, durante alguns anos. Já estava havia uns 7 anos em tratamento, achando que devia ser hora de parar. Mas pensava: “Como sair? Ainda tenho problemas, muitas dificuldades…” Certo dia, uma amiga minha, professora de Português, falou: “Nossa! Eu li uns poemas de uma mulher mineira maravilhosa, Adélia Prado, já ouviu falar?” Eu disse que não. E ela: “Olha esses versos que ela escreveu!” E recitou um trecho de um poema, não sei se é bem assim: “Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.” Eu pedi, impressionada: “Repete!” Ela repetiu… E eu decidi: “Vou sair da terapia, falar com o terapeuta, sinto agora que posso parar!”. Então a influência que recebi de Adélia Prado tem muito mais a ver com a minha alta da terapia (risos) do que com meu texto, embora em “O Corpo da Poesia” haja um pouco de impregnação de seu estilo, sim.

Elaine: Tem até uma frase que você coloca no livro que é “Minha poesia queria beber na biquinha do quintal de Adélia Prado”…

Lena: Naquela época, eu lia muito os poemas dela, um tipo de poesia ligada ao universo feminino, à simplicidade do cotidiano, poesia com a qual me identifiquei naquele instante de minha vida. Há certos escritores que, num determinado momento, influenciam toda uma geração. Penso que ela influenciou muitas escritoras como hoje em dia acho que Manoel de Barros influencia muito o jeito de escrever de vários poetas.

Elaine: Eu tenho a sensação de que o interesse por poesia é pequeno. Algumas editoras sequer aceitam poesias para avaliação.

Lena: Acho que tem sido difícil editar poesia quando não se é conhecido. Mas tenho uma sensação de que está havendo uma certa mudança. Percebo um interesse maior no momento em que a poesia está sendo veiculada de outras formas, falada em locais onde se fazem performances, em lugares menos convencionais como bares, espaços públicos, etc…. Tem havido grande divulgação de poesia pela internet. Um autor que não estudei na faculdade, mas que tem um público fiel, que está sendo supervalorizado e difundido na internet é Mario Quintana. Tem havido um florescimento da poesia por conta de outras mídias, de outras formas de apresentação do texto que não só pelo livro. E mesmo as editoras, parece-me, vêm se interessando mais por editar poetas contemporâneos menos consagrados.

Elaine: Quando você fez a Oficina Literária no Colégio Pedro II foi antes de você ter a Oficina da Palavra Luiz Simões Jesus?

Lena: Sim. Na verdade, sempre desejei ter um espaço de poesia no colégio. Só que normalmente você tem uma carga horária brutal de aulas, várias turmas, muitos alunos. No último ano em que trabalhei no Pedro II (em 1995, no Rio, na Unidade Engenho Novo), antes de me aposentar, me deram de “presente” a oportunidade de dinamizar uma oficina de textos. Eram alunos de quinta a oitava, também os de segundo grau, dos três turnos. Foi uma experiência gratificante para mim. Um ex-aluno, que fez a oficina, Luiz Otávio Oliani, é hoje um ótimo poeta, premiado, tem livros publicados. Me orgulho dele. Mas só que não chegou nem a um ano aquela oficina: saiu minha aposentadoria. Depois que me aposentei, Wanderlino, que já conhecia o trabalho, falou: “Lena, vamos desenvolver essa oficina fora do Colégio?” É lógico que a gente teve que fazer uma série de mudanças porque a minha escolha de textos tinha sido em função da faixa etária dos alunos, da vivência deles. Fizemos toda uma sistematização de conteúdos, de embasamento teórico, ampliamos a relação de textos considerando os novos objetivos… Nós já trabalhamos com pessoas de 16 até 90 anos na Oficina.

Elaine: E qual é o perfil das pessoas que procuram a Oficina?

Lena: Pessoas que simplesmente gostam de escrever. Desde gente que já tem livro publicado até gente que, se escreveu alguma coisa, escondeu muito bem escondido. Alguns, quando chegam, perguntam: “Que é que precisa trazer?” A gente fala: “Uma caneta e sua história”. Todas as pessoas têm uma história riquíssima a partir da qual podem trabalhar.

Elaine: Como foi que surgiu o seu interesse pelos haicais?

Lena: Em 93, meu pai ficou muito doente. Na mesma época, em Niterói, no Calçadão da Cultura, aos sábados, comecei a ter contato com um senhor, hoje com 98 anos, Luís Antônio Pimentel, escritor, jornalista, fotógrafo, desenhista… Ele é o mais antigo haicaísta brasileiro em atividade. No momento em que o meu pai morreu, adotei Pimentel como mestre. Ele morou, durante a Segunda Guerra, no Japão, trabalhou numa rádio em Tóquio e lá teve contato com a literatura japonesa. É um dos grandes difusores do haicai no Brasil. E naqueles papos lá no Calçadão, todo sábado, ele começou a falar comigo sobre haicai, fui me interessando. Comecei a fazer os meus haicais, a submeter à apreciação dele. Comecei a fazer haicais até como uma forma de elaborar a doença do meu pai dentro da minha cabeça. Meu pai era uma pessoa muito ligada à natureza. Todo o amor que tenho pela natureza decorre do contato com ele. E o haicai é uma poesia da natureza. Quando papai faleceu, juntei todo aquele material que tinha escrito na época em que ele esteve doente. Até hoje, muitas vezes quando escrevo um haicai, é como se estabelecesse uma cumplicidade com o meu pai. Depois, fazer haicai virou quase um vício, gosto demais. Tenho me aprofundado na parte teórica… Não dá nem para acreditar: há um mundo por trás desse pequeno poema. Então meu contato com o haicai se fez pelo Pimentel. Até hoje é o meu mestre. O haicai dele é metrificado (5, 7, 5 sílabas poéticas), dentro dos cânones do japonês tradicional. Também o meu, que aprendi com ele. Às vezes, tenho até vontade de fazer um haicai fora do rigor dessa métrica (há muitos desse tipo que me agradam), mas não tenho coragem. Minha impressão é a de que vou decepcionar meu mestre, sabe?


Pousa a cor na flor.
Um leve ruflar de azul.
Estremecem pétalas.

haicai do livro “Na Trança do Tempo” (2000)

Elaine: Com o advento da Internet surgiu o movimento dos blogs literários, que de certa forma democratizam a escrita. Você também disponibiliza alguns dos seus textos no seu site. O que você acha disso tudo?

Lena: De cada livro, eu escolho alguns para pôr no meu site. É como se fosse um aperitivozinho. Se o leitor se interessar, vai à procura do livro. Dos esgotados, já expus alguns textos a mais porque não vejo muita perspectiva agora de reeditá-los. Acho boa essa divulgação porque é complicado o processo de distribuição de livros. Com a Internet, pessoas de outros estados e até de fora do Brasil têm acesso ao seu texto. Pessoas que você nem conhece, que às vezes chegam casualmente ao seu texto. Muitas das que fazem contato comigo pela Internet vêm pelo interesse no haicai. Acabaram vinculando meu nome a esse tipo de poesia. Mas faço também poemas de versos livres, sonetos… No livro mais recente que escrevi, “Ávida Palavra”, exploro maior diversidade de formas poéticas.

Elaine: Você conhece escritores contemporâneos? Esses que estão lançando livros aí depois de já terem divulgado coisas na internet?

Lena: Conheço excelentes poetas. Por exemplo, o Ayrton Pereira da Silva, que fez o prefácio do meu livro, “Ávida Palavra”. A amazonense Astrid Cabral, que reside aqui no Rio, também é uma das grandes escritoras que conheço. Tenho contato mais com poetas que não estão tanto na mídia. Citei apenas dois exemplos. Tenho muitos amigos bons escritores.

Elaine: Como é que fica falar de movimento literário agora com tanta gente escrevendo na Internet? Você consegue ver alguma coisa de comum?

Lena: Provavelmente quem estuda a produção de poesia brasileira contemporânea deve saber se há alguma coisa em comum entre os escritores atuais. Eu não sou uma estudiosa do assunto. Apenas leitora, o que sinto é haver uma diversidade de tendências.


Essa Dona 

Cada ruga em minha cara
é uma história bonita
contada pela vida.

O espelho revela
o tamanho da trilha percorrida:
picadas em mato fechado, estradas pavimentadas,
atalhos, becos sem saída.

Gosto de ver de frente
esta cara de mulher madura,
onde o tempo inaugura nova idade
de descobertas e perplexidades.

Quando menina, pensava:
Estarei pronta um dia,
acabada, sem espantos,
dona dos conselhos e verdades.

No entanto, sou recém-nascida agora,
nesse meu tempo,
em que meninas me chamam de senhora.

poema do livro “O Corpo da Poesia”

Elaine: Duas perguntas pra fechar… E aí, “pronta? Dona de conselhos e verdades?”

Lena: (Risos) Nunca pronta. Agora eu sou avó, tenho 3 netos, estou aprendendo coisas com eles. A gente está aprendendo sempre com os filhos, os netos… Tive uma sorte grande na vida de ser professora de adolescentes.Com jovens a gente é obrigada a mudar diariamente. Muito importante estar sempre aberta para as novidades, não se fechar dentro de conceitos prontos, de coisas cristalizadas… Continuo estudando muito, adoro estudar… Por conta do haicai, tenho lido sobre Zen Budismo. Isso está me abrindo o mundo interiormente. A gente está aprendendo, a todo momento, com tudo, né? As mudanças tecnológicas são imensas, então, de repente, você se percebe meio analfabeto. Quem é de uma geração de tecnologias antigas precisa ter uma postura de humildade muito grande para aprender as novas. Chegar para um filho, como é que mexe nisso? Como é que faz com isso? O que é blog? Como é o nome desse aparelhinho que você falou?

Elaine: MP3.

Lena: Que é MP3? É tanta informação nova… A gente tem que ser muito humilde sempre para poder aprender, para poder mudar. Porque eu não acredito naquele negócio de “ah! no meu tempo…”. O tempo da gente é hoje, é agora. A gente tem que saber o que está acontecendo. Em relação a tudo, não só às tecnologias como também às tendências novas. Por exemplo, às vezes vou a exposições, instalações estranhíssimas. Posso não gostar de muitas coisas, mas a minha reação sempre é: eu quero ver. Tenho curiosidade, dificilmente digo “não gostei”. Acho estranho, diferente, por que será? Qual será a proposta? O que tem por detrás disso? Sinto uma curiosidade muito grande das formas diferentes que os outros têm de pensar, de sentir, de agir, de fazer, que não são as minhas. A gente não pode se fechar na gente mesmo. Então, pronta, dona de conselhos e verdades, eu não vou ser nunca!

Elaine: Quais são os próximos projetos?

Lena: Continuo com as oficinas. Tenho um livro de haicais para crianças numa editora, a sair em 2010. Exponho no meu site haicais com fotos de Niterói, de Quatis… E haicais para fotos de um amigo fotógrafo, Décio Brian… tenho gostado de associar a linguagem literária à fotográfica. Pretendo realizar outros trabalhos nesse sentido. E ainda tenho mais um livro de haicais inédito.

Elaine: Só isso… (Risos) É isso, gente. Obrigada.

LIVROS DA AUTORA

Oficina da Palavra Luiz Simões Jesus Oficina de Haicai Luís Antônio Pimentel
  • linguagem poética;
  • processo descritivo;
  • processo narrativo;
  • intertextualidade
  • breve história do haicai;
  • características temáticas e formais;
  • regras básicas de metrificação;
  • leitura de alguns haicaístas brasileiros;
  • criação de haicais (canônicos ou não)
  • Para maiores informações sobre as oficinas, consulte o
    site da autora.
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